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Para além (ou aquém?) dos quiproquós chanchadescos…

Para além (ou aquém?) dos quiproquós chanchadescos…

Não obstante ter consagrado-se como um grande realizador de chanchadas, o cineasta brasileiro Watson Macedo (1918-1981) costumava declarar que não apreciava muito este subgênero. Sua grande obsessão, afinal realizada, foi a efetivação do drama “A Sombra da Outra” (1950), infelizmente dado como perdido. Em razão de incêndios e inundações nos estúdios da produtora Atlântida, para a qual ele trabalhou, vários de seus filmes desapareceram por completo, jamais serão vistos pelas novas gerações de cinéfilos. E, dentre os que sobraram, poucos são os que recebem a devida valorização…

Por conta do modo depreciativo com que a imprensa da época referia-se às comédias rápidas e carnavalescas da década de 1950, muitos filmes qualitativos foram obnubilados sobre o rótulo subgenérico de “chanchadas”. Mas, felizmente, vários pesquisadores descobriram recentemente as benesses insignes da filmografia macediana, contrariando uma tendência geral das platéias brasileiras em ignorar a validade sociológica de alguns de seus títulos outrora bem-sucedidos, em requisitos de bilheteria. E, pitorescamente, poucos diretores foram tão rentáveis para a movimentação cinematográfica do Brasil quanto Watson Macedo, por mais que eventualmente seu estilo se repetisse, no que tange às fórmulas machistas ainda em voga no humor nacional.

Dadas as divergências quanto ao ano de nascimento deste gênio popular, no dia 21 de julho de 2019 comemorou-se o centenário do artista, e houve a exibição programada de seu último filme, o único longa-metragem colorido que realizou, “Rio, Verão e Amor” (1966). Entretanto, as piadas caricaturais e chauvinistas desta obra merecem uma análise depurada, sobretudo quando cotejadas ao panorama político hodierno, tragicômico em seu rol de misérias (des)governamentais…

O enredo de “Rio, Verão e Amor” é desenvolvido ao longo de várias subtramas paralelas, amplamente desenroladas nas areias da praia de Copacabana. No centro, está a dupla de irmãos Paulo (Milton Rodríguez) e Pedro (Tony de Pádua). O primeiro deles trabalha como motorista de um grande empresário, prestes a aposentar-se forçosamente por achar a vida sobremaneira monótona depois que tornou-se viúvo. Aproveitando-se o desânimo contumaz de seu patrão, Paulo desfila num conversível de luxo à beira-mar, e atrai o interesse da rica Gabriela (Babete Castilho), que pensa que ele é um milionário. Começam a namorar. Os quiproquós obviamente se sucederão. Mas estamos apenas no começo…

O segundo dos irmãos, Pedro, trabalha como salva-vidas. É apaixonado pela casta Margarida (Anabela), que mora numa pensão em que é rigorosamente proibida a entrada de homens, o que causa a insatisfação de suas colegas de quarto, visto que, para elas, “festa sem homem não é festa, é confraternização!”. Numa determinada manhã, Pedro é convocado por dois meninos para salvar uma banhista afogada, e logo se descobrirá que trata-se de uma francesa que tentara suicidar-se, pois veio para o Brasil em busca de seu marido, que fugira com outra mulher. “Uma mulata, ainda por cima!”, reclama ela. Obcecada pelo rapaz que salvara-lhe a vida e simultaneamente desiludida por continuar viva, esta francesa, de nome Monique (Elizabeth Gasper), instalar-se-á inautorizadamente no apartamento de Pedro. Novos quiproquós virão…

Para piorar a situação, quando Margarida faz aniversário, suas amigas resolvem celebrar festivamente a data, e convidam uma banda de rapazes afobados, liderada pelo arrogante Maurício (Augusto César Vanucci). Estes devem vestir-se como mulheres, a fim de poderem entrar na pensão e seduzirem as amigas de Margarida. O pai de Maurício, por sua vez, trabalha na mesma empresa que o pai de Gabriela, e ambos estão numa disputa acirrada sobre quem sucederá o chefe Guimarães (Walter Foster), quando este aposentar-se. Digladiam-se acerca dos méritos da Bossa Nova e do Iê-iê-iê num concurso de música promovido pela empresa de Guimarães. Necessário reiterar que ele é justamente o patrão de Paulo?

Como pretexto para as situações chanchadescas supramencionadas, os encontros entre estes personagens são permeados por situações em que as mulheres são comumente mostradas como objetos de conquista e os homens são definidos como “todos iguais”. Ainda assim, pertence a estes últimos o foco narrativo validado pelo roteiro, sendo os irmãos Paulo e Pedro concebidos como surpreendentemente monogâmicos, mas afligidos por mal-entendidos que põem em risco os seus respectivos relacionamentos. Não é mais ou menos o que continua a acontecer nos impressionantes sucessos comerciais produzidos recentemente pela Globo Filmes, no qual a hipocrisia erótica desencadeia uma defesa automatizada do aparelho ideológico de Estado representado pela família? Mais de meio século depois, o machismo permanece o chamariz dominante das comédias chulas e monetifágicas. Em termos produtivos, temos o direito de torcer por sua interdição? Fica a pergunta em aberto, mesmo após o derradeiro parágrafo desse texto.

Na última semana, o presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, proferiu uma coleção de despautérios muito maior que a sua indecorosidade habitual. Além de referir-se aos nordestinos de forma pejorativa e de afirmar zombeteiramente que a fome no país seria inexistente, ele está prestes a desmantelar o funcionamento da Ancine – Agência Nacional de Cinema –, principal financiadora dos filmes brasileiros atuais. Segundo ele, para que a mesma continue a funcionar, é imperativa a existência de filtros ideológicos e/ou moralistas, que dirimam o espectro de discordância quanto às suas estultices partidárias. Pela lógica, alguns dos filmes com humor assaz sexualizado deixarão de ser produzidos. E, assim, o que já era problemático torna-se abissalmente deletério: a ditadura da burrice ameaça enterrar o principal subgênero mantenedor da difusão publicitária do cinema brasileiro entre as camadas populacionais mais vastas. Explicar (e defender) o óbvio é o paradoxo mais emergencial dos trabalhadores e críticos culturais no Brasil de hoje. Até mesmo o que é considerado de baixo calão pede socorro – e a luta é uma mesma: resistamos!

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