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Por que é importante falar sobre os festivais de cinema (e não apenas sobre suas premiações)?

Por que é importante falar sobre os festivais de cinema (e não apenas sobre suas premiações)?

Entre os dias 28 de agosto de 07 de setembro de 2019, ocorreu a septuagésima sexta edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Não obstante ter sido instaurado no ápice do período fascista na Itália, ao longo dos anos este Festival passou por importantes transformações de influência cinefílica, de modo que, hoje, é mais lembrado por ser o principal termômetro para os indicados ao Oscar do ano posterior. Explica-se: como tal certame dá-se na estação em que, no Hemisfério Norte do planeta, corresponde ao verão, são lançados importantes produtos hollywoodianos neste período. Foi o que ocorreu com “Coringa” (2019, de Todd Phillips), afinal premiado com o Leão de Ouro, principal láurea do evento, o que desencadeou certa polêmica acerca da legitimidade crítica do festival…

Presidido pela inventiva cineasta argentina Lucrecia Martel, o Júri Oficial parecia seguir uma tendência alternativa e premiar a comédia dramática escandinava “About Endlessness” (2019, de Roy Andersson), lembrado na categoria de Melhor Direção. Ao optar por um dos arrasa-quarteirões mais esperados do ano, reclamou-se que o Festival favoreceu superfluamente a hegemonia das superproduções norte-americanas, em detrimento dos filmes de baixo orçamentos e/ou de países com filmografias discretas ou cultuadas por nichos específicos de cinéfilos. O fato de “Coringa” ser uma derivação do subgênero ascendente dos super-heróis acrescentou novos elementos ao debate, que transcende até mesmo a avaliação qualitativa do filme, que estreará comercialmente somente no mês de outubro. Independente de ser ótimo, não é arriscado privilegiar um filme que gozará facilmente de sucesso nas bilheterias e premiações técnicas de todo o mundo? Esta decisão considerada mui concessiva não seria tendente à cartelização hollywoodiana, combatida estilisticamente pela própria presidenta do Júri em seus filmes narrativamente desafiadores? São perguntas que seguem repercutindo após a divulgação da lista de premiados…

Para além da noticiabilidade embasbacadora da concessão do Leão de Ouro ao filme “Coringa”, outro fato muito repercutido na edição deste ano do evento foi a recepção delicada que envolveu o lançamento de “J’Accuse” [título internacional: “An Officer and a Spy”], mais recente produção do cineasta polonês Roman Polanski, que é réu confesso no caso do abuso sexual de uma menor de idade, na década de 1970. Fiel a seus preceitos feministas, a presidenta do Júri recusou-se a assistir a este filme em sua sessão oficial de gala. Mas não impediu que o mesmo concorresse às láureas, de modo que ele recebeu o Grande Prêmio do Júri, além de ter sido elogiadíssimo pela crítica. Para muitos, era o melhor filme em competição, mas questões “extra-fílmicas” podem ter interferido em sua apreciação…

Não por acaso, “J’Accuse” chama também a atenção por seu tema enredístico: aborda o até hoje polêmico “caso Dreyfus”, marco definitivo de injustiça jurídica que polarizou a opinião pública francesa entre o final do século XIX e início do século XX, em moldes muito semelhantes ao que acontece com o bolsonarismo no Brasil e à ascensão da extrema-direita em muitos países. Lidar com a reconstituição deste escândalo político nos dias atuais permite a verificação do quão provida de ideologias é a Sétima Arte, conforme pôde também ser constatado em mais de uma situação ocorrida ao longo do festival. Exemplo elogiável: o prêmio de Melhor Documentário sobre Cinema concedido ao longa-metragem brasileiro “Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” (2019), dirigido pela atriz Bárbara Paz, viúva do diretor biografado, que, em seu discurso de agradecimento, foi contundente quanto à denúncia de situações de censura artística em seu país natal. “Este prêmio é muito importante para o meu país. Precisamos dizer não à censura: vida longa à liberdade de expressão!”, afirmou ela. Coberta de razão, inclusive!

Nas demais categorias da premiação, as suspeitas “alternativas” foram confirmadas: o prêmio de Melhor Interpretação Feminina foi para a francesa Ariane Ascaride, por seu trabalho no novo filme do esposo Robert Guédiguian, “Gloria Mundi” (2019), enquanto que, na categoria Masculina, o premiado foi o jovem italiano Luca Marinelli, pelo filme “Martin Eden” (2019), do conceituado documentarista Pietro Marcello. Já o prêmio de Melhor Roteiro foi para o longa-metragem animado de Hong Kong “N° 7 Cherry Lane” (2019, de Yonfan). Uma distribuição de prêmios bastante variegada, conforme era antevista.

Por fim, a reiteração de outra expectativa: não foram poucos os filmes cogitados como favoritos às nomeações para o vindouro Oscar 2020. Dentre eles, a ficção científica “Ad Astra” (2019, de James Gray) protagonizada por Brad Pitt; a produção da Netflix “Marriage Story” (2019, de Noah Baumbach), uma das mais elogiadas do concurso; e a farsa biográfica “The Laundromat” (2019, de Steven Soderbergh), protagonizada por Meryl Streep. Isso sem contar as jóias “estrangeiras” disponibilizadas no Festival, a cargo de nomes prestiagiados como Hirokazu Kore-Eda, Ciro Guerra, Atom Egoyan, Olivier Assayas, Pablo Larraín e o português Tiago Guedes. Aguardemos os próximos lançamentos!

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