Há um ano, o FaceApp[1], um aplicativo que envelhecia os rostos de seus usuários em fotos, tornou-se febre nas mídias sociais. Nossos feeds foram invadidos por versões mais velhas de nossos amigos e muitos embarcaram naquilo que acreditavam ser uma brincadeira. No entanto, não demorou para que questionamentos sobre a política de privacidade e mesmo acusações de racismo se tornassem a sombra que ninguém queria enxergar. O filtro “hot”, por exemplo, que prometia deixar as pessoas mais atraentes, na verdade, embranquecia a cor da pele de pessoas negras e indianas.

No dia 13 de junho de 2020 o FaceApp se tornou mais uma vez um dos assuntos mais comentados na web. Dessa vez o aplicativo, que é um editor de fotos e vídeos, promete mudar o gênero dos usuários. Mais uma vez nossos feeds foram invadidos por versões diferentes de rostos conhecidos no mundo artístico e de nossos amigos. Mais uma vez o tom é de diversão. E mais uma vez os usuários ignoram a política de privacidade com a qual consentem.

Disponível na Google Play Store e na Apple App Store o FaceApp disponibiliza a política de privacidade para ciência e consentimento dos usuários antes do download. Se o usuário decidir ler a política de privacidade vai descobrir que o aplicativo é um editor de fotos e vídeos que usa redes neurais que automaticamente geram uma transformação facial realista, e que usam a Google Cloud Plataform e a Amazon Web Services para processar e editar as fotografias. Para além das informações de como funciona o aplicativo o usuário irá descobrir que seus dados podem ser coletados, e que as informações das mídias sociais dos usuários, tais como nome, sobrenome, número de amigos, a lista de suas conexões e amizades podem ser coletadas e processadas.

Afora os dados de suas mídias sociais, será ainda possível, ao aplicativo, com o consentimento do usuário, ter acesso ao ID do seu dispositivo, e ainda ter acesso as informações sobre sua atividade online, com a inclusão das páginas visitadas, ou mesmo o tempo de acesso em cada uma delas. Sem nos esquecermos claro da possibilidade de envio de comunicações promocionais e marketing. Uma das disposições intrigantes é o consentimento “em alguns casos” para coletar, usar ou compartilhar as informações do usuário.

Espanta que um número cada vez maior de pessoas use as mídias sociais, usem aplicativos, e sequer leiam as políticas de privacidade. Em um mundo cada vez mais digital todos nós precisamos ser responsáveis, especialmente, no que concerne ao nosso consentimento para o uso e tratamento dos dados. Muito se fala em literacia para o uso da internet. Mas poucos são os que de fato prestam a devida atenção aos cliques no box “eu aceito” e suas variantes.

Vazamento de dados não são algo raro. Proteção dos usuários é algo importante e que envolve, inclusive, a possibilidade de cybercrime. Mas não podemos deixar de notar que na velocidade que a internet demanda muitos de nossos consentimentos não são informados, são apenas automáticos. O debate e o estudo da privacidade nesses tempos são de extrema relevância. Deixar a privacidade ao acaso pode ser um caminho sem retorno.


[1] O aplicativo de tornou viral já no ano de 2017.

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