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Porque é cada vez mais importante falar sobre Bacurau!

Porque é cada vez mais importante falar sobre Bacurau!

Numa das passagens mais célebres da Bíblia Sagrada, quando Jesus Cristo é preso enquanto orava no jardim de Getsêmani, o apóstolo Simão Pedro corta a orelha de um dos soldados incumbidos de tão trágica missão. Prontamente, entretanto, Jesus repõe a orelha ferida e apregoa uma de suas frases mais elementares: “todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus, 26: 52). Com esta declaração, fica patente o quão aberrante é um eleitor cristão defender leis pró-armamentistas.

Trazendo esta incoerência política para a conjuntura brasileira hodierna, é mister trazer à tona as barbaridades associadas ao que se convencionou entender como bolsonarismo, no que tange à devoção panfletária ao discurso de ódio levado a cabo pelo então presidente eleito do país: em “Bacurau” (2019, de Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles), o inimigo é uma alegoria expandida do que esta personalidade hedionda representa. E o filme é genial para além disso, encontrando neste aspecto urgente um de seus elementos mais problemáticos – nos dois sentidos da palavra.

Como este texto advém de uma revisão crítica sobre o filme, recomenda-se que ele seja lido por quem já assistiu ao mesmo, dado que aspectos centrais do enredo serão analisados, sob um prisma que está longe de esgotar o debate, visto que o filme pode (e deve) ser apreendido sob múltiplas perspectivas. O que, de fato, vem ocorrendo, tamanha a quantidade de publicações que o colocam em evidência merecida.

A esta altura, sabe-se que o desfecho do filme é uma espécie de chacina resistente, em que, capitaneados pelo rebelde Lunga (Silvero Pereira), os habitantes da cidade-título revoltam-se, sob o uso de psicotrópicos, contra violentíssimos mercenários estadunidenses, que contabilizam mortes como se estivessem num jogo eletrônico. Frente à violência extrema, a única reação imediata possível é a violência protestante, identitária, combatente. Entretanto, efetuada a captura dos vilões, que função social caberá ao personagem Lunga numa conjuntura pacificada? Perguntemo-nos enquanto provocação espectatorial que impinge-se também sobre as nossas reações catárticas ao ritmo convulsivo do filme…

Se, por um lado, é o desencadeamento da violência que permite que a cidadela de Bacurau sobreviva – e seja reposta no mapa –, por outro, é devido a ela que retroalimentam-se contradições inerentes a qualquer organização social, até mesmo no ensejo utópico detectado no filme. O fato de a trama passar-se “daqui a alguns anos” justifica as reações congratulatórias e comemorativas que o filme vem recebido merecidamente por parte da esquerda política. Mas… Do lado de cá da tela, a situação é muito mais delicada. Afinal, o mau representante foi eleito por esmagadora maioria dos votos no Brasil. O que isto quer dizer, em termos generalizantes? Possível interpretação responsiva: que um discurso efusivo em relação à violência conseguiu imiscuir-se de maneira tão ampla que assimila até mesmo a necessidade de virulenta reação contra a opressão por parte dos “condenados da terra”, para utilizar uma oportuna expressão fanoniana. E o filme aborda tudo isso de maneira brilhante, através de aspectos cinefilicamente hipercodificados.

Não é por acaso que o nome da escola bacurauense tenha o nome de João Carpinteiro nem muito menos que uma música eletrônica do extensivamente emulado John Carpenter sobreponha, na banda sonora, um canto de capoeira: a tecnologia e as invasões midiáticas insurgem-se como contínuo perigo (e benefício) ambivalente na cidade de Bacurau. Afinal, é primeiro num ‘tablet’ que o professor local tenta mostrar aos alunos onde está representado o local onde eles moram, encontrado a posteriori num mapa artesanal de fortíssimo valor simbólico. Resistência legítima requer conhecimento da História, portanto.

Da mesma maneira, as telas onipresentes cumprem funções controversas: desde o anúncio de uma recompensa pela captura de Lunga até a execução altissonante – e em tom de bravata – do ‘jingle’ falsário de um prefeito malfazejo que implora por sua reeleição, passando pela imagem celebratória da falecida Carmelita (Lia de Itamaracá), pela transmissão ao vivo de execuções públicas de criminosos numa TV e pela reiteração das imagens que tornaram Acácio/Pacote (Thomás Aquino) celebrado como “o rei do teco”, inclusive entre crianças. Não é mais ou menos o que já ocorre hoje em dia?

A despeito de qualquer comentário ou observação brevemente desapreciativa acerca deste filmaço, nada obnubila a sua acachapante importância enquanto evento fílmico e político, fomentando debates riquíssimos e manifestações militantes de forte envergadura, como quando o ator cearense Silvero Pereira, abertamente homossexual, protestou contra desmandos governamentais envolvendo atos cada vez mais freqüentes de censura ideológica. ‘Bacurau’, o vocábulo que representa uma ave de rapina nordestina, é agora extra-dicionaristicamente compreendido como sinônimo de altiva resistência.

À guisa de conclusão, a citação de um trecho do capítulo XVIII do romance “As Vinhas da Ira”, publicado em 1939 pelo escritor de inclinação comunista John Steinbeck (1902-1968), que escancara algo evidente no elã bacurauense: “os grandes proprietários, que têm acesso à história, têm olhos para ler histórias e saber do magno fato: a propriedade, quando acumulada em muito poucas mãos, está destinada a ser espoliada. E do fato complementar também: quando uma maioria passa fome e frio, ela tomará à força aquilo de que necessita. E também o fato gritante, que ecoa por toda a história: a repressão só conduz ao fortalecimento e à união dos oprimidos”. Isso ecoa em cada filigrana poderoso deste, que, sem dúvida, é um dos melhores e mais importantes filmes de 2019!

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