O dia 07 de maio de 2020 nasceu diferente e trouxe a promessa de um compromisso efetivo com a liberdade de expressão. Nesse dia o Facebook anunciou os primeiros vinte membros do Conselho de Supervisão, uma espécie de painel internacional formado por profissionais de diversas áreas e com opiniões políticas distintas[1]. A ideia de unir as pessoas em todo mundo sempre esteve presente nos discursos de Mark Zuckerberg. Mas, nos últimos anos questões delicadas como a possibilidade de interferência da Rússia na eleição americana através de anúncios no Facebook e Instagram acarretaram uma série de dúvidas quanto ao modelo de negócios desenvolvido.

Para Mark Zuckerberg, o Facebook foi vítima de seu próprio sucesso, e já em 2018 reconheceu que nenhuma companhia deveria resolver tais questões sozinha. Para tanto se comprometeu a criar um comitê independente com a função de rever as decisões do Facebook sobre os conteúdos publicados. Em 18 meses, e com a contribuição de 2000 especialistas e de 88 países, o comitê finalmente foi desenhado e anunciado.

Alguns dos integrantes do comitê asseguram que todos são comprometidos com a liberdade de expressão dentro da estrutura das normas internacionais de direitos humanos e tomarão suas decisões baseados nesses princípios e nos efeitos aos usuários do Facebook e à sociedade. No entanto, algumas questões ainda permanecem em aberto. Carece de resposta saber, por exemplo, se o Facebook busca com a adoção do comitê independente apenas melhorar sua imagem tendo em conta os inúmeros episódios que questionam sua influência, por exemplo, em processos democráticos.

É sem dúvidas impressionante como um negócio desenvolvido para unir pessoas em uma rede social inocente se transformou em uma força, que não apenas modifica a vida das pessoas como torna o processo democrático mais intrigante. Sabemos que uma nova onda de populismo percorre o planeta. Países como Brasil e Estados Unidos são hoje governados por presidentes de forte cunho populista, contrários às mídias tradicionais, e, com campanhas e atuação após a eleição muito presente nas redes sociais.

A produção e distribuição da comunicação é hoje democratizada, o que nem ao longe significa igualdade de acesso ou mesmo veracidade nas informações compartilhadas. No entanto, a comunicação mais direta e online é vista, tanto por Jair Bolsonaro quanto por Donald Trump, como uma alternativa ao jornalismo ou mesmo uma forma de correção às notícias. Sob certa ótica a mídia tradicional carece de meios para compreender seus pontos cegos ao passo que por meio dessa comunicação direta, os dois presidentes em questão, costumam tomar a posição de heróis da verdade, na construção de tabus ou mesmo em uma certa coragem para quebrá-los.  

O que notamos hoje é que o Facebook mais divide do que une as pessoas. A noção idealizada de partilha de informação deu lugar a uma realidade em que muitas vezes é difícil reconhecer uma informação falsa em um ambiente de excesso de informação. Um paradoxo certamente. É possível que de fato a intenção de seus criadores fosse diversa daquilo que se tornou a criatura. Como para o Dr. Victor Frankenstein, também à Mark Zuckerberg, é complexo perquirir a intenção no ato de criação ou mesmo o resultado de sua obra.


[1] Disponível em: <https://www.theguardian.com/technology/2020/may/07/will-facebooks-new-oversight-board-be-a-radical-shift-or-a-reputational-shield>. Acesso em: 07 mai. 2020.

Imagem (LoboStudioHamburg) gratuita em Pixabay

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