“Quando nasce um filme? Às vezes, ele nasce de uma sentença de morte!”

“Quando nasce um filme? Às vezes, ele nasce de uma sentença de morte!”

Após estrear no Festival Internacional de Cinema de Veneza, “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” (2019, de Bárbara Paz) recebeu o prêmio de Melhor Documentário e um prêmio especial da Crítica Independente, iniciando assim a sua carreira de láureas. Ao ser escolhido pelo Comitê de Seleção da Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais como o representante para a possível indicação ao Oscar de Melhor Internacional em 2021, houve certa celeuma em razão de tratar-se de um documentário, gênero que alguns temem que não seja suficientemente popular (na acepção industrial do termo). Ocorre que o filme ultrapassa esta classificação: trata-se de uma obra muito sensível e particular, uma declaração de amor de sua diretora àquele que, naquele instante decisivo, era seu esposo. E não trata-se de uma mera biografia: é um filme que fala sobre o Brasil (“um país em que a realidade supera a ficção”), sobre o sentimento de permanente exílio, sobre as recorrências estilísticas, sobre o amor em si…

Narrado pelo próprio cineasta, que estava na fase terminal de um câncer renitente, esta obra é inevitavelmente comparada a “O Filme de Nick” (1980, de Nicholas Ray & Wim Wenders), visto que, numa impressão inicial, registra o processo de morte de um grande artista. Sobre este filme, o crítico de cinema Ismail Xavier escreveu: “as imagens na tela realçam como poucas o peso, o sentido de presença pretérita (‘isso foi’) que indicia a morte quando olhamos a reprodução mecânica”. Este mesmo julgamento pode ser direcionado à obra em pauta…

A diferença entre um e outro registro de morte anunciada – utilizando-se aqui, propositalmente, uma síntese errônea – está no fato de que o diretor argentino Hector Babenco [1946-2016] já havia filmado a sua própria morte anteriormente, de maneira lúdica, e confessa isso em sua narração. Demonstrando uma sensibilidade indissociável de quem ama, a realizadora Bárbara Paz costura cenas de vários de seus filmes, a fim de apresentar recorrências biográficas que demonstram o quão coerente era o cineasta em sua filmografia versátil.

Além de reconstituir episódios marcantes de sua vida na trilogia sentimental formada por “Coração Iluminado” (1998), “O Passado” (2007) e “Meu Amigo Hindu” (2015), Hector Babenco insere suas paixões e temores em mais de uma obra, como, por exemplo, os traumas referentes ao confinamento, diluídos em seus variegados filmes sobre prisões, como “O Beijo da Mulher-Aranha” (1985 – pelo qual foi indicado ao Oscar de Melhor Direção) e “Carandiru” (2003), para ficar apenas em dois exemplos explícitos.

Notando tudo isso, Bárbara Paz reveza o seu olhar entre as filmagens pessoais do tratamento quimioterápico do esposo combalido – que reclama, brincando, que sempre é mostrado fragilizado, o que superaria o próprio método hollywoodiano de captura dramática das angústias de um personagem – e excertos de várias obras, homogeneizadas imageticamente através da tonalidade em preto e branco. Por algum motivo, “O Rei da Noite” (1975), estréia ficcional em longa-metragem de Hector Babenco, é excluído nesta rememoração filmográfica, talvez por ser o seu filme mais atípico. Mas, como o próprio cineasta acreditava: enquadrar é fundamental. Ou seja, destacar exatamente aquilo que é exigido para a construção de um determinado estado de espírito.

Nas memórias do diretor, fica evidente o seu fascínio pelas tramas românticas levadas a cabo por François Truffaut [1932-1984], “o cineasta do amor difícil”, que volta e meia é reverenciado diretamente nalguma cena de seus filmes. Mas, neste documentário, Barbara Paz apresenta-o em sua faceta mais íntima, a que ela teve um acesso privilegiado: vemos Hector Babenco ensinando-lhe a manipular o foco de uma câmera; descobrimos situações dos bastidores de suas obras; rememoramos o momento em que ele esteve indicado junto a nomes como John Huston [1906-1987], Akira Kurosawa [1910-1998] e Sydney Pollack [1934-2008]; e ouvimos ele recitar: “eu já vivi a minha morte. Só falta fazer o filme”. Até mesmo isso já havia sido feito afinal. O que vemos é uma espécie de ‘making-of’ afetivo!

Em razão do prolongamento doloroso de sua doença, o cineasta é eventualmente flagrado como se fosse uma estátua e/ou com aspecto reptiliano, pois é desprovido de pêlos e está obviamente pálido. Mas mantém ativa a sua consciência e a sua memória. O filme não funciona como uma biografia tradicional, já que oblitera intencionalmente muitas informações fundamentais da vida do diretor (nada sabemos sobre seus casamentos anteriores, por exemplo), mas permite que aprendamos muito sobre Hector Babenco a partir dos filmes que ele fez, entre eles, o grande sucesso que foi “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1980), considerado quase unanimemente, pela crítica internacional, um dos melhores filmes da década em que foi realizado.

Hector Babenco não requer nenhum tipo de pudicícia especial por ser exposto doente: exibe-se sem receios, ciente de que prolonga-se na História, para além da própria morte, retomando-se aqui a referência citada por Ismail Xavier, ao enfatizar um aspecto-chave do livro “A Câmara Clara”, de Roland Barthes. Mesmo perecendo fisicamente, o diretor torna-se imortal diante de nossos sentidos. E assume, num determinado momento, a experiência de sentir-se num contínuo exílio, visto que, segundo ele, “os brasileiros o consideravam argentino, e os argentinos consideravam-no um brasileiro”. É um cineasta eminentemente internacional, tendo sabido consolidar o seu nome para além das fronteiras da América do Sul, o que assegura o interesse dos cinéfilos mundiais neste documentário: portanto, não foi uma escolha imprudente para representar o Brasil em certames de caráter técnico. É um filme multiplamente valoroso, ainda que acompanhado por um necessário mal-estar. Diz o cineasta: “depois do sucesso, vem a tempestade”. A realizadora converte novamente a tempestade em sucesso, por conseguinte.

Nos componentes específicos de seu filme, Bárbara Paz segue um caminho directivo distinto, provando que não imita o seu esposo, mas segue ao lado dele, num percurso paralelo, de apoio e aprendizado. Na abertura e no desfecho, ela escolhe a merencória canção “Exit Music (For a Film)”, da banda britânica Radiohead, como extensão emotiva do que sentia: “Acorde de teu sono/ Do secar de tuas lágrimas/ Hoje fugiremos/ Fugiremos/ Arrume tuas coisas e se vista/ Antes que teu pai nos ouça/ Antes que tudo vá pelos ares”

Numa das frases iniciais do filme, Hector Babenco comenta que, numa das vezes em que estava doente, alguém alegou que não iria visitá-lo no hospital, pois sabia que ele sobreviveria. Em determinado momento de sua existência terrena, não foi mais o caso. Mas esta visita foi compartilhada através de um belo (e desconfortável) filme!

Wesley Pereira de Castro.

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