O termo metáfora deriva da palavra grega metaphorá através da junção dos elementos meta – que significa “sobre” – e pherein – que significa “transporte”[1]. Como figura de estilo a metáfora implica em um desvio do sentido literal da palavra para o seu sentido livre. Assim, exige-se do leitor, no processo interpretativo, a apreensão de um novo sentido clarificado pelo contexto em que se insere. Assim a conhecida “mineração de dados” é uma metáfora.

As metáforas têm um importante papel na compreensão de questões complexas, e, em especial enquadram como entendemos conceitos abstratos. As usamos a todo tempo para nos comunicar mesmo sem perceber.  Nos anos 2000 ainda era difícil descrever o que de facto eram os dados pessoais de uma forma não técnica. Já na década seguinte a metáfora dominante para os dados pessoais era “oil”, no sentido de que os gigantes da internet construíram impérios de produtos e serviços que acompanham todas as nossas atividades e os dados passaram a ser vistos como um recurso vasto e inexplorado, portanto, ideal para extração e sua conversão em dinheiro.

A “mineração de dados” definida como o processo de análise de dados que busca identificar padrões e semelhanças em registos de ficheiros ou base de dados, bem como a extração de informações e conhecimentos neles contidos de forma implícita[2], vem ao longo dos anos, em especial a partir de 2018, a sofrer com retrocessos na metáfora de extração. A verdade é que as metáforas utilizadas imaginam os dados públicos como um recurso inexplorado e que apenas produzem valor quando extraídas e processadas.

Quando pensados somente sob a ótica econômica considerar os dados como “petróleo” pode funcionar, mas não podemos esquecer que os dados são, no fundo, as pessoas e como elas se inserem em um mundo digital. Nossos dados pessoais, assim descritos de maneira fria, são o foco de uma batalha entre os gigantes da internet e os governos. Questões como quem pode recolher esses dados, o que podem fazer com os dados recolhidos, para onde podem ser enviados ainda não foram de pronto respondidas, e não alcançam a nossa experiência individual de dados.

A metáfora utilizada nos dá apenas a ideia da amplitude e da possibilidade econômica dos dados, mas ignora que no fundo os dados tratam de aspetos da nossa vida, como as nossas emoções, os nossos comportamentos, e, os nossos registos de pensamento. A atividade humana compõe os dados.  Como sempre ressalto estamos a todos tempo conectados, estamos a todo tempo a compartilhar nossos sentimentos, nossas experiências e como enxergamos o nosso dia-a-dia.

É comum afirmar que a informação é “o dinheiro do futuro”. Os dados pessoais podem então ser vistos como uma mercadoria? Temos a propriedade sobre nossas palavras, nossas imagens, nossos dados factuais? A visão de que os dados são uma commodity em um mundo em que as pessoas anseiam por se tornarem reconhecidas pela quantidade de likes ou views deve ser uma preocupação dos governos, em uma espécie de paternalismo da privacidade?

Fato é que somos divididos em uma série de fluxos de informação que são estabilizados, capturados de acordo com classificações pré-estabelecidas, para serem então transportados para um local central onde são novamente remontados e combinados para atender a uma variedade de demandas institucionais. Mais uma vez nos damos conta de que os desafios impostos pela tecnologia são enormes, assim como seus benefícios.


[1] https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/metafora/

[2] Disponível na internet em: https://apdsi.pt/glossario/m/mineracao-de-dados/

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

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