O Sapateiro e o Rabecão

Não sou pessoa de reler livros, nomeadamente romances – independentemente do género; ainda assim, há alguns a que volto, de vez em quando, porque têm uma certa plasticidade e – aparentam, pelo menos, fazê-lo – falam a uma parte de mim diferente de cada vez que os leio.

Com os livros técnicos – chamemos-lhe, assim – é outra coisa… A esses, gosto de voltar, não só, porque vamos absorver alguma pérola que nos escapou da primeira vez – é certo –, mas também – e essencialmente, acho eu – porque, entretanto,  crescemos, desenvolvemo-nos, e, como tal, a nossa capacidade de aprendizagem aumentou, modificou-se, e há coisas que compreendíamos de uma maneira – se é que assim era, de facto – e, agora, compreenderemos de outra.

E foi por isso que, nestas ultimas semanas, revisitei dois dos livros de escrita dos quais mais gostei: Como Escrever um Romance e Conseguir Publicá-lo, de Nigel Watts, e Escrever, de Stephen King.

São dois livros muito diferentes. O primeiro é mais um Manual que – como diz o autor – pode ser lido como um livro normal ou como um Manual; recorrendo a ele sempre que necessário. O segundo, é uma espécie de conversa que se tem com o autor e, através da qual, Stephen King, nos fala – sucintamente – da vida dele e de como é, para ele, a escrita: como flui; as técnicas; os truques; os conselhos. Stephen King, um escritor sem igual – em termos contemporâneos -, devido à sua prolificidade, em momento algum da sua vida frequentou um curso de escrita criativa; no entanto, sabe do seu ofício como ninguém. E, ainda assim, numa prova de humildade, limita-se a passar a quem o lê, e quer ser escritor, aquilo que, no seu entender, são os seus trunfos; salvaguardando, contudo, que o que é bom para ele pode não ser para os outros…

Livros sobre a arte da escrita, escritos por quem escreve romances, não faltam nas minhas prateleiras. E não faltam, porque anseio saber como é viver a escrita para aqueles que – como eu – se cumprem na narrativa de histórias. Entendo que, com eles, sempre podemos aprender algo novo e que há sempre dimensões novas a serem absorvidas quando os relemos. Todavia, não encontrarão na minha humilde biblioteca livros de escrita criativa. E não os encontrarão, porque os livros sobre escrita escritos por romancistas – e creio que os li quase todos -, sendo uns melhores do que outros, são absolutamente honestos e verdadeiros e – curiosamente na opinião de todos os autores – todos são perentórios: não há como ensinar a escrever romances.

Há que entender que escrever bem não significa necessariamente que se pode ser escritor. E, deixemos cair o Mito Anglo-saxónico graças ao qual, uns quantos chicos-espertos, põem no mesmo saco tudo o que escreve. Chamo-lhe Mito, não por o ser, mas pela forma como tem sido usado – e abusado – por cá… A forma como os anglo-saxónicos veem os Writers é abrangente, porque todos os que têm por profissão escrever são Writers; mas a verdade é que esta visão é tão abrangente que eles próprios tem noção disso e, por isso, depois, especificam ainda mais no campo profissional; e, então temos, News Writers e Novel Writers, entre outros. Por cá, não há escritores de notícias, há jornalistas; e não há escritores de romances, há escritores. E isto conduz-nos a uma perigosa confusão…

Criou-se a ideia de que todos os que escrevem podem ser escritores, porque escrevem. Mas isto equivale a dizer que todos podemos ser atletas, porque todos corremos. Dirão que não é a mesma coisa, porque para se ser atleta tem de se treinar: nem todos sabemos, de facto, correr, porque correr não é só pôr uma perna à frente da outra, a um certo ritmo, é também preciso saber respirar… Concordo inteiramente; mas será que mesmo aprendendo isso tudo, todos podemos almejar ser um atleta de alta competição?

Há aqui algumas pessoas – ainda contaminadas pela ideia populista de que somos todos iguais e todos podemos fazer a mesma coisa – que dirão que sim; espero, contudo, que hajam também alguns que já tenham percebido que uma coisa é termos todos o mesmo direito a sermos felizes e outra coisa é termos todos as mesmas capacidades físicas e intelectuais e que isso é uma impossibilidade natural. Este texto é para estes últimos…

Não. Nem todos poderemos ser atletas de alta competição. Todos podemos aprender a correr melhor, mas nem todos, correndo melhor, poderemos tornar-nos campeões ou almejar a sê-lo. Porquê?

Porque há aspectos físicos e intelectuais – ou cerebrais, se preferirem – que interferem e influenciam aquilo que cada um de nós é capaz de fazer. E é por isso que muitas vezes temos pessoas esforçadas que não conseguem chegar ao ponto onde, outros, com menos esforço conseguem; questões de sorte à parte, é claro.

Assim, tal como correr, escrever livros, romances, narrativas, não é só pôr uma palavra à da outra. E mesmo treinando, aprendendo a escrever melhor, não é suficiente para que se seja um campeão ou se possa almejar a sê-lo. Dito isto, todos podemos aprender a escrever melhor – a escrever bem -, mas nem todos podemos ser escritores. E porquê?

Pela mesma razão que nem todos os que aprenderam a correr poderão ser campeões….

Não me interpretem mal… Não estou a defender nenhuma espécie de elitismo. Qualquer pessoa que queira ser escritor, pode tentá-lo, mas ninguém tem o direito de abusar dos sonhos dessas pessoas em proveito próprio, ficando-lhe com o dinheiro em troca de uma promessa que nunca será cumprida.

Os cursos de escrita criativa que pululam pelo nosso Portugal existem por duas ordens de razões. A primeira é porque há muita gente enganada, achando que pode ser escritor só por sabe escrever; e aqui a culpa é de todos nós, estado – via sistema educacional – e sociedade que parece ter contraído a doença do politicamente correto e se tornou incapaz de dizer a verdade. A segunda é porque há muita gente que sabe escrever bem e percebeu que há um mercado de gente ingénua para explorar; para tal, basta-lhes prometer que serão grandes escritores. É claro que a isto não é indiferente a imagem de glamour que Hollywood, e os canais de séries, passou do que é a vida de um escritor.

Antes que perguntem…

Sim. Já frequentei alguns cursos de escrita criativa. Nunca os terminei, por entender que não me traziam nada de bom – ou de novo – e por ter percebido que se tentava ensinar algo inensinável ( a palavra existe, sim).

Eu não sou contra os cursos de escrita criativa, no sentido de que serão uteis enquanto instrumentos que permitirão às pessoas melhorar as suas competências de escrita; tal como não sou contra as Vanity Press – outra praga -, porque entendo que há um lugar para elas. O que me revolta é quando estas coisas assumem ser uma coisa que não são ou prometem algo que não podem cumprir…

A Vanity Press assumem-se como editoras de pleno direito, por exemplo. Contudo, não são. São Tipografias com uma chancela; não revisam os livros, não trabalham a sua promoção – ou a do autor – e limitam-se a imprimir uns quantos livros às custas do escritor. No entanto, ao se assumirem como uma editora, já estão cavalgar no sonho do escritor que só, mais tarde, perceberá que nada do que lhe falaram aconteceu; até o que estava contratado. E os cursos de escrita criativa, da mesma forma, montam-se na ambição dos que acreditam que podem ser escritores e alimentam essa ambição, mesmo quando tudo indica que isso é uma impossibilidade. Há razões para isto tudo; quer uma coisa quer outra são negócios: e o ser honesto diminuiria – e muito – a faturação.

A chave está – mais uma vez – na sociedade; na transformação desta nossa incapacidade actual para « chamar os bois pelos nomes» ou «por os pontos nos is» numa assertividade sem igual. Todos beneficiaríamos disso, porque todos teríamos consciência do que conseguimos ou não fazer; e – mais importante – encontrarmos o nosso lugar no mundo seria mais fácil.

Mas como isso ainda está longe, e por muitos anos ainda, continuaremos todos perdidos; uns achando que são escritores e outros achando que são atletas, mas ninguém a fazer o que realmente veio fazer a este mundo.

Imagem de Gloria Malone por Pixabay

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