Desenvolvimento Sustentável: construindo a definição – Parte I

Desenvolvimento Sustentável: construindo a definição – Parte I

“- Mas afinal, o que é Desenvolvimento Sustentável?”

Esta expressão tem sido investigada desde seu surgimento na 1º conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Sua designação ou apreciação se deu em 1980 na publicação Estratégia Mundial de Conservação: conservação de recursos vivos para o desenvolvimento sustentável, elaborado pela União Internacional para Conservação da Natureza e Recursos Naturais (World Conservation Strategy: conservation of living resources for sustainable development, prepared by the International Union for Conservation of Nature and Natural Resources – IUCN), em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA e outras instituições internacionais (GOUVEIA, 2015, p. 84).

Como a proposta deste estudo que é aplicar o Desenvolvimento Sustentável como prática da Administração Pública e Privada, é necessária uma definição absoluta para o termo. Contudo esta definição não existe e compõe desafio construí-la, mesmo que haja divergências quanto a abordagem, como início deste processo. Assim comporá nossa proposta, como série de artigos, a construção de uma definição de Desenvolvimento Sustentável. Inicialmente será considerado o que já existe, alguns conceitos abordados por sua própria relevância ou daqueles o que explicam, de acordo Mark Mawhinney, em seu livro Desenvolvimento sustentável – Uma introdução ao debate ecológico (1987):

Bruntdland (1987): “Desenvolvimento sustentável é aquele que provê as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de prover suas próprias necessidades.”; National Strategies for Sustainable Develompmente (2000): “Desenvolvimento sustentável é o “desenvolvimento econômico e social que provê as necessidades da geração atual sem salopar a capacidade das futuras gerações de prover suas próprias necessidades.”; Workd Wildlife Fund (IUCN et al., 1991): “Desenvolvimento sustentável significa a melhoria da qualidade de vida com o respeito aos limites da capacidade dos ecossistemas.”; ICLEI – International Council for Loccal Environmental Initiaves (1994): “O desenvolvimento sustentável proporciona serviços básicos de ordem ambiental, social e econômica a todos os residentes das comunidades sem ameaçar a viabilidade dos sistemas naturais, construídos e sociais dos quais estes serviços dependem.”; Novartis Foundation for Sustainable Development (2001): “O desenvolvimento sustentável envolve a criação de “programas nos países em desenvolvimento que contribuam diretamente para a melhoria da qualidade de vida da população mais carente.”; Banco Mundial (Pezzey, 1989): “O desenvolvimento sustentável não poderá ser mensurável per capta, devido aos seu evidente apelo como um critério de equidade intergeracional.”

Não se encontrou alterações conceituais destas citações até o presente momento por suas organizações. Dentre estas observa-se a prevalência de uma abordagem sem definição. A expressão é ligada à sua natureza ao se referir o significado (diferenças entre definição e explicação da natureza de um termo já tratado anteriormente). Em contraponto, no artigo Ambiguidades e deficiências do conceito de desenvolvimento sustentável, a pesquisadora Margatre Baroni, faz referência a crítica de LÉLÉ, S.M. “Sustainable Development: a criticai review World Development, como segue:

Conforme Lélé, a percepção sobre a relação ambiente-sociedade feita pela corrente principal do pensamento sobre desenvolvimento sustentável é baseada sobre as seguintes premissas: problemas ambientais é tal que a degradação ambiental hoje afeta a todos, embora os países pobres sofram mais. Os objetivos do desenvolvimento tradicional são satisfazer necessidades básicas e aumentar a produtividade de todos os recursos, humanos, naturais, econômicos, nos países em desenvolvimento, e manter o nível de vida dos países desenvolvidos. Esses objetivos não necessariamente conflituam com o objetivo da sustentabilidade ecológica. O processo de desenvolvimento deve ser participativo, para dar certo. Segundo ele, a corrente principal do pensamento sobre o desenvolvimento sustentável sofre de três fraquezas significativas. A primeira diz respeito à sua caracterização dos problemas da pobreza e da degradação ambiental, como sendo uma relação biunívoca, ou seja, a pobreza leva à degradação e a degradação leva à pobreza. A segunda deficiência é sobre suas conceituações dos objetivos do desenvolvimento, da sustentabilidade e da participação. A terceira se refere à estratégia que adotou face à incerteza e à falta de conhecimento (grifo nosso).

Com estas explanações iniciais, propor uma definição de Desenvolvimento Sustentável para um novo Sistema de Administração que abarque mudanças significativas nos comportamentos de todas as pessoas ao redor do mundo e das mais variadas organizações é desafiador. Já foi considerado que isto não é inatingível quando abordamos anteriormente a existência de uma real mudança entre as pessoas por todo o planeta, em uma efervescência de ideias e soluções com o olhar de sua própria realidade com impacto global. Este trabalho proposto faz parte da marcha natural que a humanidade segue naturalmente. O que realmente difere neste caminho é a participação individual neste processo de transformação. Fazer algo ou não fazer algo, não impedirá o que se chega. O mundo está mudando, e consentindo ou não com esta mudança, a quebra de paradigma é uma realidade.

Aprofundando no discurso, o conceito mais praticado atualmente em administração para o Desenvolvimento Sustentável consiste de uma intercessão entre três grandes áreas independentes: social, econômica e ambiental. A relação direta de duas áreas não oferece sustentabilidade, mas condições positivas nos resultados. A intercessão do ecológico com o social promove ações suportáveis, o ecológico com o econômico resultará em ações viáveis, enquanto o social com o econômico resultará de ações equitativas, sendo apenas considerado sustentável quando da intercessão das três áreas.

A proposta desta matéria é a ampliação da percepção, a luz da sustentabilidade expandida, apresentar uma alteração estrutural deste processo, e que traduza em ações positivadas para a gestão pública e privada com ferramentas administrativas. As dimensões[1], como serão identificadas a partir deste momento, passam a ter um caráter global e vivo. A razão existencial para as dimensões é a vida humana e sua manutenção, que interfere e se modifica, e modificado suas relações de si e com o espaço, comporta-se como organismo com vida. Para perceber este constante movimento em adaptação permanente deve haver o deslocamento do olhar em perspectiva multidimensional, os processos e análises não serão mais vistos em planos ou binariamente, há uma revolução nos sentidos e percepções sensoriais para compreensão.

Este estudo propões mudanças dos elementos tradicionalmente elencados como áreas de relevância para obtenção da sustentabilidade. Propõe-se considerar o Desenvolvimento Sustentável composto por (ainda dentro da ótica de capital): crescimento cultural, crescimento econômico, crescimento ambiental e, por último e mais importante, crescimento social. O termo crescimento não é apropriado a todas as dimensões agora consideradas, contudo como foi o mais utilizado no tempo e em citações nas bases de estudos feitos na maioria dentro do campo econômico, utilizaremos, neste momento, para o processo de transição de ideias. Retornando a proposta, não há evidencias de verdadeiro Desenvolvimento Sustentável, para além de ações sustentáveis, que falte uma de suas quatro dimensões. Ao analisar os problemas do mundo moderno, nos mais distintos setores, se observará a carência em práticas efetivas de pelo menos uma destas quatro dimensões. Tomadas parcialmente são de caráter restrito com limites de duração: quer por exaustão dos recursos, quer por prazo ou alcance, quer por incontingências que comprometam os mecanismos. Adverte-se neste momento que a proposta não consiste em abandonar projetos e programas pautados, ainda que exclusivamente no lucro, em imediata substituição. A mudança é gradativa e como aludido já está acontecendo.

O conceito de Crescimento Econômico é altamente debatido nos mais diversos setores de interesse público e privado, em razão da economia de mercado de capital cujos efeitos são sentidos pela população regional ou mundial, quase que diariamente. Quanto a esta dimensão não haverá aprofundamento em razão dos extensos estudos realizados e ainda de esta proposta partir de ação interna, ou seja, dentro da perspectiva do mercado de capital. Não é visado alteração ao atual sistema econômico vigente, para compreensão do termo Dimensão Econômica, mantendo dentro do tradicional conceito que é suprir às necessidades dos indivíduos, mesmo que possuam necessidades infinitas dentro de um espaço cujos recursos são escassos. A geração de riquezas concentra-se nas organizações e grandes fortunas, e são estes entes que atuam diretamente no controle do mercado de capital, viabilizando produtos ou serviços e com o estabelecimento de relações do trabalho remunerado e consumo. Isto, a reflexão, a atuação, as críticas e as propostas se darão mais adiante a seu tempo.

O Crescimento Social engloba todas as necessidades da sociedade sem se fazer apologia de qualquer natureza de estudo. Nesta dimensão, todos são cidadãos independente de sua atuação econômica, cultural ou ambiental estão em um contexto único de direitos e deveres. É relevante que a Dimensão Social implique na universalização da percepção do indivíduo como ente social que a compõe e está altera. Não se trata de grupos específicos ou de recortes demográficos, mas um conceito expandido de igualdade e solidariedade inerente a natureza humana.

Crescimento Ambiental ou Dimensão do Meio Ambiente diz respeito a todo ambiente habitado ou não pelo homem. Esta dimensão engloba tanto reservas naturais como os ambientes urbanos e rurais modificados pela ação do ser humano mesmo quando o protege e preserva. Está aqui assentada a segunda diferença aos atuais modelos de sustentabilidade: colocar o ser humano dentro da natureza como ser vivo que necessita de preservação com a necessidade de manutenção da espécie, atualmente tratado como preservação das futuras gerações.

Encerramos por hora a primeira parte da proposta para a definição do Desenvolvimento Sustentável. A Dimensão Cultural será tratada como tema único no próximo artigo por sua especificidade, relevância e por trazer a maior mudança aos modelos até então adotados.

Ratifica-se a suma importância de vossa participação quanto a reflexão deste processo de construção. Os comentários serão respondidos individualmente e como já mencionado, poderão ser elaborados artigos específicos que aprofunde determinadas questões à medida que surgirem os questionamentos. Este é um processo conjunto de construção em comunicação com o mundo que nos devolverá em resposta problematizando em contínua correspondência (FREIRE, 2013).

[1] Não será usado a partir deste momento os termos eixo, área ou campo. A definição corresponde a rigorosa compreensão de seu significado: Extensão medível que define a porção ocupada por um corpo; tamanho. Sentidos que compõem essa extensão. Figurado. Capacidade de ser útil, de cumprir um propósito ou necessidade; importância: a dimensão de uma iniciativa. Figurado. Âmbito significativo de algo real ou abstrata: dimensão econômica (significados.com).

BIBLIOGRAFIA

Susttainable development: Understanding the green debates. MAWHINNEY, Mark. Tradução: Cláudio Queiroz. São Paulo. Loyola. 2002.

Ambiguidades e deficiências do conceito de desenvolvimento sustentável. BARONI, Margaret. Artigo. ERA – Revista de Administração de Empresas, vol. 32, n.2, 1992.

https://www.significados.com.br/?s=dimens%C3%A3o/ consulta em 20 de abril de 2020, 22:30.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 2013.

Imagem (mary1826) gratuita em Pixabay

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