Desenvolvimento Sustentável – Planificação de conceitos

Desenvolvimento Sustentável – Planificação de conceitos

“E que vantagem julgava Platão nos dar, ao afirmar que o homem é um animal de duas pernas e sem penas? Como se a ideia que tenho dele naturalmente, e que não posso exprimir, não fosse mais clara e mais segura que aquela que ele me dá por sua explicação inútil e até mesmo ridícula, uma vez que um homem não perde a humanidade ao perder as duas pernas e um galo não a adquire ao perder suas penas.” Pascal, 2018.

No artigo anterior, abordou-se o caminho para compreensão de sustentabilidade e abrimos o caminho para construção de uma nova percepção de Desenvolvimento Sustentável.

Neste texto, consideraremos alguns axiomas, verdades inquestionáveis universalmente validas, que no uso consolidado do termo que o define, perdeu-se a reflexão de sua natureza e, portanto, com a repetição e o tempo, seu entendimento foi distorcido de sua real designação[1]. Mesmo em uma abordagem organizacional a respeito do Desenvolvimento Sustentável, a compreensão metafísica que compões seus termos é tão essencial quanto. Alguns termos de fato designam tão naturalmente o que significam que os explicar geraria mais confusão que compreensão.

Alguns termos apresentam sua existência tão completa e comum, que apenas seu nome (definição), em si carrega todo o conjunto das complexidades que possuí, a exemplo o “ar”. Outros termos impossíveis de oferecer conhecimento factual de como se processa, além da mera especulação aos olhos da ciência, são compreendidos pelo seu oposto, a exemplo “morte é a não vida”. Ainda certos termos são considerados com base em “há muita diferença entre não ser uma coisa e ser um nada”, de acordo com Pascal, e aqui onde a teologia se assenta em relação aos olhos da ciência física, a exemplo “Deus”.

Percebe-se até aqui, a possível origem da imensa dificuldade de certos embates nos diálogos exaustivos entre os cidadãos por todo o mundo. A grande dificuldade na formação para aquisição das exatas definições dos termos, muitas pessoas discutem posições baseadas no que imaginam ser, em exemplo se deduz o significado pela derivação de radicais. E é neste ponto que se entra com a advertência: os termos utilizados na proposta que se seguirá sobre Desenvolvimento Sustentável, são minunciosamente estudados e significam como são definidos e aceitos amplamente. Em determinado momento, será considerado a mudança como evolução do desenvolvimento humano de certos termos, em outros momentos, será abordado a sua natureza com mais reflexão baseado em sua atual prática, sugerindo um ajustamento para compreender a essência de sua existência.

Toda esta abordagem é para expor a necessidade de reflexão séria e crítica, mas com real percepção e compreensão da proposta que se apresenta. Não é em vão que a abordagem do sentido de “definição” foi tomada por quase todo discurso deste artigo. É percebido que termos mais controversos na política e economia, estão sendo utilizados largamente para definir naturezas opostas ou contrárias ao que denominam realmente. O mais citado nos vários meios e que tem causado incrível confusão, é o termo ‘Liberalismo e Socialismo’.

Por mais inacreditável que pareça, muitos defendem o liberalismo como exercício de mera liberdade e o socialismo como algo ligado ao social apenas. Quando confrontados sobre a compreensão da natureza e a prática de seu exercício, envergonhados, muitas vezes mantem-se em sua postura original só para não assumirem a limitação de seu conhecimento. Quando em confrontos de ideias cujas naturezas sejam complexas, é necessário estudo etimológico, semântico, político e econômico específico aos termos. Este trabalho que demanda “suor e lágrimas” é o único caminho para a verdadeira liberdade de expressão.

Assim como existe Marx que explica o socialismo, existem Adam Smith e Jonh Lock que explicam o liberalismo econômico e político nesta ordem. Mas não existem apenas os clássicos, atualmente existem apoiadores das duas vertentes, que tentam dentro de suas habilidades discursivas, criarem argumentos que evidenciem defesas de posições pessoais, com boa estruturação de ideias, mas nem sempre tão imparcial como deveria sê-lo na busca pela verdade. O Phd Bolivar Lamounier é autor do livro Liberais e Antiliberais – A luta Ideológica do nosso tempo, defende apaixonadamente o liberalismo, com oposição massiva ao socialismo de Marx. Lê-lo, é perceber a lógica que compõem o atual liberalismo desde sua origem em contraponto com socialismo.

Independente da corrente política e econômica que adota, é necessário ter conhecimento dos clássicos e dos atuais pesquisadores para se formar uma posição individual. Assim se adquire o exercício sadio da liberdade de expressão, posições largamente aparadas em pesquisas individuais sérias, a favor e contra a sua tendência inicial. Isto não é ler em profundidade e dominar uma só vertente que se identifica ou apoiar-se em um só autor que coaduna com seus conceitos. Formar uma opinião é ler o contrário, buscar a natureza do oposto, no oposto, e não nos argumentos divergentes das próprias tendências.

Estamos mudando a forma de nos relacionar, e precisamos estar certos do que pensamos e anunciamos ao mundo (web). As pessoas leem, mesmo que não aperte o desenho do dedinho com polegar para cima, dizendo que “gostei”, alguém sempre lerá o que o outro escreveu. As pessoas tem “amigos” que nunca viram nas mais diversas plataformas de interação social, e muito já se criticou desta nova forma de interação. Mas esta é a forma atual e que possivelmente será mantida por todo o planeta por muito tempo.

Contudo, esta forma de relacionar-se também irá mudar com o tempo, como já está acontecendo, por meio do ato de selecionar pessoas que segue e dos conteúdos que escolhem para ler. Neste sentido, voltamos à responsabilidade das posições declaradas e enfrentamentos. Não há nenhum problema em mudar posições, isto caracterizará amadurecimento intelectual, mas para que haja verdadeiro Desenvolvimento Sustentável, é necessário a busca contínua pela verdade e uma mente inquietantemente cheia de perguntas.

Abordamos então a responsabilidade pelo que se diz, o que é liberdade de expressão, a relevância de se conhecer os termos e sua essência, a possibilidade de praticar empatia nos confrontamentos de ideias divergentes. “Ver globalmente e agir localmente”. Não é necessário mais um único idioma para se corresponder com o mundo, mas é imprescindível que todos tenha acesso e participação ao conhecimento científico. A atual língua usada no planeta, chama-se conhecimento!

[1] Segundo Pascal, “as definições são feitas unicamente para designar as coisas que são denominadas e não para mostrar a natureza delas.”

 

Bibliografia

PASCAL, Blaser. Do Espírito Geométrico – Pensamentos. Lafonte. São Paulo.2018.

LAMOUNIER, Bolívar. Liberais e Antiliberais – A luta ideológica do nosso tempo. São Paulo. Companhia das Letras. 2016.

DOWNES, Jordan; GOODMAM, Jordam E. Dicionário de Termos de Investimentos e Financeiros. São Paulo. NOBEL. 1993.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrik. Manifesto Comunista, comentado por Chico Alencar. Rio de Janeiro. Garamond. 1998.

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