EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish

O bandido da luz vermelha: subdesenvolvimento e terceiro-mundismo (final)

O bandido da luz vermelha: subdesenvolvimento e terceiro-mundismo (final)

Antes de iniciar, é importante esclarecer que este artigo é parte da pesquisa de Iniciação Científica O cinema como representação da história: subdesenvolvimento e modernização brasileira no Cinema Marginal (1967-1974), desenvolvida no Departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo, ao abrigo de bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PIBIC-CNPq), entre 2007 e 2009, sob orientação da Profa. Dra. Ana Lúcia Lana Nemi.

 

É a bomba / e fome; / no século 20 / a bomba /
e a fome separam o 3o mundo
do resto da terra. (trecho do filme)

 

O subdesenvolvimento é tema central d´O bandido da luz vermelha, interessa ao diretor, segundo entrevista de 1966: “Todos pretendem fazer denúncias através do cinema. Eu também. Mas não me interessa constatar o desespero de almas sem Deus, a psicologia feminina e a incomunicabilidade. […] Opto pela denúncia global da alma e do corpo subdesenvolvido, isto é, do homem brasileiro.”

A teoria do subdesenvolvimento, hoje ultrapassada, foi paradigma analítico para um amplo setor intelectual mais progressista nos anos 1960. Este conceito está centrado nas contribuições do economista Celso Furtado, no âmbito da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), e e buscava interpretar a relação econômico-politica entre América Latina e os países hegemônicos no Ocidente, principalmente Estados Unidos.

Basicamente esta teoria supunha que desde as Grandes Navegações vivíamos uma dependência política, que submetiam os povos latino-americanos aos interesses dos países centrais. Países ibéricos, depois Inglaterra, e então EUA, a teoria estava calcada em uma visão que hoje podemos considerar ingênua, de que a miséria do ”terceiro mundo” era causada pela eterna oposição colonizador/colonizado, metrópole/colônia ou centro/periferia, ignorando que ocorria acumulação de riqueza também pela burguesia local, às custas exploração da população local.

Uma das influências no discurso terceiro-mundista de O bandido é a peça O rei da vela, de Oswald de Andrade, cuja montagem, em 1967, de José Celso Martinez Correia, causou grande impacto. Esta peça foi escrita em 1933, no pós-Primeira Guerra, quando os EUA expandiam sua supremacia do continente para o Ocidente, e traz uma forte crítica ao neocolonialismo e à submissão ao capital estrangeiro daquele país.

Outra crítica presente é à exploração do povo para entregar as riquezas aos estrangeiros: “Os países inferiores têm que trabalhar para os países superiores como os pobres têm que trabalhar para os ricos. Você acredita que Nova Iorque teria aquelas babéis vivas de arranha-céus e as vinte mil pernas mais bonitas da terra se não trabalhasse para Wall Street de Ribeirão Preto a Cingapura, de Manaus à Libéria? Eu sei que sou um simples feitor do capital estrangeiro. Um lacaio, se quiserem!”

Há uma passagem nO bandido da luz vermelha que em nossa visão alegoriza essa crítica. É quando Janet Jane, namorada do bandido, lhe pede dinheiro para fazer um aborto e repassa para um cafetão, personagem de Lucho Gatica. Tomando o bandido como alegoria do Brasil e seu povo, podemos ver Janet como a elite brasileira, que explora nossas riquezas para entrega-las às potencias estrangeiras.

Em outra passagem, quando invade uma mansão, o bandido afirma: “Tô aqui a fim de uma Enciclopédia Britânica.” Além de ser uma ironia à ignorância do bandido (que escreve um bilhete com erros de ortografia) , o que torna improvável seu interesse intelectual em uma enciclopédia, há referência ao fato de o conhecimento consumido e utilizado no Brasil ser produzido nos países centrais do sistema capitalista, como a Inglaterra, o que é uma face da dominação econômica e intelectual a que nos submetemos há séculos, e que foi realçada no período político no qual o filme foi produzido.

Além desse conteúdo de O rei da vela, o discurso contra a dependência terceiro-mundista permeia também outras obras de Oswald de Andrade, como o Manifesto Antropofágico e Serafim Ponte Grande.

O bandido da luz vermelha é uma alegoria do eterno papel do Brasil como país periférico do sistema capitalista. Apesar de todas as nossas riquezas nossa elite sempre optou por um papel subserviente ao sistema econômico internacional, o que nos tornou um país tipicamente terceiro mundista, fornecedor de matéria prima e de produtos manufaturados e comprador de produtos industrializados e de serviços dos países centrais do sistema. Para cumprir com esse papel, o Brasil deveria manter-se dependente, jamais obtendo soberania e plena autonomia econômica.

No letreiro do filme, em certa altura aparece uma frase emblemática: “Itapuã: 13 mil fuzileiros navais invadem a Bahia para defender o Brasil.”. É conhecida a operação Brother Sam, que os EUA haviam montado para dar suporte aos golpistas em 1964 e que, dadas as condições em que ocorreu o golpe, sem resistência, não foi necessário. Além disso, o discurso dos golpistas dava conta da necessidade de defender o Brasil da dominação internacional e da ameaça do comunismo.

O subdesenvolvimento terceiro-mundista (tema já trabalhado nos filmes do Cinema Novo, principalmente Deus e o diabo na terra do sol – 1964, e Terra em transe-1968, ambos de Glauber Rocha) aparece aqui de forma debochada e alegorizada, como o letreiro luminoso afirmando que “os personagens não pertencem ao mundo, mas ao terceiro mundo”.

No manifesto “Cinema fora-da-lei”, Sganzerla afirma que: “O bandido da luz vermelha é um personagem político na medida em que é um boçal ineficaz, um rebelde importante, um recalcado infeliz que não consegue canalizar suas energias vitais.”

Essa passagem nos remete ao papel cumprido pela classe trabalhadora, através de suas instituições representativas, ou seja, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e os sindicatos. Por conta da forma como se instituiu o populismo brasileiro, a classe trabalhadora acabou por apoiar a burguesia no processo de industrialização.

Por conta da submissão à classe dominante, a classe trabalhadora se viu incapaz de levar adiante um projeto mínimo de melhora das condições de existência. Assim, não obteve êxito em mobilizar suas energias latentes para a tarefa de construção de uma nação soberana. Nesse sentido percebemos uma aproximação entre a análise que Sganzerla faz do protagonista e a trajetória da classe trabalhadora, cuja similitude faz dele um personagem político.

Em tom de político populista, J. B. Sobrinho promete: “No meu governo eu vou acabar com guerras, atentados e revoluções. Porque eu tenho um lema: o petróleo é nosso.”

Além da referência a “guerras, atentados e revoluções”, bem de acordo com o momento político de então, quando o Ocidente estava mergulhado na disputa bélico-militar da Guerra Fria, a frase relaciona esse fator com petróleo e soberania nacional, motivo (ou pretexto) para disputas militares.

É sabido que o petróleo, na década de 60, desempenhava importante papel estratégico, por ser a principal fonte de energia, e econômico, como receita de exportação de vários países. Não por acaso, a economia brasileira começa a entrar em crise, inclusive determinando o fim do “milagre econômico” e do apoio da classe média ao regime, em 1974, quando da primeira crise do petróleo, provocada pelo corte do fornecimento por parte dos países do Oriente Médio, em vista do baixo valor que segundo eles era pago. E o Brasil ainda continuaria por muitos anos dependente da matriz energética petrolífera

 

Filme

Sganzerla, R. O bandido da luz vermelha. [Filme cinematográfico]. São Paulo. Urânio Filmes. Recuperado de https://www.youtube.com/watch?v=pSbBA4OiqBc. Consultado em 24 de agosto 2020.

 

Bibliografia

Andrade, Oswald. (1933). O rei da vela. Recuperado de: https://dynamicon.com.br/wp-content/uploads/2017/02/O-rei-e-a-vela-de-Oswald-de-Andrade.pdf. Consultado em 24 de agosto 2020.

 

Fonte da imagem: acervo do autor

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Partilhar este artigo:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]