O cérebro em mudança: a pandemia que ressignificou memórias

O cérebro em mudança: a pandemia que ressignificou memórias

Modificações no cérebro estão ocorrendo por conta da necessária e urgente adaptação do homem ao meio. Dentro desse processo, algumas descobertas podem surpreender.

Descobri que não preciso de tanta roupa no guarda-roupa para viver bem, que não há necessidade de estar sempre de salto alto e nem mesmo de maquiagem. Minhas unhas agora faço em casa, afinal, estou mais próxima dos afazeres culinários e isso pede menos esmalte, mais sorrisos e aconchegos. Aliás, minhas unhas agora ganharam mais brilho e leveza, meu cabelo voltou para sua cor original e nunca esteve tão solto e rebelde, como se agora pudesse ser realmente percebido e sentido em sua plenitude.

A comida é outra mudança importante, temperos naturais, verduras e legumes marcam encontro lá em casa, na companhia de proteínas e frutas, tudo feito pelas pessoas que agora vivem, estudam e trabalham juntas embaixo do mesmo teto, em uma logística louca e milimétrica, para poder dar conta do mundo de fora e de dentro da casa.

Descobri alguns cantos da casa e do quintal esquecidos, alguns móveis que precisavam de repaginação e vasos de flores que somente necessitavam de água. E não é que o quartinho do fundo deu um ótimo Home Office!

Penso que se tudo caminhar por mais tempo dessa forma realmente a economia do país terá uma reviravolta, pois as pessoas do mundo perceberão que não há necessidade de muito para viver bem e o consumismo que corroía a sociedade pode ser, no mínimo, revisto. Será? E o desemprego que virá com essa constatação, não corroerá a sociedade ou todos terão condições de se reinventarem?

Pensando ainda mais alto, talvez seja por tudo isso que alguns líderes mundiais insistem em voltar logo ao “normal”, pois temem que as pessoas acordem para a possibilidade de uma vivencia diferenciada e menos dependente economicamente.

A reação do cérebro diante da nova rotina

Somos seres sociais e nosso cérebro tem a capacidade plástica de se adaptar as mais diversas situações, através de um fenômeno chamado neuroplasticidade. Este conceito, também conhecido como plasticidade cerebral, teve origem a partir dos estudos desenvolvidos na Biologia molecular e na Neurociência e pode ser entendido como a possibilidade do sistema nervoso humano de alterar a sua função ou a sua estrutura em resposta às influências ambientais externas.

A expressão genética e a plasticidade cerebral podem ser facilitadas pelo processo humano diário de aprendizagem. Segundo o Prêmio Nobel de Medicina Eric R. Kandel, podem ocorrer mudanças no comportamento e desencadeamento de alterações na expressão genética que “alteram   as conexões   sinápticas, provocando   mudanças   estruturais, que mudam o padrão anatômico das interconexões entre as células do cérebro”. (KANDEL, 2006, p. 1.030-1.038)

Isto posto, é possível entender que diante da situação pandêmica vivida atualmente, mudanças no comportamento e o desencadeamento de alterações na expressão genética humana ocorreram e alteraram as conexões cerebrais humanas, provocando mudanças estruturais nas células cerebrais. O sistema nervoso humano é complexo e dinâmico, fruto da evolução natural da espécie humana que o fez aprender novos recursos, novas funções que permitiram melhor adaptação do homem ao meio, exatamente como ocorre agora.

Todos os que estão vivendo este ano de 2020 e de alguma forma estão sendo influenciados pela nova rotina de distanciamento social, pelo uso de equipamentos de proteção individual, pelo teletrabalho, por diversas perdas, pelo medo ou que viveram o luto pela ausência de pessoas próximas, estão tendo marcadores importantes cravados na memória, que de alguma forma, influenciarão sua vivência humana na terra a partir de agora. Memórias individuais e coletivas se entrelaçarão e serão em breve registradas em livros de história, mas nós, vivemos essa história e essa experiência estará gravada em nossas células cerebrais para sempre.

Como será o mundo depois da pandemia?

Difícil responder com exatidão, mas possível de imaginar. As transformações serão inúmeras, algumas atividades remuneradas que eram realizadas presencialmente há séculos e agora se reinventaram de forma remota parecem que se adaptaram bem a distância. Um novo conceito anda rondando as rotinas de trabalho quando o assunto é volta ao novo normal, é o tal do “híbrido”.  Esse termo já era utilizado pela biologia, mitologia, informática e tecnologia e de forma geral, representa algo que pode funcionar de forma mista. No caso do trabalho remoto, há a possibilidade de torná-lo híbrido, uma porcentagem em casa e outra em local de trabalho coletivo.

Outra atividade que promete mudança é a alimentação. A lendária “marmita” foi redescoberta e teve sua eficácia comprovada, tirando nota máxima nos quesitos qualidade dos alimentos, higiene e cuidado. Os restaurantes e bares terão que exercitar a criatividade e precisarão adotar algumas novas normas de higiene que prometem ficar mesmo após o fim da pandemia, principalmente os que trabalhavam com o sistema self-service, que agora parece estar com os dias contados.

E a Educação? Os professores e Gestores escolares se desdobraram, se reinventaram e deram conta das aulas remotas. As famílias começaram a dedicar mais tempo e atenção aos estudos dos filhos e descobriram a importância da escola na rotina dos estudantes. Ufa! Mas é preciso ressaltar que a aula presencial ainda representa estímulo fundamental para o desenvolvimento cerebral de nossos jovens, podendo até ser alternada com a aula remota, mas nunca substituída.

A ciência passou a ser tema das conversas populares e exaltada como sempre deveria ter sido, afinal, se houvesse mais investimento em pesquisa cientifica talvez não estivéssemos nessa condição pandêmica. Quem sabe agora os governantes mundiais acordem e olhem com mais atenção para os resultados científicos publicados nas mais diversas áreas de estudo.

A área da saúde e seus profissionais agora são aplaudidos e referenciados como sempre deveriam ter sido ao longo da história, mas infelizmente a corrupção ainda está presente até em tempos de pandemia. Doença social que parece crônica e que precisa ser combatida com robustez por todos os humanos.

A corrupção que se aproveitou da pandemia

A corrupção parece não ter se abalado nesse período, despontou em várias áreas públicas dos mais variados cantos e como todos estavam mais focados na pandemia, parece ter encontrado um terreno aberto para correr no tempo e espaço sem fiscalização.

Ainda há uma cultura estabelecida de apropriação privada dos recursos públicos arraigada. A invisibilidade desta rede de corrupção se instala e se fortalece na atitude de consentimento dos envolvidos, mesmo não concordando inteiramente. Fazem-se de cegos, suspeitam ou até mesmo presenciam, mas com a cultura do abafa, deixam-se vencer. Quem vê não denuncia; quem ouve, faz-se de surdo; quem fala, desmente depois. O medo mescla-se à covardia e vence o mais forte.

Parece que algumas atitudes e vivencias não mudarão, mesmo após esse período inédito da história humana, permanecerão e caberá a nós a mudança necessária.

Diante dessa vivência que nos foi imposta, sem aviso e sem preparo prévio, nos cabe pensar em que mundo gostaríamos de viver pós-pandemia, quais as prioridades e que sociedade queremos, afinal, é sempre bom lembrar que não vivemos sozinhos, dependemos uns dos outros para sobreviver.

 

Imagem gratuita em Pixabay (Alexandra Koch)

 

 

 

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