Nunca o acesso a informações foi tão facilitado em toda a história recente do mundo e a despeito da facilidade, os seres humanos, aos poucos, estão desaprendendo a ler e a escrever. A leitura deve ser um hábito criado e estimulado, como todos os outros, a facilidade de se adquirir informação e a necessidade de estar atualizado cria um vácuo na relação entre a leitura e a assimilação do conteúdo, a leitura deve abranger todo o contexto em que o texto fora escrito e está inserido, não há que se fazer uma simples verificação de certo ou errado. Pois, ambos os conceitos são muito amplos, e, a designação de que algo é certo ou errado deve perpassar por uma análise profunda de ações e valores.

O primeiro parágrafo determina um problema recorrente na atualidade, a ausência de interpretação de texto; Saber interpretar um texto é de absoluta importância em um mundo baseado nas relações sociais; A escrita e a análise devem conseguir verificar todos os aspectos presentes no texto.

A interpretação de texto se mostra viciada desde a alfabetização e se mantém claudicante com o passar dos anos. A dualidade ensinada desde sempre cria uma lógica binária na interpretação por parte das pessoas, ou é bom ou ruim. Até aí a falha é sanável com a demonstração de que a vida e as interações sociais são mais complexas e difusas que tal dicotomia.

A necessidade de adquirir conhecimento carrega uma dinâmica enviesada, haja vista que, o “conhecimento” muitas vezes é absorvido de fontes jornalísticas que carecem de estudos e aprofundamento. Isso sem mencionar os leitores de manchete, que supõem o conteúdo existente nas matérias, apenas lendo as chamadas. Não raro é encontrar manchetes que não se coadunam com o conteúdo da reportagem.

Cria-se um círculo vicioso, em que o leitor segue o escrito/descrito pelo texto e o escritor só escreve o que o leitor quer ler. Alguns diriam que as informações têm que ser passadas, doa em quem doer. Quanto a isso não há dúvidas! O que se deve evitar é a assunção, por parte dos meios de comunicações, de balizador da moral, bastião do certo e errado, criador e difusor de padrões.

O autor e filósofo Alain de Botton, em seu Livro Notícias: Manual do Usuário analisa o papel das empresas de notícias e a forma como as notícias são veiculadas, e, vale verificar que a profusão e a facilidade de se obter notícias cria um meio dissonante em que se busca, quase que exclusivamente, a venda das notícias, o alcance de uma verdade absoluta inquestionável, a ausência de discussão e o aprofundamento das ideias. A seguinte passagem demonstra que as empresas se valem do raso para evitar a profundidade dos assuntos: 

“As agências de notícias não gostam de admitir que o que nos apresentam a cada dia são fragmentos minúsculos cujas verdadeiras forma e lógica em geral só podem ser notadas a partir de uma perspectiva de meses – ou até mesmo anos – e que, portanto, muitas vezes seria mais aconselhável ouvir a história em capítulos, em vez de trechos de sentenças. Essas organizações seguem o pressuposto de que é melhor ter logo uma percepção parcial e duvidosa do que esperar algum tempo por um entendimento mais abrangente e seguro.”

Neste sentido, vale mencionar o livro do Jornalista americano Franklin Foer – World Without Mind: The Existential Threat Of Big Tech, em que se verifica o papel das grandes empresas de tecnologia na atual organização mundial e, também a penetração de tais empresas nas modificações pelas quais as sociedades atravessam. Importante tal análise, tendo em vista que um dos meios mais utilizados para a disseminação das notícias é a internet.

“Over the decades, the internet revolutionized Reading patterns. Instead of beginning with the home pages for Slate or the New York Times, a growing swath of readres now encounters articles through Google, Facebook, Rwitter, and Apple. Sixty-two percent of Americans get their news through social media, and most of it via Facebook.”

Como já dito, a criação de um ciclo que se retroalimenta determina, infelizmente, a perda da maior qualidade do ser-humano, a capacidade de pensar, se desenvolver e se relacionar socialmente. A imperativa escolha de lado gera um meio doentio, que tende a desconsiderar qualquer expectativa de diálogo, raciocínio conjunto ou modificação na situação.

O leitor deve criar um ambiente crítico, a possibilidade de discussão e a necessidade de reflexão. A adoção da lógica pela imposição não se mantém e cria uma distorção na realidade existente em face da almejada.

A leitura e o conhecimento são alcançados de diversas formas e estão presentes em todos os aspectos da vida cotidiana, saber ler não é simplesmente se utilizar da leitura de um texto, é saber inserir e se inserir no contexto do que está escrito, é falado ou exposto. Repetir, repassar e reverberar os textos sem qualquer contextualização ou análise crítica não é leitura, é apenas a absorção de palavras. E a absorção pura e simples não cria um ambiente sequer razoável para a implementação de ideias e modificações de paradigmas.

Leia, releia, crie formas de entendimento, se desafie e não engula sem mastigar tudo que lhe é passado. Argumente, contra-argumente, questione, participe.

Aos seres pensantes, pensemos!

 

Bibliografia

DE BOTTON, Alain. Notícias: manual do usuário. Editora Intrinseca, 2015.

FOER, Franklin. World Without Mind: The Existential Threat of Big Tech. Penguin, 2017.

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