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A recuperação da harmonia (muito além do resultado de uma competição…)

A recuperação da harmonia (muito além do resultado de uma competição…)

O mês de maio costuma ser bastante aguardado pelos cinéfilos, em razão de ser o momento em que ocorre o Festival Internacional de Cinema de Cannes. Apesar de estar cada vez mais inundado de superproduções hollywoodianas – o que dirime a etiqueta “de arte” concedida anteriormente ao cabedal de filmes exibido – é nesta safra que conhecemos alguns dos filmes que estarão onipresentes nas listas das principais publicações especializadas em Cinema do ano. Entretanto, quando se pensa na premiação propriamente dita, constatamos que há um evidente descompasso entre a qualidade intrínseca dos filmes preferidos e as intenções panfletárias daqueles que são laureados. Mas também há casos em que, felizmente, ambos os casos se harmonizam.

Nesta segunda década do século XXI, percebe-se uma alteração significativa no critério adotado para se conceder a Palma de Ouro: aparentemente, os vieses discursivos, propositivos ou simplesmente polêmicos dos filmes são priorizados, a despeito de suas recepções críticas inicialmente frias e/ou discordantes. É o que explica a concessão do prêmio principal a obras como “Azul é a Cor Mais Quente” (2013, Abdellatif Kechiche), “Sono de Inverno” (2014, Nuri Bilge Ceylan) e “Eu, Daniel Blake” (2016, Ken Loach), filmes comprometidos com questões sociais, ainda que formalmente tradicionais ou associados a convenções narrativas dominantes. No caso de “Dheepan: o Refúgio” (2015, Jacques Audiard) e “The Square – A Arte da Discórdia” (2017, Ruben Östlund), a recepção foi mais delicada, em razão de ambos os filmes possuírem aspectos que refutam a fetichização estilística ansiada no festival. A decepção foi reinante, inclusive.

No ano de 2018, o grande vencedor foi “Assunto de Família” (2018, Hirokazu Kore-Eda), e suspeitou-se que fosse um prêmio pelo conjunto da obra, já que este cineasta japonês é assíduo no festival, ou motivado por questões sociológicas, já que o enredo oferece um inaudito panorama do lúmpen-proletariado nipônico, com ênfase nas intersecções pueris, marca registrada do diretor. Para a nossa surpresa, entretanto, este filme configura-se numa quase obra-prima, que combina de maneira brilhante ternura e reivindicação social, numa demonstração impressionante do amadurecimento deste prolífico e versátil cineasta.

A trama de “Assunto de Família”, difundido como “Shoplifters” – em tradução livre, “ladrões de lojas” – no mercado internacional, é focada num grupo de marginais que, a seu modo, fundamentam um arremedo terno de família, num contexto ideal em que se pode escolher os parentes desejados. O patriarca é Osamu Shibata (Lily Franky), um homem de meia-idade que pensa que a única coisa que pode ensinar, de fato, a alguém é a furtar. Ele é casado – ou vive como se fosse – com Nobuyo (Sakura Andô), que trabalha numa lanchonete e também comete seus furtos para sobreviver. Ambos vivem na mesma residência que Hatsue (a saudosa Kirin Kiki), chamada por todos de “vovó”, e dois garotos: a adolescente Aki (Mayu Matsuoka), que finge ir para a escola mas despe-se para desconhecidos em frente a um espelho; e Shota (Jyo Kairi), um menino que questiona o tempo inteiro como foi acolhido por esta “família”. Numa determinada noite, eles encontram a pequena Juri (Miyu Sasaki), bastante maltratada e abandonada. Logo a ensinam a praticar os furtos necessários à sobrevivência deste clã improvisado, mas, pouco a pouco, vamos entendendo a fragilidade societal destes laços, por mais afetivamente comungados que se demonstrem…

Repleto de momentos antológicos em sua exposição enternecedora de uma inaudita situação de miserabilidade japonesa, “Assunto de Família” demonstra-se bastante merecedor do prêmio máximo do Festival por mesclar inteligentemente a perspectiva de condução autoral, com o auxílio de seus apanágios técnicos, e o clamor por transformação comunitária que unifica os laureados mais recentes. Atravessado por um inequívoco humanismo, o roteiro de Hirokazu Kore-Eda é audacioso ao fazer-nos simpatizar amplamente com uma família inventada a partir de vínculos amorais. No quartel final do filme, há uma problematização esperada de tais vínculos, mas o enredo dribla com eficiência as armadilhas xaroposas em que poderia cair: uma obra realmente adulta, inclusive em relação aos parâmetros anteriores do autor, obcecado pelas situações envolvendo crianças à espera de carinho paternal. Belíssimo filme!

Neste ano de 2019, até o momento, os possíveis favoritos para receber a Palma de Ouro são: a nova obra autobiográfica de Pedro Almodóvar, “Dor e Glória”; o romance lésbico “Retrato de uma Dama em Chamas”, da francesa Céline Sciamma; e a mixórdia de gêneros co-dirigida pelos brasileiros Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles, “Bacurau”. Todos os três foram bastante aclamados pelos críticos em suas sessões de estréia, mas vários outros títulos estão em disputa, incluindo-se os mais recentes trabalhos de diretores consagrados como Quentin Tarantino (“Era uma Vez em Hollywood”), Terrence Malick (“A Hidden Life”), Bong Joon-Ho (“Parasite”) e Jim Jarmusch (“The Dead Don’t Die”), além de trabalhos de cineastas mais de uma vez premiados no Festival como Xavier Dolan (“Matthias & Maxime”), Ken Loach (“Sorry We Missed You”) e os irmãos Luc & Jean-Pierre Dardenne (“O Jovem Ahmed”). As resenhas entusiásticas acumulam-se!

Até a divulgação dos resultados, no sábado, dia 25 de maio de 2019, muita coisa pode acontecer, sobretudo em relação à célebre fórmula benjaminiana: “[A humanidade] tornou-se suficientemente estranha a si mesma, a fim de conseguir viver a sua própria destruição, como um gozo estético de primeira ordem. Essa é a estetização da política, tal como a pratica o fascismo. A resposta do comunismo é politizar a arte”. Nos tempos de ascensão generalizada da extrema-direita ao redor do mundo, tudo indica que este tipo de credo continuará a influenciar as decisões do júri oficial, este ano liderado pelo mexicano Alejandro González Iñárritu. Mais que aguardemos: torçamos por isso!

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