Volta às aulas presenciais: possibilidade ou sonho?

Volta às aulas presenciais: possibilidade ou sonho?

A COVID-19 pegou o mundo de surpresa, interrompeu sonhos, trouxe medo e uma expressão que até então ninguém falava com tanta frequência: distanciamento social.

Tal expressão explodiu no interior das escolas e universidades espalhadas pelo mundo e todos os alunos e alunas tiveram suas aulas presenciais suspensas e foram para as suas casas, se distanciaram uns dos outros para protegerem uns aos outros.

Mas o desenvolvimento cognitivo dos estudantes não podia parar e em um ato de coragem e responsabilidade social, governos do mundo todo e diversas instituições de ensino espalhadas pelos mais diversos cantos do planeta iniciaram um programa audacioso de aulas remotas. Professores, gestores escolares, pais e alunos se reinventaram e enfrentaram um grande desafio, o de dar continuidade ao processo de aprendizagem, mas de forma remota, com uso das mais diversas plataformas tecnológicas.

Teve início também uma busca incessante pelos alunos ausentes das plataformas utilizadas, proporcionando meios para que todos democraticamente tivessem acesso ao conhecimento, afinal, é sabido que a interrupção do processo de aprendizagem pode causar robustos prejuízos cognitivos.

O cérebro em perigo

Os estudos desenvolvidos tanto na área da Educação como na área da Neurociência nos mostram que a descontinuidade dos estímulos cognitivos em um cérebro em desenvolvimento pode prejudicar a construção do conhecimento, impedindo que memórias de longa duração sejam formadas.

O cérebro humano responde positivamente ao processo formal de aprendizagem se estimulado de forma contínua, ampla e desafiadora. Qualquer interrupção no processo de conexão neural resulta em conexões frágeis e passíveis de serem descartadas pela ausência de continuidade dos estímulos. No caso de processos cognitivos descontínuos, a consolidação da memória a respeito do que foi ensinado fica prejudicada.

O ato de aprender para o cérebro humano é um movimento em espiral, “[…] refere-se a uma mudança no comportamento que resulta da aquisição de conhecimento acerca do mundo, e a memória é o processo pelo qual esse conhecimento é codificado, armazenado e posteriormente evocado” (KANDEL, 2018, p.1256).

Quando o sujeito recebe uma informação nova, ela é comparada aos padrões encefálicos já existentes e se tiver significado, formará nova conexão neural, novas possibilidades de combinações desses padrões. É então armazenada na memória e se estimulada de forma contínua, poderá ser acessada quando necessário. Ao acessar essas memórias e combinar novamente, ampliamos o entendimento, ampliamos a aprendizagem de um padrão já existente.

Cada pessoa tem o seu cérebro: o meu é diferente do seu, o de uma pianista é diferente do de uma jogadora de futebol. Além disso, o cérebro muda constantemente desde que nascemos. Quer dizer: o acervo de circuitos e redes de nosso cérebro é vastamente mutável. (LENT, 2019, p.85)

É importante ressaltar que tais circuitos só se tornam robustos se estimulados de forma adequada e constante.

Ensino presencial ou remoto?

Nesse momento do texto você leitor e você leitora deve estar se perguntando se esse desenvolvimento cognitivo pode ocorrer mesmo em processos de ensino remoto ou se são necessárias aulas presenciais. Então vou escrever um pouco sobre essa tão delicada questão.

Nós somos seres sociais, precisamos do contato humano para sobreviver. Alguns estímulos cognitivos importantes ao desenvolvimento humano ocorrem de forma presencial e ficam prejudicados em contatos remotos. Mas isso não significa que o desenvolvimento dessas funções nessa nova modalidade de ensino seja algo impossível.

O estudo remoto exige um grau elevado de maturidade cerebral do estudante. Funções encefálicas como memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, planejamento, resolução de problemas e raciocínio, são essenciais para o desenvolvimento cognitivo e muito importantes para o aproveitamento adequado do ensino remoto. Tais funções, se estimuladas de forma acertada, se desenvolvem ao longo da vida, mas seu pico de desenvolvimento em média, acontece no período da Educação Básica.

Ocorre que em tempos de Educação presencial, esses estímulos são desenvolvidos intencionalmente no interior das instituições de ensino, de forma pontual, atenta e profissional. Já na Educação remota, os adultos mais próximos do estudante ganham essa atribuição, porém, não de forma profissional. Os professores passam a ter apenas um contato distante com o estudante, mediado pela tecnologia da informação. Além das aulas remotas, onde o aluno mantém contato com os professores em tempos diferentes dos praticados na Educação presencial, o estudante precisa contar com a ajuda de alguém para organizar sua nova rotina de estudo e isso envolve espaço físico adequado, acesso remoto, tempo, foco e planejamento.

Com os devidos cuidados e com a ajuda da família, é possível manter uma rotina saudável de estudos, que não ocorrerá de forma integral como no ensino presencial, mas garantirá a continuidade da aprendizagem, mantendo o cérebro do estudante ativo e permitindo o movimento cognitivo em espiral crescente. O importante é não parar.

É preciso paciência e prudência

Tudo é muito novo quando se fala da pandemia provocada pela COVID-19 e por isso a volta às aulas presenciais exige muito cuidado. Algumas pesquisas indicam que as crianças desenvolvem poucos sintomas, mas podem transmitir para os adultos. Além disso, o retorno aumenta a circulação de pessoas pelas cidades e isso pode representar um motor propulsor para a pandemia.

O apropriado é que a volta às aulas aconteça apenas quando a taxa de contágio estiver abaixo de um (1), o que indica uma redução no ritmo da pandemia.  Já o ideal, é retornar apenas após uma vacinação em massa da população.

Considerando nosso bem maior que é a saúde e entendendo que há possibilidade de continuidade de estudos na forma remota, o melhor dos mundos hoje, pensando no bem comum, é a manutenção das aulas remotas.

Pensar no retorno das aulas presenciais, exige ampliar o olhar para a sociedade como um todo e avaliar se tal ação tem poder de incidir na saúde humana tanto dentro como fora dos muros escolares.

 

Imagem gratuita (Alexandra_Koch) em Pixabay

 

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