A riqueza coletiva – parte I

A riqueza coletiva – parte I

À medida que se avolumam os sinais da resolução da crise sanitária provocada pela pandemia do COVID-19, e não obstante o problema persistir ou agravar-se ainda em vários pontos do planeta, muitos países já iniciaram o processo de recuperação e de regresso à normalidade. Fartas de longos confinamentos e privadas de muitas liberdades, as populações são as primeiras a reagir com entusiasmo – por vezes irrefletido ou descuidado – às aberturas das cidades, ao recomeço das viagens, e ao fim das severas restrições impostas desde março de 2020.

Este é o primeiro texto de dois, sobre a riqueza coletiva da humanidade, e tem o propósito de alertar o leitor para atentar às maravilhas criadas pela Natureza ou construídas pelo Homem, antes de se voltar a perder numa louca rotina de trabalho que o impede de apreciar o que de mais bonito lhe pode facultar a vida. Neste primeiro artigo avança-se com informação genérica sobre a herança comum, enquanto no segundo apresentam-se os tesouros do mundo lusófono. O referencial usado é o provido pela UNESCO.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (do original United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, UNESCO) foi fundada em 1945 com o propósito de contribuir para a paz e segurança no mundo através da educação, das ciências naturais, das ciências sociais e humanas, da cultura, e da comunicação/informação (https://en.unesco.org). A sede da UNESCO fica em Paris, e a sua missão é building peace in the minds of men and women.

Uma das iniciativas da UNESCO é a listagem de locais no mundo cujo valor excecional justifique a sua preservação para o futuro e a proteção através de investimento e cooperação entre as nações. A lista surge na sequência da Convenção sobre a Proteção do Património Mundial Cultural e Natural, adotada na Conferência Geral da UNESCO em 1972. Este catálogo é atualizado periodicamente por altura da conferência da UNESCO, e da herança universal fazem parte atualmente mais de 1100 locais, dos quais 870 são culturais, 200 naturais, e 40 mistos. A próxima reunião geral do Comité do Património Mundial da UNESCO tem lugar em julho de 2021, e os locais candidatos a entrar para a famosa lista são conhecidos no dia 4 de junho (https://whc.unesco.org/en/sessions/44com/).

Não obstante as críticas ao programa de preservação do património da UNESCO (ver p.e. Keough, 2011), o facto é que a pressão exercida por este organismo das Nações Unidas pode ter uma influência significativa sobre a salvaguarda de locais únicos no planeta. Esse efeito pode ser visível e quase direto, como foi o desenho e implementação de um plano para proteção do centro histórico de Viena, destinado a impedir a construção de edifícios modernos no coração da capital austríaca.

Pode ter efeitos a longo prazo, como seja a inversão da política de exploração do santuário do órix-da-arábia. O santuário foi removido da lista da UNESCO em 2007, depois do governo do Sultanato de Omã ter reduzido em 90% a área protegida, em favor da exploração petrolífera. Depois da extinção do animal em estado selvagem, nos anos 70, a espécie tem recuperado em cativeiro, e atualmente os seus números já não são tão críticos como outrora. A reintrodução e proteção do bovídeo na Natureza é agora bem vista por Omã, que aposta cada vez mais no ecoturismo, ao mesmo tempo que desinveste na declinante indústria do petróleo (Arabian Business, dezembro de 2017).

Mas nem a UNESCO pode proteger algumas riquezas da ignomínia humana ou da inclemência da Natureza. Apontam-se como exemplos a dinamitação dos gigantescos Budas de Bamiyan, em 2001, no Afeganistão, pelo regime talibã, e a destruição de vários edifícios e stupas em Catmandu, no Nepal, pelo terramoto de 2015.

Os critérios para entrada de um local na lista dividem-se em dois grupos (culturais e naturais), e são em número de 10. Em vez de enumerar estes critérios, atente-se aos dois exemplos seguintes. O primeiro é o Memorial de Paz de Hiroxima, que cumpre o critério vi (“estar diretamente ou tangivelmente associado a eventos ou tradições vivas”). O mais icónico edifício do memorial é designado Genbaku Dome, muito embora genbaku não indique uma estrutura real. Genbaku é a aliteração japonesa para “bomba atómica”, enquanto a ruína visível no local é o que resta da Câmara Municipal (prefeitura, em português do Brasil) da cidade. A bomba terá deflagrado a não mais do que 600 metros bem acima da construção, no dia 6 de agosto de 1945, causando a morte de 200 mil pessoas nesse dia e nos meses seguintes, e a capitulação do Japão, em 15 de agosto, depois de também a cidade de Nagasaki ter vivido o inferno atómico.

O autor deste artigo visitou Hiroxima em 6 de agosto de 2017, e ainda hoje recorda a tremenda carga emocional sentida, ao ver milhares de pessoas fazerem silêncio precisamente às 08:16, em desconcertante contraste com a ruína tranquila e contemplativa de Genbaku Dome.

O segundo exemplo é o Parque Nacional Los Glaciares, na província de Santa Cruz, na Patagónia Argentina. Cumpre os critérios vii (“áreas de beleza natural e estética de importância excecional”) e viii (“registo da vida e dos processos geológicos no desenvolvimento das formas terrestres ou de elementos geomórficos ou fisiográficos importantes”). O mais conhecido dos glaciares desta imensidão natural é o Perito Moreno, alegadamente um dos poucos na Terra que não está a desaparecer devido ao aquecimento global.

Uma iniciativa análoga é a preservação da herança imaterial. Distingue-se da anterior pelo seu caráter intangível e não observável, a não ser em experiências ou manifestações humanas. Tome-se a Dieta Mediterrânica, património cultural desde 2013. A sua inscrição na UNESCO resulta tanto dos ingredientes usados na confeção dos pratos (azeite, peixe, frutas, verduras, vinho), como do simbolismo que representa para as comunidades mediterrânicas: estar em comunidade e em família, e partilhar os valores da hospitalidade, boa vizinhança, diálogo intercultural, e criatividade. Quer isto dizer que, se por um lado a degustação de receitas mediterrânicas típicas apenas poderá ser feita nos países que partilham este património (Chipre, Croácia, Espanha, Grécia, Itália, Marrocos e Portugal), por outro lado bastará privar com um grupo de croatas ou cipriotas, para sentir o acolhimento, a amizade, e o forte sentido de pertença e identidade a um grupo. A este respeito, vale a pena olhar ao vídeo disponibilizado no site da UNESCO sobre a Dieta Mediterrânica (em https://ich.unesco.org/en/RL/mediterranean-diet-00884).

Este texto apresentou elementos informativos relativos à UNESCO e à riqueza coletiva, tal como representada nas listas do organismo das Nações Unidas. No artigo de junho são expostos alguns dos locais e manifestações culturais que podem ser encontrados no mundo lusófono.

Referências:

Keough, E.B. (2011). Heritage in Peril: A Critique of UNESCO’ World Heritage Program. Washington University Global Studies Law Review, 10(3), 592-615.

https://en.unesco.org

https://www.arabianbusiness.com/travel-hospitality/386244-oman-eyes-boost-in-ecotourism-with-new-oryx-sanctuary

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