Inicialmente, quero registrar aqui um momento histórico, que será, sem dúvida nenhuma, registrado nos livros físicos ou digitais como um exemplo para o mundo. Meu compromisso com você, leitor ou leitora, pede esse registro.
São exatamente 14h30min no horário brasileiro, ocorre nesse instante no Brasil, especificamente em Brasília, capital do país, no Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete réus pela tentativa de golpe de Estado em 2022. Entre os acusados, estão altas patentes das Forças Armadas brasileiras, ex-ministros de Estado e Deputado Federal. Levar ao banco dos réus pessoas tão influentes, de forma transparente, democrática e dentro dos princípios constitucionais, é um fato histórico.
Os canais de TV, a internet, a rádio e os diversos meios de comunicação espalhados pelo país só falam deste assunto, todos comentam e lançam palpites, o povo está presente, transformando o momento em algo ainda mais simbólico e marcante.
Tenho hoje 59 anos de idade, vivi os horrores da ditadura militar brasileira, que durou de 1 de abril de 1964 a 15 de março de 1985, e honestamente, pensar que houve uma tentativa de golpe a favor de uma nova ditadura no Brasil, me deixa, no mínimo, profundamente indignada.
Mas cuidado, o perigo ainda mora ao lado
Em um país de dimensões continentais, com mais de 213 milhões de habitantes, onde a população é conhecida pela alegria e hospitalidade, a democracia brasileira se sustenta hoje sobre pilares sólidos: a liberdade de expressão, a independência entre os poderes e processos eleitorais transparentes. No entanto, mesmo em uma nação que preza por esses valores, a nova era digital apresenta desafios complexos, transformando a realidade de maneira sutil e perigosa.
Na sociedade de hoje, incluindo outros países além do Brasil, a verdade se tornou um campo minado. Nossas mentes, antes guiadas pela razão, agora são moldadas por algoritmos projetados para nos prender em bolhas de informação, nos distanciando da realidade. Essa nova dinâmica é a base de um fenômeno perigoso: uma inconsciência coletiva que alguns líderes políticos usam para consolidar o poder.
Mas por que somos tão suscetíveis a essa manipulação? A resposta não está apenas na tecnologia, mas na nossa própria biologia. A ciência revela como a dopamina, o viés de confirmação e as emoções de medo e raiva são exploradas para nos tornar vulneráveis.
Este texto é um convite para desvendarmos como essa manipulação opera. Iremos explorar de que forma a desinformação digital, aliada a pressões externas e internas, ameaça a soberania de nações como o Brasil, e o que podemos fazer para lutar contra isso. Prepare-se para questionar o que você vê, o que compartilha e, mais importante, para reconquistar sua capacidade de pensar por si mesmo.
Vem comigo?
Em uma era de vigilância algorítmica e bolhas digitais, a humanidade se afoga em um novo tipo de inconsciência coletiva. Inspirado pelo conceito científico de Carl Jung[1], esse fenômeno não é mais um repositório de arquétipos universais, mas sim um labirinto digital. Já não são as fogueiras que dominam a mente das massas, mas sim os algoritmos, que, de forma sutil e viciante, enredam a população em uma teia de desinformação planejada.
Alguns líderes governamentais populistas se aproveitam desse caos. Eles não precisam mais de poder bruto para controlar a população; a força foi substituída por um novo tipo de arma: a distração em massa. Enquanto os cidadãos navegam por um mar de notícias irrelevantes e conteúdos sem sentido, a atenção se volta para a busca desesperada por um “salvador” que mantenha o “sossego” para navegar cada vez mais.
Esse ciclo vicioso beneficia aqueles que almejam esse tipo de poder. A distração se torna uma ferramenta de dominação, alienando os cidadãos da realidade e tornando-os mais suscetíveis à manipulação. A desinformação, disseminada em alta velocidade nas redes sociais, afasta a verdade e faz da população refém de narrativas que reforçam suas próprias bolhas, tornando-os meros espectadores da própria subjugação. O verdadeiro poder hoje reside em dominar o algoritmo, e não a força.
A neurologia da manipulação: por que somos tão vulneráveis?
Para entender o poder da desinformação, é preciso olhar para a nossa própria biologia. As redes sociais e os algoritmos são especialistas em explorar a forma como nosso cérebro funciona. A dopamina[2], neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa, é a chave para o vício. Cada “curtida”, compartilhamento ou notificação que recebemos ativa os centros de recompensa do cérebro, criando um ciclo vicioso de busca por mais interações.


Além disso, a desinformação apela a nossos vieses cognitivos inatos. O viés de confirmação, por exemplo, nos leva a buscar e valorizar informações que confirmam o que já acreditamos, ignorando o que as contradiz. Os algoritmos, ao nos manterem em bolhas digitais, reforçam esse viés, tornando-nos ainda mais resistentes a fatos que desafiam nossa visão de mundo. Esse fenômeno nos aprisiona em uma espécie de “realidade paralela”, onde a verdade se torna irrelevante e a emoção se sobrepõe à razão.
A desinformação explora ainda o poder da amígdala, a parte do cérebro responsável por processar emoções, especialmente o medo e a raiva. Notícias falsas frequentemente usam títulos sensacionalistas e linguagem emocionalmente carregada para provocar uma resposta rápida e irracional, desativando nossa capacidade de pensamento crítico. Em vez de analisar os fatos, reagimos impulsivamente, compartilhando o conteúdo sem questionar sua veracidade.
O paralelo brasileiro: soberania e manipulação
A realidade brasileira é um exemplo claro e contundente desse fenômeno. Enquanto o país lida com o julgamento do ex-presidente da República Jair Bolsonaro[3], o debate público é frequentemente desviado para narrativas de desinformação. Ao invés de focar nas implicações jurídicas e políticas do caso, a atenção popular é capturada por uma enxurrada de notícias irrelevantes e controvérsias fabricadas nas redes sociais.


Nesse cenário, há ainda a interferência externa, que torna a situação ainda mais perigosa. A suposta tentativa americana de pressionar a economia brasileira, com o objetivo de influenciar o processo de julgamento, é um desrespeito flagrante à soberania nacional[4]. Essa pressão externa age em conjunto com a desinformação interna provocada por alguns, criando um ambiente de instabilidade e distração que beneficia as forças que tentam desestabilizar o país. O Brasil se torna um campo de batalha onde a luta não é por ideias, mas pela dominação da percepção pública, usando a desinformação como arma para minar a autonomia e a justiça.
A desestabilização da democracia não ocorre de repente, mas através de um processo insidioso, onde a mentira se normaliza e a desconfiança nas instituições se aprofunda. A manipulação de informações, aliada a pressões econômicas externas, cria um caldo de cultura perfeito para a corrosão do sistema democrático. O processo eleitoral e o sistema judiciário, pilares da democracia, tornam-se alvos de ataques constantes, onde a opinião pública é instrumentalizada para legitimar o arbítrio e a violência política. O resultado é uma sociedade dividida, com a democracia sendo questionada, e a liberdade de pensar e agir ameaçada por alguns que detêm o poder algorítmico e político.
Para evitar cair na armadilha da desinformação e proteger a democracia e a soberania nacional, os brasileiros precisam estar atentos a pontos cruciais. A luta pela democracia não é apenas um ato de votar, mas um exercício constante de vigilância e pensamento crítico.
- Desconfie de narrativas unilaterais:
Primeiro, é fundamental desconfiar de narrativas que se apresentam como verdades absolutas. A desinformação prospera na polarização e na simplificação. Se uma notícia ou opinião reforça de forma extrema suas crenças, sem espaço para nuances, é um sinal de alerta. Busque informações de diferentes fontes, inclusive aquelas que você não concorda, para ter uma visão mais completa e equilibrada dos fatos;
- Verifique a fonte:
A segunda regra de ouro é verificar a fonte da informação. Quem a publicou? É um veículo de imprensa sério e com credibilidade? Se a informação vem de contas anônimas ou de veículos de notícias desconhecidos, a chance de ser falsa é alta. A checagem de fatos, realizada por agências como por exemplo a Lupa[5] e o Aos Fatos[6], é uma ferramenta essencial para combater notícias falsas;
- Entenda o jogo algorítmico:
Os brasileiros também precisam entender como os algoritmos funcionam. As redes sociais são projetadas para nos manter engajados, mostrando conteúdo que nos causa emoção e, por consequência, nos prende. A sua “bolha” digital não é um acidente, mas um produto do algoritmo. Para combatê-lo, siga pessoas com opiniões diferentes das suas, busque ativamente por conteúdos fora da sua bolha e evite compartilhar informações apenas com base no título ou em sua reação emocional;
- Defenda as instituições:
A desestabilização democrática muitas vezes começa com o ataque às instituições. É crucial defender as instituições democráticas, como o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o Poder Executivo, além de uma Imprensa livre. O objetivo de quem manipula a informação é minar a confiança nessas instituições para que as pessoas passem a aceitar soluções autoritárias. A Justiça, o Congresso, o Executivo e a Imprensa não são perfeitos, mas são pilares fundamentais da democracia;
- Priorize a soberania nacional:
Por fim, é vital estar atento a qualquer sinal de interferência externa na política brasileira. Seja a partir de pressões econômicas ou de campanhas de desinformação, a tentativa de outros países de influenciar o destino do Brasil é um ataque direto à nossa soberania. A democracia brasileira deve ser decidida pelos brasileiros, e não por interesses estrangeiros. O foco no respeito aos processos legais, como o julgamento de lideranças políticas, é a melhor forma de garantir que a nossa soberania e autonomia sejam mantidas.
Fato: o ex-presidente Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar desde o dia 4 de agosto de 2025, após descumprir mediadas cautelares impostas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Os possíveis cenários apontam para uma condenação com execução imediata da pena, que poderia ser em regime fechado caso a pena supere oito anos, ou uma prisão domiciliar, vista como a alternativa mais provável, considerando a idade e os problemas de saúde do ex-presidente.
[1] Carl Gustav Jung (1875–1961) foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço, uma das figuras mais importantes e influentes no campo da psicologia. Ele foi um colaborador próximo de Sigmund Freud no início de sua carreira, mas acabou se separando dele para desenvolver sua própria abordagem teórica, que se tornou conhecida como psicologia analítica.
[2] Neurotransmissor do cérebro que atua como um mensageiro químico para comunicação entre os neurónios, influenciando sensações de prazer, motivação, aprendizagem e recompensa
[3] Saiba mais em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/justica/noticia/2025-08/economist-bolsonaros-trial-lesson-democracy — Acesso em 01/09/2025.
[4] Saiba mais em: https://apatria.org/o-neuronervosismo-da-casa-branca-e-a-revolucao-silenciosa-do-pix-a-chave-brasileira-para-a-autonomia-financeira/ — Acesso em 02/09/2025.



