Nenhuma tecnologia dura para sempre. Precisamos recordar que as médias se moviam por rios que nunca se cruzavam, como tão bem descreve Franklin Foer[1], sinais de rádio não se relacionavam com serviços postais, e nem tampouco com salas de cinema. Mas esse tempo passou, o que vemos a partir da criação e popularização da internet, é que ela se tornou o rio por onde todas as médias passam. O computador hoje é a agência de correios, a sala de cinema, o jornal, a televisão, o aparelho de som. E não apenas o computador faz as vezes de um rio caudaloso, nossos telemóveis incorporaram todas essas funções e mais algumas.

A economia da atenção nos vende experiências, e essas experiências podem, e, em geral, ocorrem em uma mesma plataforma. Assim os gigantes da tecnologia mudam a forma não apenas como nos informamos, mas como consumimos, o que consumimos, e muitos dos aspetos de nossa vida cotidiana são filtrados pelo olhar algorítmico. A busca por informação, e mesmo a busca pelo entretenimento puro e simples, é realizada de maneira automática, irrefletida. Quem de nós tem o hábito de pela manhã, ao acordar, pegar o telemóvel na mesa de cabeceira e buscar as notícias da manhã, ou os posts dos inúmeros amigos virtuais no Instagram ou Twitter?

Insisto que sabemos que a tecnologia não é uma panaceia e que não irá resolver todos os problemas do mundo. Mas também sabemos que se tivéssemos sido surpreendidos por uma pandemia, como a atual, há 30 anos, não conseguiríamos – aqueles para os quais isso é possível -trabalhar em casa, ter aulas remotas, continuar a ver e ouvir nossos entes queridos, acompanhar nascimentos à distância. Nada disso seria possível. Nossa experiência e nossa vivência seriam diversas.

Isso nos traz alguma confiança na tecnologia e em sua capacidade de facilitar a vida humana. O desenvolvimento de novas vacinas, em período tão curto, é, certamente, fruto da inovação tecnológica. A pergunta é se essa tecnologia, ou aquelas que se seguirão, será capaz de nos fazer tomar melhores decisões, fundadas em melhores e mais diversas informações. Se a nossa compreensão de mundo será alterada. Até o momento as informações apelativas ganham em visibilidade e em clicks.

A disseminação da informação é maior do que a nossa capacidade de compreensão. Boa parte da informação permanece perdida para muitos de nós, e, mesmo aqueles que se esforçam por acompanhar determinado assunto sentem a enorme exaustão por tentar, sem sucesso, absorver tudo que nos é ofertado. E nesse ponto não me refiro nem mesmo ao trabalho hercúleo diário de separar as informações falsas daquelas que se conectam à realidade dos fatos.

Me pergunto se a nova geração e as que a ela se sigam terão maior capacidade de absorver todo esse conteúdo ou se passarão a ser as gerações que se informam pelos títulos das matérias e por alguns caracteres ou mesmo vídeos de pequena duração. Sabemos que quanto mais a informação é buscada mais valor ela tem, mas será que seremos capazes de na pilha das informações pinçar aquelas que sejam a chave do conhecimento?


[1] FOER, Franklin. O mundo que não pensa. A Humanidade Diante do Perigo Real de Extinção do Homo Sapiens. Rio de Janeiro: LeYa, 2018.

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