Sean Connery: a perda de um imortal da sétima arte

Sean Connery: a perda de um imortal da sétima arte

No último dia de outubro, fomos tristemente surpreendidos com a morte de um dos grandes atores de cinema do nosso imaginário. “Um dia triste para todos os que conheceram e adoraram o meu pai e uma perda para todas as pessoas à volta do mundo que gostavam do maravilhoso dom que ele tinha como ator”, disse o filho à BBC, explicando que ele tinha a família com ele nas Bahamas e que morreu durante o sono.

Sean Connery, filho de pai católico e mãe protestante, nasceu a 25 de agosto de 1930 em Fountainbridge e cresceu num bairro de operários de Edimburgo. Começou a sua vida a distribuir leite antes de ingressar na Marinha Real, tinha então 16 anos, e já sonhava com o palco. O primeiro passo para realizar o seu sonho aconteceu com um pequeno papel no musical “South Pacific”, precisamente numa altura em que trabalhava como modelo artístico no Colégio de Artes de Edimburgo. Também por esta altura, começou a fazer testes para várias peças de teatro, abrindo assim caminho nos palcos que o levariam aos ecrãs da televisão e do cinema.

Seria na década de 1950 que lançaria a sua carreira como ator, com o primeiro papel de James Bond já em 1962 a catapultá-lo para a fama. Connery foi considerado por muitos como o melhor 007. Participou em sete filmes do espião britânico. Foi o mais famoso James Bond da saga 007, de Ian Fleming. Foi ele o primeiro a protagonizar o espião elegante que se apresentava “My name is Bond, James Bond” e entrou em sete filmes da saga. Entre eles, “Dr. No”, o primeiro em 1962, seguindo-se “Goldfinguer”, em 1964 e “Os Diamantes São Eternos”, em 1971. “Aquele maldito motorista de camião”, disse Ian Fleming de Connery, horrorizado por um escocês de origem humilde ter sido chamado para encarnar o 007 dos livros, com a sua educação em Eton e o seu porte totalmente inglês. No entanto, (e apesar de não apreciar particularmente a personagem, confesso), desde a introdução, o mito do mais icónico agente secreto da segunda metade do século XX estava criado.

Connery e 007 cronometraram a sua entrada para coincidir com uma das fases mais duradouras do estilo moderno. Um ajuste tão fabuloso que o vemos novamente, em “Marnie” de Alfred Hitchcock (1964), o filme que Connery fez antes de “Goldfinger” e depois de “From Russia with Love” (1963). Foi necessário o olhar atento e apaixonado de Hitchcock para olhar para Bond de Connery e entender do que esse galã poderia ser capaz. Os filmes de Bond foram descritos por um dos produtores como “sadismo para a família”. Hitchcock mandou as crianças sair da sala.

Com efeito, “Marnie” é uma obra de arte patológica. Connery interpreta Mark Rutland, um editor que queria ser zoólogo. A sua maldade incipiente está fortemente envolvida no seu fascínio e, por mais que tentemos, não podemos separá-los. Como afirma Anthony Lane: “Há charme nas profundezas da sua misantropia. E o sorriso vence!”

Segundo este mesmo jornalista do The New Yorker, “com o falecimento de Connery, perdemos uma das últimas estrelas de cinema – talvez a última – que era conhecida e reverenciada por se interpretar a si mesma. Não por serem eles mesmos; faziam longas-metragens, não documentários, e, se o dinheiro chegasse, faziam a asneira de fingir ser outra pessoa, com o acréscimo criterioso de fantasias, calçados, maquilhagem, linhas de diálogo e, no caso de Connery, perucas (…) Atrás deles, sentia-se algo duro, imutável e cristalino que pertencia apenas a ele. Acredita mesmo que o título de “The Rock” (1996) se refere à ilha de Alcatraz? Por favor”. Esse é o sinal de uma estrela.

Se a última metade da sua carreira se tornou um dos segundos atos mais sólidos e mais agradáveis ​​da história do cinema, pode ser porque, ao que tudo indica, e apesar da fama de rabugento, ele se divertiu ao longo do caminho. A festa começou com “O homem que queria ser rei” (1975), de John Huston, uma fábula adaptada de Rudyard Kipling. Connery interpreta um ex-sargento do Exército britânico, Danny Dravot, que, depois de se aventurar com um colega (Michael Caine) nas terras distantes do Kafiristão, é confundido com um deus pelo povo local.

Assim que Connery lhe tomou o gosto, prosseguiu o seu percurso com majestade e habilidade. Uma pequena seleção: “Robin and Marian” (1976), com Audrey Hepburn; “O Nome da Rosa” (1986), revelando pistas através de um par de óculos medievais; “Os Intocáveis” (1987), morrendo novamente, com tanta agonia que ganhou um Oscar; “Indiana Jones e a última cruzada” (1989), como pai de Harrison Ford; e “Caça ao outubro vermelho” (1990), como capitão de um submarino russo.

Lane aponta um filme mais suave e menos considerado, “A casa da Rússia” (1990), gravado em grande parte em Lisboa, no qual, “embora as suas orelhas permaneçam sem brincos, ele veste-se de tweed e um casaco largo. Quão confiante se deve ser, como estrela de cinema, para passar sem objeções do afável ao amarrotado e para parecer à vontade em cada um?”

Eu prefiro destacar um outro filme: “O nome da rosa”, inspirado na fabulosa obra homónima de Umberto Eco, aliás, um dos livros da minha vida. Passa-se na Idade Média num mosteiro no norte de Itália. William de Baskerville (Sean Connery), é um monge franciscano e, com Adso von Melk (Christian Slater), um noviço que o acompanha, visita o mosteiro com propósitos que se dissipam face à ocorrência de sucessivos assassinatos de monges. Sete monges em sete noites. William de Baskerville dá início a um processo de investigação. Acaba por desvendar a autoria dos homicídios: Jorge de Burgos, o monge mais velho do mosteiro. Desvenda também a causa: impedir a leitura da obra de Aristóteles que falava de comédia e de riso.

Apenas alguns monges tinham acesso à biblioteca. Os que se dedicaram a ler o livro de Aristóteles morreram envenenados porque humedeciam os dedos na língua para folhear páginas que continham veneno. O autor dos crimes, na sua fuga, incendeia o mosteiro mas William e Adso conseguem salvar o livro. Este foi o final feliz. Salvar o que estava criminosamente a ser censurado. É oportuno lembrar as palavras de William de Baskerville, talvez a melhor personagem de Sean Connery: “When we consider a book, we mustn’t ask ourselves what it says but what it means.”

Sean Connery esteve ao serviço do cinema durante várias décadas e entre os muitos prémios que recebeu, contou com um Óscar como Melhor Ator Secundário, pela sua interpretação no filme de Brian de Palma “Os Intocáveis” (1987), ao lado de Kevin Costner e Robert De Niro, e por este papel arrebatou um Globo de Ouro. Em 1988, foi destacado pelo BAFTA como Melhor Ator pela sua interpretação em “O Nome da Rosa”, de Jean-Jacques Annaud. A década de 1990 foi auspiciosa para o actor escocês, que voltou a bisar nos Globos de Ouro, onde recebeu o prémio Cecil B. DeMille pela sua carreira que em 1995 foi também distinguida pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films. Em 2006, foi novamente distinguido pelo American Film Institute e foi aliás ao receber essa última distinção que anunciou que deixaria de representar. Tinha então 76 anos, e seria agraciado com o título de “Sir”, atribuído pela Rainha Isabel II.

Concluindo, faço minhas as palavras de Anthony Lane: “Zombar e questionar os nossos sonhos, com o mais leve dos toques, mesmo que os realizemos em grande estilo: tal é o privilégio das grandes estrelas, e Sean Connery pertence a essa fileira. Se os seus filmes fizeram mais ou menos sucesso não é relevante; a maioria dos filmes desaparece com o tempo. E ainda assim, o rochedo permanece”.

Bibliografia

Anthony Lane, The undeniable Sean Connery”, THE NEW YORKER, 02-11-20.

Carmo Afonso, “O nome da Rosa”, EXPRESSO, 02-11-20.

EXPRESSO, “Actor Sean Connery morre aos 90 anos”, 31-10-20.

Susana Salvador, “Morreu o ator Sean Connery, o eterno James Bond“, PÚBLICO, 31-10-20.

Helena Garvão

Lisboa, 7 de novembro de 2020

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