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Interrompeu-se a marcha de vida de uma grande militante orgânica. Mas o seu exemplo fica, bem como a crença numa “democracia diferente no Brasil”: eis uma homenagem cinebiográfica!

Interrompeu-se a marcha de vida de uma grande militante orgânica. Mas o seu exemplo fica, bem como a crença numa “democracia diferente no Brasil”: eis uma homenagem cinebiográfica!

Antes de falecer, aos noventa e quatro anos de idade, a economista e ex-deputada federal Maria da Conceição Tavares [1930–2024] tornou-se conhecida das novas gerações por causa de recortes de gravações de suas aulas, na qual a sua ênfase na defesa de valores esquerdistas chamava a atenção pela maneira perene como ela fumava e por expressões faciais que soavam humoristicamente enraivecidas. Nascida em Portugal e emigrada para o Brasil, a fim de fugir da ditadura salazarista, ela afirmava que “tornou-se raivosa” neste país, em razão de uma sucessão gritante de derrotas: acreditava plenamente na instauração de uma “democracia multirracial nos trópicos”, conforme descrevia o antropólogo Darcy Ribeiro [1922–1997], e insistia que “aqueles que não se preocupam com quem paga a conta não são economistas sérios, mas tecnocratas”. Uma grande formadora de líderes, portanto.

Presa, em mais de uma situação, por proclamar o direito à liberdade e exercer este direito através das atividades intelectuais, ela foi homenageada, ainda em vida, através do documentário “Livre Pensar — Cinebiografia — Maria da Conceição Tavares” (2018, de José Mariani). Dirigido por um cineasta que já realizara, entre outros, um documentário sobre Celso Furtado [1920–2004], mentor da economista, e outro sobre César Lattes [1925–2005], este filme aproveita depoimentos de obras anteriores para ressaltar a inteligência e a extrema originalidade da biografada, que se declara sumamente decepcionada ao perceber que vários de seus antigos alunos, esquerdistas convictos na época universitária, tornaram-se direitistas, depois que se envolveram com as práticas governamentais. Maria da Conceição Tavares lamentava que a política, da maneira como praticada através do Ministério da Fazenda, corrompia os ideais dos envolvidos, no sentido de que a subserviência à lógica de mercado era dominante. Complementava: “o Capitalismo é universalizante na mercadoria, mas não é homogeneizante nas condições sociais”. Para ela, o idealismo é algo revolucionário, e, por isso, era frustrante perceber o fascínio exercido pelo neoliberalismo entre aqueles que, noutros tempos, defendiam a justiça social…

No filme, há o predomínio da discussão das teorias econômicas da biografada, bem como a análise de seu percurso profissional, sendo mencionados alguns de seus artigos, incluindo o clássico “Além da Estagnação”, coescrito por José Serra. Mas abre-se espaço para que se conheça mais sobre a pessoa fascinante que ela era, em sua vida particular. No início, por exemplo, vemo-la comemorando o seu aniversário de oitenta anos, em 2010, ao lado dos filhos e da ex-presidenta Dilma Rouseff, de modo que seu filho Bruno faz questão de enfatizar a importância de sua data de aniversário, demarcada entre o dia de São Jorge, 23 de abril, que ela reverenciava, e o dia em que ocorreu a Revolução dos Cravos, 25 de abril de 1974. Um dos depoentes chega a referir-se a ela como Ceiça, e o ex-ministro Aloizio Mercadante comenta um evento pitoresco, em que, numa saidela para relaxar, enquanto terminava uma tese de livre-docência, ela adentra causalmente um cinema, onde era exibido “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977, de John Badham), e começou a esbravejar, em plena sessão, chateada com o “americanismo chapado” de Hollywood, naquele filme. Uma personalidade ímpar, sem dúvida.

Acompanhamos também falas e momentos marcantes do período em que ela exerceu o seu mandato como deputada, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1995 e 1999, mas ela antecipa-se em dizer que passou “toda a vida votando contra — e sendo sistematicamente derrotada”. A despeito disso, ela demonstra-se encantada por um traço peculiar da democracia no Brasil, que era a discordância saudável entre os políticos, algo que deixou de existir depois do avento bolsonarista: ao comentar o ‘impeachment’ da presidenta Dilma Rousseff, a filha da economista, Laura, explica que ela somatizou tanto esta tentativa contemporânea de golpe, que chegou mesmo a adoecer. Mas logo reergue-se, no sentido de que, como ela professava para os alunos, é preciso “marchar até morrer”. Foi o que ela fez, criticando impiedosamente as falácias de economistas que preconizavam um modelo de estabilização inicial, seguido por um crescimento aos solavancos, em que não ocorria a distribuição de renda prometida. E ela não poupava críticas ferrenhas àquilo que rechaçava, como ao afirmar que “o Banco Central gasta adoidado para remunerar o capital”!

Neste documentário, Maria da Conceição Tavares lembra, com saudade, do ex-deputado Ulysses Guimarães [1916–1992], a quem apoiou intensamente e acerca de quem testemunhou inúmeras traições por parte de seus correligionários, e tendo atuado como assessora econômica do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), reclamou que este partido, inicialmente composto por “esquerdistas e centristas”, moveu-se em direção à direita econômica, de modo que antigos progressistas — entre eles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — renderam-se aos elogios da privatização e ao neoliberalismo radical. Tudo isso a feria (“é dor, mas também é raiva”), mas não demoveu a sua força, persistindo na afirmação de que a questão central da esquerda é a oposição existente entre igualdade e suficiência, de modo que “a eficiência do setor público não é a mesma do setor privado”. Inicialmente, algumas afirmações parecem herméticas, para quem não conhece a fundo as teorias econômicas — eminentemente históricas, segundo a tradição seguida por ela, marxista convicta —, mas estas são esclarecidas de maneira tão acessível quanto pessoal. Definitivamente, um exemplo a ser aplaudido e continuado!

Wesley Pereira de Castro.

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Uma resposta

  1. Um apanhado belíssimo da vida política e dinâmica dessa fera “raivosa” da economia e, porque não, política. Um ícone. Viverá para sempre através de seu exemplo e de suas lutas em nós!

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