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Educação versus Ensino – Desmistificar a Escola

Educação versus Ensino – Desmistificar a Escola

A vida é a verdadeira escola. As escolas propriamente ditas são lugares de encontro e partilha de instrumentos, metodologias e valores, vitais a um melhor entendimento e aproveitamento da nossa existência.

Não devemos ver a escola como o lugar para onde entramos com o objetivo dali sair a saber tudo. Logicamente estudamos para aprender e saber mais, mas à medida que evoluímos no percurso escolar as nossas dúvidas aumentam de forma inversamente proporcional às certezas.

Desta forma, a escola assume um papel preponderante no aumento da consciência das nossas limitações e não na irradiação da ignorância. A ignorância, salvo outras definições e opiniões, é uma falta generalizada de consciência, que induz certos indivíduos a emitirem, a maioria das vezes reproduzirem, opiniões sobre os mais diversos assuntos, com toda a certeza e arrogância que os caracterizam. Já os indivíduos que duvidam, constantemente, das suas capacidades e sabedoria, apresentam, normalmente, uma consciência superior da sua ignorância, em função de reconhecerem as suas limitações, num universo infinitamente grande e, ainda, significativamente desconhecido. Nestes indivíduos, normalmente prudentes, simples e sensatos, encontram-se, com frequência, cientistas e escritores, entre outras das nossas mentes mais brilhantes; que, como qualquer estrela, precisam de um pano de fundo escuro para brilharem.

As escolas estão normalmente associadas à educação, mas efectivamente são apenas parte do processo, cabendo-lhe unicamente o papel de formação e ensino. Com efeito, aquilo que normalmente chamamos de educação, tendo inclusive um ministério dedicado, é, na verdade, formação em determinadas matérias e disciplinas, muitas vezes transmitidas desgarradas umas das outras, como se não estivem relacionadas entre si. Tudo o que se passa numa sala de aula, obedece a um programa, onde os professores fornecem previamente as respostas aos alunos, que estes terão, posteriormente, de as regurgitar ipsis verbis. Não há espaço para a discussão de outras perspectivas, nem para a formulação de questões, sob pena de não serem compreendidos e, mais grave, serem penalizados. Neste modelo, perde o sistema, em geral, muito especialmente, perdem os melhores professores que se vêm privados de fazer diferente, como que rendendo-se à normalidade, perdem, ainda, os alunos mais ambiciosos que se limitam a decorar, em vez de pensarem. 

Educação é, realmente, mais complexa e não pode resumir-se a um programa de combate ideológico/político da esquerda à direita, dos pobres aos ricos, do socialismo ao capitalismo ou, ainda, da escola pública à privada. É claro que a escola tem a sua função nestes sistemas, mas deve ser o mais universal possível e geradora de oportunidades e não ser ela mesma um elemento de castração. A educação deve resultar de uma simbiose, formada a partir do indivíduo no centro, tendo a família presente, a escola desafiante, a sociedade contextualizante dos desígnios de uma pátria em respeito pelos nossos antepassados e os sonhos para lá da linha horizonte.

A escola deveria ser, também, uma das casas dos livros e um espaço privilegiado de leitura. Contudo, um tanto estranhamente relega os livros para uma biblioteca, normalmente pequena, onde se tem de entrar mudo e sair calado. Não há leitura, nem discussão de livros, apenas silêncio, como se estivéssemos a velar os livros, em vez de os celebrarmos. Acresce que esse comportamento recatado é difícil de impor aos jovens, idade onde se deveria estimular o gosto e interesse pela leitura, captando-lhes a atenção pela relevância que os livros têm na sua formação e vida. Na prática, qualquer barulho só perturba a leitura se essa estiver a ser desinteressante e maçadora, dado que infelizmente há casos de livros menos bons. Caso o livro seja realmente bom, lê-se até num festival de verão, na praia, no comboio, autocarro, entre outros lugares com vida. 

A situação é tanto mais grave, dado que ler é um dos raros prazeres da vida em que se pode exagerar à vontade, na medida em que a “ressaca” é, ainda, melhor do que o próprio ato em si. Por vezes nem fazemos ideia onde os livros nos podem levar, tanto no imaginário, como na realidade. O mundo será, afinal, pequeno para tamanha odisseia. Ao lermos bons livros teremos, no mínimo, a oportunidade de entrarmos em aventuras diversas, viver relações intensas, ou, mesmo, mudar o mundo, nem que seja pelo facto de nos mudarmos a nós mesmos.

Neste quadro de desmistificação da escola, parece-nos legitimo perguntar: Onde queremos estar e o que pretendemos ser em 2222? Na verdade, a data não é relevante, apenas tem que situar-se no intervalo de tempo posterior ao presente. Em resposta à questão, é comum ouvirmos a frase da sabedoria popular: “O futuro a Deus pertence”, como se de uma visão inatingível se tratasse. Ou melhor, algo que não depende de nós. Mas, curiosamente, o futuro é a único tempo sobre o qual temos domínio nas nossas vidas. Efetivamente o passado faz parte da memória e o presente é um quadro momentâneo, resta-nos preparar devidamente o que está por vir. 

É nesse sentido que a educação, em geral, e a escola, em particular, têm um papel preponderante no nosso futuro. Então não se compreende porque insistimos em estimar o futuro numa ótica de curto prazo, sendo frequentemente preparado à pressa, como se o importante fosse resolver o presente e o futuro breve, se possível, sem grandes sacrifícios. De salientar que a procura desesperada por resultados imediatos, que caracteriza a sociedade de curto prazo em que vivemos, causa ansiedade e frustração e conduz a resultados totalmente contrários aos esperados. Recorde-se que a gratificação é diferida e funciona segundo os princípios de um agricultor: i.e., primeiro semeia-se para depois colhermos. Assim, uma vez mais entroncamos na educação, ensino e na escola. De facto, os benefícios desta aposta são garantidos, mas levam anos a obterem-se os resultados. Desde que se entra no primeiro ciclo até concluir-se, por exemplo, um doutoramento é um processo longo, exigindo dedicação e sacrifícios pessoais e familiares, para no final concluirmos que o importante é o processo por mais difícil que seja.

Não obstante esta constatação, a maioria de nós faz de tudo para ser aceite e integrado nesta sociedade de consumo e curto prazo. Para o efeito, é importante ter um emprego fixo, muitos amigos, convites para almoços e jantares, marcar presença em festas e outros eventos sociais. Em síntese, é desta forma que perseguimos o sucesso e procuramos ser reconhecidos e, em última instância, até famosos. Todavia, isto não nos torna diferentes, muito menos extraordinários. Bem pelo contrário, tudo isto fará de nós seres perfeitamente normais, especialmente porque nos subtraem o tempo necessário para sermos extraordinários.

Nesta estranha forma de vida, são vários os casos de indivíduos extraordinários que, com frequência, passam por pessoas normais, às vezes até anormais, sendo mais frequente, ainda, os indivíduos normais julgarem-se brilhantes. Habitualmente a história acaba por corrigir o erro e revelar a verdadeira situação. Como, de resto, nos ensinou Machado de Assis ao proferir “Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”. Por outro lado, as pessoas extraordinárias não se devem preocupar com isso. Na realidade, uma pessoa inteligente nunca vai ser reconhecida por uma pessoa normal, não pelo facto de não ser inteligente, mas porque o normal é isso mesmo, normal. Aceitando este facto torna-se mais fácil para todos.

Logo, os indivíduos mais idealistas que ousam sonhar na realidade em que vivemos, normalmente acordam no meio de grandes pesadelos. Parece até que na terra dos sonhos, tudo é permitido à exceção de sonhar. Trata-se de uma espécie de processo de “descandidezação”, de que nos fala Voltaire através de “Candide”, o otimista. Ou seja, é mais fácil conquistar os sonhos no contexto da realidade em que vivemos, do que como gostaríamos que fosse, mesmo falando de uma escola. Daí que as pessoas que poderiam, eventualmente, ser empreendedoras e transformadoras, e felizmente existem várias, acomodam-se de forma a protegerem-se desta prática social.  

Assim, estamos sempre na mesma condição. Era normal e saudável que os netos e filhos sendo mais desenvolvidos, respetivamente que os avós e pais, fossem também melhor sucedidos e deixassem às gerações vindouras um país melhor do que encontram, tanto em riqueza, como em qualidade de vida dos cidadãos e das famílias. Mas pela primeira vez na história constata-se que esse crescimento pode estar hipotecado. Tendemos a negligenciar a sabedoria dos nossos ascendentes, com quem temos o privilégio de privar, condenando-nos a cometer os mesmos erros, entrando num círculo vicioso que satisfaz as forças centrípetas e centrifugas que nos mantêm sob controle. Desta forma, sem nos apercebermos continuamos, em geral, na mesma condição, tanto ao nível do conhecimento, como de estrato social. De acordo com um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre mobilidade social, uma família portuguesa pobre leva mais de 125 anos para alcançar um salário médio e faz-nos pensar em que educação queremos ter e que escola desenvolver e frequentar.

Termino ilustrando com recurso a uma passagem de Almada Negreiros, no livro de ensaios publicado em 1971 pela Editorial Estampa, que curiosamente encontrei deixado para trás numa loja de um centro comercial em obras. No ensaio, denominado “O Desenho”,  Almada Negreiros, conta a história de que os frades de um mosteiro acordaram entre si pintar um refeitório. Para o efeito, procuraram um pintor e encomendaram-lhe os frescos. O Pintor chegou e encostou a escada às paredes, abriu as latas de tinta, pôs os pincéis em ordem e quando tinha tudo para começar, foi-se embora despedindo-se com um “até amanhã”. 

Todavia, no dia, semana e meses seguintes o pintor não apareceu para realizar os trabalhos, deixando os frades intrigados. Entretanto, um dos frades ao regressar ao mosteiro de um passeio no exterior, relatou aos seus companheiros que havia visto o pintor numa feira rodeado por uma multidão, parecendo-lhe que o mesmo se havia esquecido totalmente do trabalho que lhe havia sido encomendado. Outros relatos se seguiram de outros frades, que avistaram o pintor à beira mar, sem materiais que o denunciassem enquanto pintor. O mesmo foi, ainda, avistado por um terceiro frade entre árvores de uma estrada num dia solarengo e assim sucessivamente foram sendo relatados novos avistamentos do pintor vagueando por diferentes lugares.  

Quando já ninguém acreditava que o pintor viesse fazer o trabalho, este subitamente apareceu no mosteiro e sem nada dizer começou a pintar os frescos, reproduzindo os lugares que tinha visitado durante a sua peregrinação, alguns onde havia sido visto pelos frades, designadamente o mar, as pessoas, as árvores, entre outros elementos. 

Moral da história, grande foi este pintor e os frades que lhe encomendaram os frescos, sem o condicionarem no tema. Os frades tiveram, ainda, a sabedoria de ter esperado pelo pintor mais de um ano. Esta é a ordem natural das coisas, primeiro o pintor andou um ano (simbólico) a ver o que ia realmente retratar. A principio os frades contrataram-no por ser pintor. De resto, o senhor possuía todos os materiais necessários para exercer a profissão, designadamente: escada, pincéis e a tinta. Mas, agora, tinha também feito o caminho da vida. Por outras palavras, o pintor tem o que é fundamental na pintura, na arte, na ciência e em toda e qualquer posição social de um homem: a autoridade pessoal.

É deste ponto de vista que surge o presente artigo.       

 

Referências

Almada Negreiros, J. (1971). Ensaios I, Obras Completas. Editorial Estampa, Lisboa.

OECD (2018). A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility, overview and main findings. OECD Publishing.

 

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