Rainha d’Aquém e d’Além dor.

Encontrada esta deliciosa quadrinha que Florbela dedicou a Adolfo Faria de Castro, que retiro aqui de seu ineditismo, ensejou-se oportunidade para relembrar este ser excepcional, que viveu, que amou, que sofreu, que desesperou sem nunca se entregar efetivamente ao desespero, pelo Portugal do final da monarquia e começo da República, tempo de mudanças, tempo do novo, mesmo assim onde sua alma novíssima não foi, não podia ser, entendida.

Quando na última década do XIX nascia em Vila Viçosa, em Évora, a filha primogênita de Antônia da Conceição Lobo, após ter sido ” alma e sangue e vida” em Antônia, era o dia de sua Santa padroeira, a Nossa Senhora do seu nome, naquele Dezembro Alentejano já de final de século; e escolheram para a menina o nome de Flor, uma Flor Bela (separado portanto) e acertavam quanto ao aspecto físico, porém a escolha do nome recairia também na apreciação de seu espírito, pois a bela Flor que designavam seria «de Alma da Conceição» ou seja evocavam o espírito da mãe de Jesus, espírito divino, que não lhe faltaria, e nunca lhe faltou, por, e para, toda a vida. Assim lendo o nome como vos apresentei era a Flor bela, a mulher bela que foi, sensual e sedutora, intensa e deslumbrante, e sendo da alma da Conceição era um espírito sublime, que também o foi, mas se lermos o nome todo como lhe foi dado temos a Bela de Alma que é o que ela mais foi sem dúvida alguma. Pois era seu nome Flor Bela de Alma da Conceição, não sei se alguma vez foi Lobo, como a mãe, creio que não, não importa, Espanca mesmo, em vida, nunca foi.

A mãe certamente inspirada, corajosa e apaixonada, pois por amar não se furtou a ser, como o nome indica na sua plenitude, a amante do remendão João Marya Espanca, o genitor de Florbela, o homem de Antônia, que ela amou até a morte. Como João era casado, Florbela é, então, no papel, filha de pai incógnito. O amor de João e Antônia perdura com o nascimento do irmão aviador de Flor Bela, mas João, mesmo já tendo família com Antônia, não deixa Mariana, com quem era casado, havia amor para as duas, faz-nos crer. E também João não foge das suas responsabilidades de pai, criando ambos os filhos, primeiro com a amante, depois com a mulher, porque mais tarde a grandeza de Mariana, que estava fadada a ser a mãe daqueles dois, já que filhos não tinha, nem os podia ter, batiza-os (ambos) e em sua casa, na casa de João, o pai, é onde irão viver e ser educados, cria-os como mãe, mãe-madrinha, fazendo com que Florbela deixasse, ainda que momentaneamente, de ser “a que no mundo anda perdida“.

Não se sabe bem quando Florbela, poeticamente, passou a usar o apelido paterno, mas sabe-se que em vida não teria civilmente o Direito de o usar. Teve certamente os apelidos de casada, dos homens com quem se casou, mas para a história ficará o nome de família do sapateiro seu pai. O Direito de usar o nome do pai só lhe vem 18 anos depois de morta, João fez questão de lhe dar o nome já passadas quase duas décadas da morte de sua filha poeta. E Flor Bela foi Espanca, como Inês foi Rainha, só depois de morta, porque este pai que a amava não pode deixar passar esse pormenor. Este homem simples com gosto refinado, publicou de seu bolso o segundo dos dois únicos livros que Flor Bela viu impressos, ela que tem hoje centenas de edições de suas obras em todo o mundo.

No oito de Dezembro deste 2020, completar-se-ão 90 anos de sua morte e 126 de seu nascimento, já que morreu no dia em que nasceu, essa mulher maior que a vida. E do artista a quem esta quadra é ofertada, Adolfo Faria de Castro, são 65 de sua morte e 116 de seu nascimento neste 2020. Recordo esta quadra, talvez a última que poetizou Florbela, posto que é de Julho de 1930, morrendo Flor Bela no seguinte dia da Conceição, nunca mais voltando a frequentar, sendo este seu último sarau, onde num álbum, colheu Adolfo oito quadras de improviso, ou pelo menos assim esperava Adolfo, algumas viriam decoradas, acredito, quadras das quais ainda de futuro vos darei conta, de oito poetas, todas as oito mulheres, presentes a este sarau de Julho de 1930, nesta tarde de adeus de Florbela quando com mágoa afirma:

” Eu sou do Sul, tu do norte:
Nunca mais serei feliz…
Nem sequer seremos terra
Junto da mesma raiz. “

Curioso é notar a personalização dela, mulher, em relação ao homem, Adolfo, sempre num tom intimista e evocativo, mostrando sua intensidade, ainda que ocasional. A inconteste feminilidade de Flor Bela flui-lhe pelos poros, demarca-se em sua elegância, quase ‘coqueterie’, no trajar esmerado, na presença etérea e sinuosa, mulher ao extremo, feminilidade que se derrama em seus versos e que a constrange, como tenaz, durante toda sua curta vida de incompreensão e busca.

 
 

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