Petrificar o tempo na Arquitetura: nem tudo é para sempre.

Petrificar o tempo na Arquitetura: nem tudo é para sempre.

Com este artigo pretende-se “contribuir para melhor se comporem os puzzles dos saberes urbanos e da construção de futuras estratégias para com as cidades” (Seixas, 2013). O pretexto desta conversa aposta para a (re)construção das cidades, com grandes projetos, com a expetativa que estes catalisem dinâmicas económicas e de desenvolvimento. Deve “a cidade permanecer como lugar de lutas sociais e políticas que nos interessa, sobretudo se estamos comprometidos com um sistema de justiça social e de democracia que não se rende às desigualdades que caraterizam o nosso tempo”. (Rodrigues, Fernando, M. et al., 2017). Sem pretensiosismos, pretende-se neste artigo comentar e exercer um exercício crítico sobre a arquitetura e sobre o desenvolvimento das cidades, a partir de um conjunto de reflexões de autores de referência. Note-se que, “o urbano é hoje ponto e ponte de contacto com as lógicas fundamentais de produção e reprodução das sociedades” (Lopes, 2002).

Petrificar o tempo na arquitetura

Conforme escrevia a revista L’ Architecture d’Aujourd’hui, em 1937, foram as exposições internacionais as grandes promotoras dos eventos que “sempre exprimiram a plástica do seu tempo, (…) uma certa moda no seu apogeu com alguns corajosos ensaios vanguardistas e algumas reminiscências de modas do passado” (Galopin & CEML, 1997).

Será que um edifício dura para sempre? Os construtores egípcios, utilizavam a pedra nos edifícios mais significativos, pois pretendiam a eternidade. Mas essa eternidade existe, na arquitetura?
Um edifício adapta-se a muitas utilizações ao longo da sua vida. E essas adaptações mantêm a essência da arquitetura? Os problemas de conservação, torna muitas vezes difícil, a preservação dessa essência.
No próprio conceito que consta do Regime Jurídico da Reabilitação Urbana, [alínea i) do art. 2.º], a reabilitação de edifícios é definida como “a forma de intervenção destinada a conferir adequadas características de desempenho e de segurança funcional, estrutural e construtiva a um ou a vários edifícios, (…) ou a conceder-lhes novas aptidões funcionais, determinadas em função das opções de reabilitação urbana prosseguidas, com vista a permitir novos usos ou o mesmo uso com padrões de desempenho mais elevados, podendo compreender uma ou mais operações urbanísticas” (Decreto-Lei nº 307/2009, 2009).


Alguns dos valores culturais, arquitetónicos, sobrepõem-se à deterioração da matéria de que são construídos. Toda a história da arquitetura está também ligada aos materiais. Se a construção dos edifícios, não tiver essa capacidade de durar para sempre, até que ponto esta ideia de “petrificar a arquitetura” pode ficar comprometida? (Veríssimo, 2007). Se um edifício vai sofrendo alterações ao longo do tempo, que por vezes o modifica substancialmente, então o que é “eterno” na arquitetura? A questão de um projeto ser, de hoje, de ontem ou de amanhã, não tem para mim significado algum. E dou a música, como exemplo, porque gosto muito da analogia da música com a arquitetura. O espaço também é música” ou ainda a “Arquitetura é música congelada” (Clerc González, 2003).

Talvez não interessa saber se a música era considerada contemporânea na altura em que foi composta. Interessa sim, mensurar a qualidade que permanece no tempo. A arquitetura é mensurável pelo resultado que obtém, pelos impactos que colhe na comunidade que dela habita e usufrui. Não é portanto, mensurável (apenas) pela qualidade do seu processo genético.

Nada é eterno

Quando se projecta um edifício, geralmente, faz-se com a intenção de durar bastante tempo. Todavia, o que realmente é importante é que tenha dignidade. Que se projete com paixão.

A paixão produz qualidade. Se pensarmos nos materiais, a estrutura de um edifício tem uma durabilidade de décadas, mas se pensarmos nos revestimentos, dependendo do desgaste dos materiais de acabamento, de condições externas extremas ou de uma necessidade de alteração de imagem do edifício, podem durar apenas meia dúzia de anos.

A inovação não tem nada de negativo, mas por si só não é um bom objetivo. Todas as invenções de um novo material teve, quase sempre, uma repercussão na arquitetura. As novas formas e técnicas de construção advêm também da invenção de materiais e por sua vez da inovação tecnológica. Materiais como o betão e o aço revolucionaram a arquitetura, mas também a pedra ou o adobe.
O que faz uma cidade ser autêntica e diferente das outras? O modo de olhar a cidade? O contacto com a população local? A descoberta da cidade?


Através da utilização de técnicas tradicionais e materiais locais, no futuro, será de ponderar procurar usar materiais mais resistentes e duráveis, na estrutura dos edifícios, e conceber estruturas de modo a tornar possível a sua adaptação a outras utilizações. Terá de haver um maior equilíbrio entre arquitetura e ambiente, com os materiais, pensados como parte integrante do processo de conceção arquitetónica-cultural. A seleção de materiais, em arquitetura, começa a ser, mais do que nunca, um assunto fulcral.

As propriedades e escolha dos materiais e tecnologias ambientais começam a ser elementos cruciais em termos conceptuais e assuntos ambientais.
Como pensar a cidade e as políticas urbanas? Com novas áreas protagonistas, o ambiente, o consumo e a qualidade de vida.
Os Planos Estratégicos de Desenvolvimento Urbano, em 2020, definem a estratégia integrada de desenvolvimento urbano, sendo prioritários a Regeneração Urbana e a Mobilidade Urbana Sustentável.

Esta estratégia de desenvolvimento combina perfeitamente com a seleção de materiais sustentáveis, no plano da arquitetura e com novas investigações sobre materiais contemporâneos, poupando energia.

Considerações finais


É importante trabalhar com tudo o que já foi feito na história universal que se conheça, com tudo aquilo que já foi experimentado e alcançado e que está ao nosso dispor.
Sempre gerou fascínio nos arquitetos, no momento do projeto, a densidade daquilo que resistiu, bem como a naturalidade desafiadora.

É como se os vários modos de permanência habitassem o horizonte de expectativa dos arquitectos. E este fascínio mantém-se, por existir a possibilidade, que dificilmente se cumpre, de que o tempo se incorpore na arquitectura.

O Tempo. É sempre o Tempo que, mais uma vez, ajudar-nos-á a perceber que os edifícios não são para sempre.

Imagem D.R. Vista sobre Lisboa antes do terramoto de 1755 / Cortesia Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Referências bibliográficas:


Clerc González, Gastón (2003) Arquitectura é música congelada. Tese (Doutoramento). Faculdade de Arquitectura ETS (UPM).

Decreto-Lei nº 307/2009. (2009). Regime Jurídico da Reabilitação Urbana. Diário da República n.º 206/2009, Série I de 2009-10-23. Disponível em: https://dre.pt/legislacao-consolidada/-/lc/34511675/view

Galopin, M., & Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa da Expo’98 (1997). As Exposições Internacionais do Século XX e o BIE. Lisboa: Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa de 1998.


Lopes, João Teixeira (2002), Novas questões de sociologia urbana: conteúdos e “orientações” pedagógicas. Porto: Edições Afrontamento.


Rodrigues, Fernando M. et al., Orgs. (2017). Por Uma Cidade Sustentável. Expansão Urbana Planeada, Quadro Legal e Financiamento Autárquico. Lisboa: Edições Afrontamento.


Seixas, João (2013). A Cidade na Encruzilhada. Repensar a Cidade e a sua Política. Porto: Edições Afrontamento.

Veríssimo, Cristina (2007). O Tempo e os Materiais na Arquitectura. Jornal dos Arquitectos 229

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Deixe o seu comentário

LOGIN

REGISTAR