A Cultura do Cancelamento tem causado um alvoroço na internet nas últimas semanas. São campanhas virais para ‘cancelar’ artistas, celebridades, profissionais de diversas áreas, influencers que se posicionem contra causas que representam justiça social e igualdade, por exemplo. Uma prática que se tornou mais visível nas redes sociais com campanhas para que usuários deixem de seguir determinada figura por algum comentário ou ação. Seria mais uma espécie de ‘justiça’ que se tenta criar a partir da iniciativa de quem utiliza a internet. Isso se transforma em uma ação coletiva a partir de outra cultura: a do compartilhamento.
Para tanto, é importante lembrar que os movimentos que surgem na internet para chamar atenção das desigualdades, injustiças, etc., surgem sem mirar uma figura pública, mas a partir de uma agenda social. No Brasil, os movimentos organizados pela internet eclodiram em 2013 e, assim como os demais, provocaram um grande impacto e importantes discussões sobre o destino das mobilizações tendo como base a internet como o principal centro de agrupamento e articulação. Há algumas características importantes desses movimentos que incluem uma grande difusão das manifestações entre segmentos da população e locais onde não há grandes repertórios de contestação; a ausência de uma reivindicação comum; a velocidade surpreendente de propagação dos focos de protesto e a massiva mobilização de segmentos e pessoas que não participavam de organizações sociais ou políticas.
Mas é importante ressaltar que o impacto que a internet apresentou nas formas de mobilização e engajamento não se encerram no mundo virtual. A força dessa nova forma de ação coletiva se mede na ocupação dos espaços públicos. É preciso pensar que o uso da Internet não conduziu a um domínio de ações e movimentos virtuais que têm precedência sobre as mobilizações em “espaço físico”. Pelo contrário, desde 2011, a ocupação de espaços públicos urbanos e, em particular, lugares simbólicos, estão no centro destes movimentos. Enquanto a internet é um espaço virtual global, os usos das redes sociais de ativistas têm contribuído mais para construir movimentos nacionais ou locais.
O sociólogo Manuel Castells chama de ‘espaço de autonomia’ essa forma de engajamento e articulação de grande quantidade de pessoas através da mobilização feita na internet. A potencialização do que é articulado no ‘virtual’, em rede, ganha corpo e locais definidos na ocupação do espaço urbano, através das manifestações nas ruas. O autor chama de ‘rede das redes’ esse tipo de movimento que se articula sem um aparente núcleo institucional centralizado.
A Cultura do Cancelamento toma outra direção, mirando às pessoas em função dos seus pensamentos e ações e isso têm gerado um grande debate sobre liberdade de expressão e linchamento virtual, sem muito espaço para defesa. Portanto, o ‘cancelamento’ nas redes sociais ocupa um novo espaço simbólico pela vigilância proporcionada pela cultura digital onde não há lugar para o esquecimento e, muitas vezes, ações reflexivas no lugar do ímpeto. Por outro lado, há uma reconfiguração de vozes que antes eram silenciadas e que hoje alcançam visibilidade pela revolução da comunicação que a internet proporcionou.
Há uma dialética na análise desse movimento que não deve ser esquecida, porque a liberação do polo emissor fez da internet um espaço de exposições e conflitos que ainda não são administrados com muita racionalidade, diante da complexidade que carrega a cultura digital.



