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Mais ‘auto’ que ‘ficção’: “teus olhos é que mudaram; o filme continua o mesmo!”

Mais ‘auto’ que ‘ficção’: “teus olhos é que mudaram; o filme continua o mesmo!”

Quando começou a realizar longas-metragens, no final da década de 1970, Pedro Almodóvar logo estabeleceu-se como um dos principais nomes da ‘Movida’ madrilenha, movimento contracultural que celebrou de maneira extremamente sexualizada e humorística o fim da ditadura franquista e a reabertura democrática na Espanha. Sendo conhecido por sua envergadura ‘punk’, ele não hesitava em recorrer ao abuso de drogas, à escatologia e às perversões sexuais para erigir seu estilo deveras pessoal, que logo contribuiu para que ele fosse consagrado como um dos mais originais cineastas de todos os tempos. Aos 69 anos de idade, ele lançou “Dor e Glória” (2019), bastante elogiado no mais recente Festival Internacional de Cinema de Cannes. E, no filme, infelizmente, estão evidentes os seus sinais de cansaço. Em verdade, este é o mote do roteiro, explicitado desde o título.

Interpretado por um inspirado Antonio Banderas, em sua sétima colaboração com o diretor e merecedor dos prêmios que recebeu por esta atuação, o protagonista de “Dor e Glória”, Salvador Mallo, possui muitas similaridades com o próprio Pedro Almodóvar: é um diretor envelhecido, em crise com as lembranças infantis, familiares e de relacionamentos intensos, e atravessado por inúmeras dores, tanto físicas quanto espirituais. De enxaquecas e problemas de coluna até depressão e angústia, tais dores são reiteradas em inúmeros momentos do filme, eventualmente superando os momentos de glória, afinal obliterados por uma narrativa fortemente profilática, atravessada igualmente por ‘flashbacks’ e consultas médicas. Entretanto, há algo de extremamente redundante no modo como o diretor conduz o seu enredo enviesadamente autobiográfico: repete-se bastante em relação aos rasgos mnemônicos que já surgiram em filmes anteriores – com mais vigor em “Má Educação” (2004), com o qual este filme tem muito em comum – e porta-se de maneira excessivamente autoindulgente quando atreve-se a ser confessional. É um filme realmente cansado, insiste-se.

Como é praxe nas obras almodovarianas, breves lampejos de filmes alheios aparecem em momentos-chave, a fim de induzir metalingüisticamente a comunhão afetiva com determinados efeitos de identificação. Aqui, o protagonista reage a “Torrentes de Paixão” (1953, de Henry Hathaway) e “A Menina Santa” (2004, de Lucrecia Martel), no afã por sintetizar os seus jorros sentimentais projetados interseccionalmente. Porém, o soçobro da identificação em primeira pessoa, por parte do espectador, em relação à trajetória de vida de Salvador Mallo pode prejudicar a fruição do filme, visto que a sexualidade está sumamente contida e a drogadição aparece em sua faceta mais preocupante. No primeiro caso, lamenta-se a parcimônia exibitória dos lampejos libidinosos – felizmente culminando no paroxismo rememorado da nudez do pedreiro Eduardo (César Vicente), tão impactante que chega mesmo a causar um desmaio – e, no segundo, a tematização quase automática de uma imersão temporã do protagonista no consumo de heroína.

Se, por um lado, o elã homossexual do diretor surge abrandado pela idade avançada – ao menos, é justificado desta forma – por outro, o modo como Pedro Almodóvar refere-se aos efeitos lancinantes da infestação oitentista do ‘caballo’ (versão popularesca da heroína, tal qual o ‘crack’ em relação à cocaína) deslegitimaria a experimentação tardia de Salvador Mallo quanto aos “benefícios” entorpecentes desta droga. A seqüência em que ele vai a um bairro pobre – porque povoado por imigrantes, em sua maioria negros – para comprar a substância ilegal possui um cariz socialmente julgamental invertido em relação à simpatia do diretor pelos marginais de outrora. Soou até negativamente eurocêntrica. Além disso, a interpretação de Asier Etxeandia como um ator-fetiche do diretor está um tanto caricata ou sem vigor, desperdiçando a pujança melodramática de um belo monólogo teatral, oportunamente compensado pelo surgimento do ótimo ator argentino Leonardo Sbaraglia, que protagoniza uma ressignificação amorosa realmente comovente – ainda que aparentemente inaplicável no contexto atual do cineasta.

Por mais que responda a uma amiga (numa breve participação de Cecilia Roth) que, daquele momento em diante, dedicar-se-á a viver – e não apenas a trabalhar – Salvador Mallo detém-se num cotidiano modorrento e marcado por inúmeras prescrições farmacológicas, oferecendo ao público uma visão quase desglamourizada da vida pessoal de Pedro Almodóvar, que emprestou suas próprias roupas e a casa ao protagonista. Entretanto, é evidente que os elementos autobiográficos são apenas tangenciais, mesmo que facilmente reconhecíveis e assumidos em momentos-chave como os diálogos com a mãe idosa (Julieta Serrano, soberba) e o desfecho que escancara a feitura do filme dentro do filme, para o qual a contribuição de Penélope Cruz (outra colaborada habitual do cineasta) foi fundamental. Ainda assim, o filme permanece tímido e fatigado, a despeito dos arrebatadores elogios de crítica que ele vem recebendo. Parece muito mais um acerto de contas íntimo que uma história a ser compartilhada. E, provindo de quem veio, isso é quase frustrante…

Vale destacar que o advérbio anterior, não obstante acentuar que este mais recente filme está aquém dos grandes petardos almodovarianos, traz à tona alguns questionamentos sobre a adequação do diretor à conjuntura politicamente correta atual ou, pior, sobre o aburguesamento de seu estilo. Se, anteriormente, o diretor incitava alguns incômodos discursivos por causa de sua crença inveterada no “amor permissivo”, a ponto de incorrer em situações reiteradas de estupro em seus filmes, em “Dor e Glória”, a pudicícia é instaurada em sua faceta hospitalar e a nostalgia surge como ensimesmamento protetoral – mas também tendente à letargia. Algo no desfecho deixa evidente que o cineasta está tentando reagir a isto. Mas, admitamos, lidar com o acúmulo de dores não é fácil. Revitalizar-se em meio à glória, então, é uma tarefa hercúlea!

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