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A estupidez

A estupidez

As ciências comportamentais são ricas em teorias que explicam os mistérios humanos, quer na esfera individual quer na social. Em psicologia, por exemplo, há perto de uma dezena de modelos de personalidade, outros tantos sobre a motivação, e o mesmo se aplica à inteligência.

Este extraordinário interesse em explicar três dos pilares do edifício humano – personalidade, motivação, e inteligência – contrasta aflitivamente com a tentativa de compreender a estupidez, de que se conhece uma única teoria. Esta raridade foi proposta por um historiador italiano, Carlo Cipolla, primeiro num ensaio satírico com circulação restrita, e depois publicado em livro, em 1988. Cipolla usou nada mais do que o bom senso e a ironia na sua elaboração, mas a originalidade da proposta merece um olhar atento aos seus elementos centrais, numa altura em que a estupidez no mundo parece propagar-se como um vírus.

Uma pessoa estúpida é alguém cujas decisões e ações revelam fraca esperteza num qualquer contexto social. Esta definição é curiosa, pois indica que estupidez não é o oposto de inteligência, e sugere também que ninguém está livre de tomar decisões ou agir de forma estúpida. Posto de outro modo, toda a gente exibe momentos de estupidez.

A democratização da estupidez não significa que não possam existir indivíduos consistentemente estúpidos. Tanto assim é, que Cipolla classifica as pessoas em quatro grupos, segundo os efeitos das ações para si e para os outros: os vigaristas, os inteligentes, os inúteis, e os estúpidos. Os primeiros geram vantagem para si, prejudicando os outros. Os segundos geram vantagem para si e para os demais. Os inúteis não criam ganhos para ninguém. Os estúpidos são o pior grupo, pois as suas decisões e/ou ações resultam em prejuízos para si e para os outros.

O desconcertante modelo de Cipolla é alicerçado em cinco leis. A primeira é enunciada assim: “sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de pessoas estúpidas em circulação”. Existem pessoas estúpidas, mas é grande a tendência para subestimar o número dessas pessoas e da influência que exercem sobre a sociedade. Talvez o melhor suporte empírico desta lei sejam as muitas decisões tomadas por políticos em vários países do mundo durante a pandemia, particularmente as relacionadas com o tratamento e a vacinação, e os consequentes impactos nefastos sobre as populações.

A Segunda Lei da Estupidez estabelece que “a probabilidade de uma pessoa ser estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa”. Sendo um atributo inerentemente humano, a estupidez não surge com mais frequência em certos grupos do que noutros. Pessoas com elevados níveis de educação ou de poder podem ser tão estúpidas como pessoas com baixa formação académica ou sem poder decisional significativo. Um estúpido pode ser encontrado em qualquer lado: num mosteiro, numa tribo de canibais, ou num jantar de milionários. Estes exemplos, providos pelo próprio Cipolla, ilustram uma inevitabilidade: ninguém escapa a lidar com gente estúpida.

A Terceira Lei da Estupidez é a mais importante para Cipolla: “uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou pessoas, sem, contudo, gerar benefício algum para si, ou mesmo sofrendo dano”. As decisões e ações da pessoa estúpida são difíceis de compreender e de prever do ponto de vista racional, o que faz de tal pessoa a mais perigosa para a sociedade. As decisões e ações dos vigaristas, dos inúteis e dos inteligentes, podem ser compreendidas e previstas. Por exemplo, no caso do vigarista, é sempre possível construírem-se defesas ou desenvolverem-se sistemas que sancionem tais ações. Mas tal é impossível no caso do indivíduo estúpido, dado não haver uma base racional subjacente ao que decide ou ao que faz.

Pela Quarta Lei da Estupidez fica estabelecido que “as pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder destrutivo dos indivíduos estúpidos. Esquecem constantemente que, independentemente do momento, local, ou circunstância, associar-se a alguém estúpido é um erro que custa caro”. O perigo associado aos atos das pessoas estúpidas é elevado, dado que as pessoas não estúpidas têm dificuldade em encontrar uma lógica nas decisões que não têm alguma lógica. Ao confiar nas pessoas estúpidas, as outras pessoas acabam por ficar vulneráveis e à mercê da imprevisibilidade dos primeiros.

Apesar de não referido por Cipolla, o autor parece ter intuído, nesta quarta lei, que a estupidez tem uma força contagiosa não menosprezável. O discurso e as ações do estúpido podem, de facto, conciliar ou manipular os pensamentos e sensos de outras pessoas, anulando a sua capacidade reflexiva e crítica, e assim despoletar uma espécie de epidemia da estupidez, ou cultura de estupidez. As regressões civilizacionais não são eventos raros, e nenhum país ou instituição parece estar imune a esta extensão da quarta lei às dimensões meso e macro da organização social. Num plano ainda mais holístico, a incapacidade de parar a ação humana destrutiva sobre o planeta pode ser visto como o reflexo de uma lógica estúpida coletiva, que em última análise conduzirá à hecatombe da espécie.

A Quinta Lei da Estupidez é o corolário das restantes: “as pessoas estúpidas são o tipo de pessoa mais perigoso que existe”. Os comportamentos de uma pessoa inteligente hostil, ou os de um vigarista, não obstante poderem trazer danos para os outros, não deixam, ainda assim, de ser previsíveis, e, por conseguinte, permitir aos outros preparar-se e proteger-se. Tal não sucede com os atos estúpidos, que são fortuitos, incertos, e aleatórios.

A teoria de Cipolla pode não seguir os trâmites habituais de desenvolvimento científico, mas não deixa de oferecer uma perspetiva cativante e singular sobre um tema pouco tratado e pouco compreendido. A estupidez não é o único fenómeno pouco explorado em ciência: em junho de 2019 o autor deste ensaio redigiu um texto sobre outro assunto também pouco conhecido: a maldade humana. Outros exemplos de raro tratamento pela ciência incluem a incompetência e o fracasso.

A pandemia provocada pelo covid-19 realçou os extremos na experiência humana. Nos planos político e empresarial, foram muitas as decisões incompreensíveis por parte de pessoas que gerem os destinos de milhares ou milhões. O interesse por compreender os atos de Trump, p.e., levou o Washington Post a publicar um artigo com o sugestivo título “America’s Golden Age of Stupidity”. Os artigos científicos publicados sobre a estupidez ainda são poucos, mas o leitor interessado poderá consultar a lista final de referências deste texto.

Um ditado anónimo diz que a diferença entre estupidez e genialidade, é que a genialidade tem limites. E, todavia, a ciência (e a economia, a política, a sociedade), dedicam mais atenção a compreender a inteligência do que a estupidez. Talvez seja altura da ciência (e da economia, da política, e da sociedade) aceitarem o fenómeno da estupidez, e passarem a dedicar-lhe a atenção que lhe é devida.

 

Referências:

Alvesson, M. & Spicer, A. (2012). A stupidity-based theory of organizations. Journal of Management Studies, 49(7), 1194-1220.

Bárcenas, D.R., Kuperman, J. & Kuperman, M.N. (2020). The destructive effect of human stupidity: a revision of Cipolla’s fundamental laws. The European Physical Journal B, 93, 1-6.

Cipolla, C.M. (1988). Allegro ma non troppo. Lisboa: Celta Editora.

Golob, S. (2019). A new theory of stupidity. International Journal of Philosophical Studies, 27(4), 562-580.

Marmion, J.-F. (Ed., 2019). The psychology of stupidity. Penguin Books.

Rothkopf, D. (Julho 25, 2017). America’s Golden Age of Stupidity. Washington Post.

Imagem de capa de: Gerd Altmann por Pixabay 

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