Desenvolvimento Sustentável: construindo a definição – Parte II

Desenvolvimento Sustentável: construindo a definição – Parte II

No artigo anterior iniciamos o desafio de construir uma definição para o termo Desenvolvimento Sustentável. Abordou-se quais são os significados oferecidos por algumas organizações mundiais, dada relevância de seus trabalhos para crescimento e desenvolvimento humanos. Contudo, mesmo frente a tantos esforços este termo não possuí uma definição comum e única que represente de maneira eficaz todos os seguimentos e interesses. De fato, como definir para o social, para o econômico e para o ambiental algo que supra de igual forma seus anseios e expectativas? Clóvis Borges, Diretor Executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, reconhece que “O conceito deste novo modelo de desenvolvimento representa um extraordinário desafio à sociedade, mas ainda sofre com a inconsistência e a superficialidade ao tentar demonstra-lo.” – (BORGES, 2007).

Ao oferecer um novo modelo para o Desenvolvimento Sustentável no qual a cultura é inserida, compreender sua extensão e participação, precisa ser delineados. Isto será feito a seu tempo com as devidas abordagens para justificativa de sua inserção. Mas precisamos perceber minimamente por enquanto, para construção de uma definição, a noção e abrangência da Dimensão Cultural na composição do Desenvolvimento Sustentável e para medidas gerenciais de ações positivadas. Para a proposta desta abordagem, a Dimensão Cultural se define como área de conhecimento humano, contendo em si todo o arcabouço de conhecimento e saberes da humanidade.

Oportunamente, é neste momento que começamos a definir um significado para Desenvolvimento Sustentável, ao expor o que ele não é. Desenvolvimento Sustentável não é departamentizar áreas e responsáveis. A proposta para a Administração não é oferecer um modelo de restruturação orgânica onde cada grupo se isole em sua atuação de competências. É uma proposta estratégica de mudança da administração nas organizações, em que todos os processos (criação, inovação ou manutenção) e em toda estrutura (estratégico, tático e operacional) devam ser executar o trabalho com esta visão multidimensional. Para os Ceo’s no mundo isto é uma afirmativa rasa que pouco acrescenta, haja vistas a peculiaridade de seu olhar sobre os processos e tomadas de decisões. Conhecem com profundidade a necessidade de desviar o olhar do objeto para se ver, e ver o todo ao longe, em visão externa e assim, ser capaz de tomadas de decisão quanto ao futuro, por mais que pareça incerto. Contudo, todos os indivíduos que participam direta ou indiretamente precisam deter conhecimento deste tipo de gestão, para além de suas atividades de trabalho, mas também como seres sociais que consomem e não apenas produzem os recursos extraídos do meio ambiente, e que a transformação tecnológica altera significativamente o modo de correspondência social. Estamos em um momento de desenvolvimento tecnológico e cultural com tal importância, pelo fato de a cada momento mais e mais pessoas por todo o planeta se tornarem transformadores da realidade como resultado de sua educação acadêmica (muito longe do ideal), que a percepção desta visão ampla deve agora ser comum não apenas as organizações, mas a toda sociedade.

De acordo com Idalberto Chiavenato em Teoria Geral da Administração (2015), a Administração passou por várias abordagens ao longo da história. Aponta que atualmente passa “por grande turbulência na Era da Informação”, e que de 1990 para a atualidade e o futuro, a influência da Tecnologia da Informação é impactante e ré-estruturante. Na Dimensão Econômica aprofundaremos a composição e mudança nas atuais organizações dentro desta perspectiva. Estudos, seminários, debates são constantes sobre Desenvolvimento Sustentável, e fica evidenciado a necessidade de uma abordagem ampla, que englobe uma real mudança no comportamento mundial. (Desenvolvimento Produtivo, 2012).

Para I. Chiavenato (2015) a promoção e desenvolvimento sustentável das organizações é de visão a uma cultura interna, com ajustes de seus procedimentos e processos para atender a sustentabilidade, em mudanças e adequações a cada entidade empresária pública ou privada. Chiavenato demonstra em seus estudos a preocupação de vencer o desafio de gestar com as atuais modificações, procedimentos que garantam a manutenção do lucro em um contexto mundial que se transforma. Quanto a isto, para o mercado de capital é de uma lógica básica, haja vista que toda entidade empresária deve oferecer lucro (mesmo as públicas e o próprio Estado, a ser considerado mais adiante). O foco considerado em Chiavenato está no ajustamento das organizações quanto a seus processos desta nova realidade. Em contraposição especialistas que participaram da conferência internacional, A Nova Geração de Políticas de Desenvolvimento Produtivo Sustentabilidade Social e Ambiental, realizado pelo BID, BNDES SESI e CNI (2012),  concluem que as abordagens são mais amplas, ainda que de visão interna, em um contexto universal, mas sem se aproximarem verdadeiramente de práticas de gestão com propostas para construção de uma definição ao Desenvolvimento Sustentável. Para ambos, Chiavenato e Conferencistas, a Cultura não é considerada uma dimensão que compõe o desenvolvimento sustentável, ou quando existe como área, não é vista como campo de interesse tal qual as áreas social, ambiental e econômica.

Neste texto, o objetivo é perceber as razões que eleva a Cultura a uma dimensão como unidade indispensável para composição para o Desenvolvimento Sustentável. O próximo artigo fechará com a proposta da definição para o termo. Mas qual a razão da Dimensão Cultural existir como parte do Desenvolvimento Sustentável? Inicialmente, apresentamos a exímia análise feita pelo Prof. Alfredo Bosi do termo cultura, que por meio de sua exposição traduz todo o arcabouço que justifique sua necessidade como dimensão. O Prof. Alfredo Bosi é crítico e historiador da literatura brasileira, ocupa a cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras. Ele é tão preciso em sua abordagem que não nos cabe acrescentar ou interpretar. O seu artigo, A Origem da Palavra Cultura (2008) traduz esta dimensão:

“Uma definição da cultura hoje em dia se tornou particularmente difícil, porque a cultura pode ser estudada de vários pontos de vista e precisaríamos escolher uma perspectiva para poder defini-la.

Como professor de língua portuguesa e pessoa que sempre se dedicou ao estudo do que se chama de Humanidades, eu gostaria de remontar ao primeiro significado da palavra cultura na tradição romana. A palavra cultura é latina e sua origem é o verbo colo. Colo significava, na língua romana mais antiga, “eu cultivo”; particularmente, “eu cultivo solo” (…).

Era um modo verbal que tinha sempre alguma relação com o futuro; tanto que a própria palavra tem essa terminação –ura, que é uma desinência de futuro, daquilo que vai acontecer, da aventura. As palavras terminadas em –uro e –ura são formas verbais que indicam projeto, indicam algo que vai acontecer. Então a cultura seria, basicamente, o campo que ia ser arado, na perspectiva de quem vai trabalhar a terra.

Esse significado material da palavra, relacionado com a sociedade agrária, durou séculos; até que os romanos conquistaram a Grécia e foram em parte helenizados. Nós sabemos a extrema importância da cultura grega, da arte e da filosofia grega para o desenvolvimento da cultura romana. E os gregos tinham já uma palavra para o desenvolvimento humano, que era paideia.

Paideia significava o conjunto de conhecimentos que se devia transmitir às crianças – paidós (criança é paidós) – daí Pedagogia, que é a maneira de levar a criança ao conhecimento. Dessa raiz é que se criou paideia, que por volta do primeiro século antes de Cristo, o momento forte da helenização de Roma, passou para o Império Romano e carecia de uma tradução em latim. Os romanos sabiam o que era paidéia, pois os seus pedagogos eram escravos gregos que iam para a Itália; alguns contratados e outros como escravos deveriam trabalhar para os seus donos e tinham a função de ensinar grego e retórica para os meninos das famílias patrícias.

Nessa altura, a Grécia também exercia a função de “emprestar” palavras; começava-se a usar palavras gregas freqüentemente entre os romanos. Só que, por outro lado, o nacionalismo romano também exigia que se traduzissem os termos gregos. E qual era o paralelo que eles podiam fazer? Os romanos não tinham nenhum termo que significasse “conjunto de conhecimentos que deveriam ser transmitidos à criança”.

Mas, conhecendo a palavra paideia e não querendo usá-la porque era uma palavra estrangeira, passaram a traduzi-la por cultura. A palavra cultura passou do significado puramente material que tinha em relação à vida agrária para um significado intelectual, moral, que significa conjunto de idéias e valores.

E é tardio isso, só a partir do primeiro século é que se encontram exemplos da palavra nessa acepção; se a gente for aos dicionários de latim compilados depois da época imperial, encontramos cultura sempre definida em primeiro lugar como o amanho do solo, o trabalho sobre o solo, ligado sempre ao verbo colo e seus derivados, por exemplo: in-cola – aquele que mora num certo lugar; inquilino – aquele que mora num lugar que não é seu; colônia – lugar para onde se deslocam trabalhadores que vão arar em outras terras. Culto vem do particípio passado de colo (colo é o verbo, que tem um particípio passado: cultus), é aquilo que já foi trabalhado. Depois, passou a ter um significado espiritual-religioso. Aliás, entre parênteses, nós não sabemos se o significado religioso foi anterior ou posterior ao significado material. Agora, cultura certamente sabemos que passou de um significado material para um significado ideal e intelectual.

Essas observações que estou fazendo, etimológicas, poderão nos servir como um fio em nosso discurso, porque ambos os significados sobreviveram nas línguas modernas. Podemos falar na cultura do arroz, na cultura da soja, na cultura do trigo, entendemos muito bem que é uma terra cultivada; falamos em cultivo (palavra também derivada de colo) e mais ainda, com freqüência, usamos a palavra cultura na acepção ideal, que é muito rica, porque traz dentro de si, na forma verbal terminada em -ura, a idéia de futuro, de projeto.

Se tivéssemos que definir a palavra a partir dessas considerações, teríamos uma riqueza de possibilidades, porque a cultura, pensada como um conjunto de idéias, valores e conhecimentos, traz dentro de si, em primeiro lugar, a dimensão do passado. Muitos conhecimentos foram herdados de outras gerações, não estamos começando do zero, muito pelo contrário, cada ano que passa acumula mais conhecimento. Cada vez mais a dimensão cumulativa, a dimensão de passado, se impõe (…).

Sem dúvida nenhuma, a primeira idéia que temos quando falamos em cultura é a de transmissão de conhecimentos e valores de uma geração para outra, de uma instituição para outra, de um país para outro; subsiste sempre a idéia de algo que já foi estabelecido em um passado – que pode ser um passado próximo ou um passado remoto. Evidentemente, nossa cultura tecnológica tem proximidade com a Revolução Industrial e com tudo o que veio depois, ao passo que a cultura humanística deve remontar aos gregos e aos romanos, há 2.000 ou 3.000 anos atrás. Não importa: seja um passado recente, séculos XIX e XX, seja um passado remoto (antes de Cristo, ou épocas arcaicas), sempre a palavra cultura carrega dentro de si a idéia de transmissão de idéias e valores.

(…)

No mundo contemporâneo, ao contrário, cada vez menos nos atemos à fixidez das fórmulas e cada vez mais (como a cultura é um complexo de conhecimentos científicos, técnicos etc., e não só históricos) nos preocupamos em criar projetos de cultura; e cada vez mais, além desta criação, os nossos ideais democráticos exigem uma socialização do conhecimento. Não só cavar na matéria em si da cultura, mas também estendê-la na linha da comunicação, na linha da socialização; e fazer com que este bem seja repartido, distribuído, da maneira mais justa e mais ampla possível, o que é próprio da sociedade democrática.” – Alfredo Bosi (2008, grifo nosso).

Inserindo a Cultura no dentro da Administração, ao definir como um processo complexo o Desenvolvimento Sustentável, temos a seguinte organização: Meio Ambiente: fonte de recursos; Economia: a fonte transformadora destes recursos (organizações com suas múltiplas atividades de transformação); Social: os que utilizarão do resultado deste processo e deste participa; e Cultura: conhecimento e arcabouço gerados.

A Administração das organizações busca o crescimento dos negócios e administração de seus recursos na tecnologia como seu diferencial competitivo. Contudo, as abordagens por mais que sejam estabelecidas nos preceitos mais elevados de sustentabilidade, ainda são aplicadas como uma postura interna a gestão. São ações isoladas ‘ambientalmente consciente’, buscando cada uma, a seu modo, resolver ou atender a Sustentabilidade ou Desenvolvimento Sustentável. Tal fato, que é altamente benéfico, se tornou comum nos objetivos e metas das mais variadas corporações. Contudo sem uma gestão estratégica devidamente delineada que indique que toda a administração está de fato gerida com a mudança global, vem demonstrando a falta de sucesso quando aos objetivos para o Desenvolvimento Sustentável para todos que abordam e se preocupam com o tema.

A Dimensão Cultural, conforme se inter-relacionada com as outras dimensões, cria comunicações específicas na interlocução. Adverte-se neste momento que nada realmente novo está sendo criado com a inserção da Dimensão Cultural, ao contrário, atendendo ao atual sistema econômico de produção mundial que é o mercado de capital, oferece-se uma estruturação ao que existe. A Dimensão Cultural quando em interlocução com a Dimensão do Meio Ambiente, deve gerar ações positivadas de educação e normatização. Quando em interlocução com a Dimensão Econômica, deve gerar ações positivadas de Tecnologia, Empresariedade e Governança. Quando em interlocução com a Dimensão Social, teremos ações positivadas em políticas públicas e acesso a educação. E neste quadro de inter-relação se resume, em primeira vista, a necessidade de ser considerada uma dimensão para algo além de percepção de necessidade das Organizações Públicas ou Privadas. O ser humano necessita do Meio Ambiente para sobreviver, quer pelo uso de produtos manufaturados ou industrializados, mas principalmente pela sua própria sustentação a vida. Precisa de igual forma de sua organização social, dando sentido e definindo as relações comportamentais comuns. Necessita do sistema econômico para estabelecer suas infinitas trocas, que atualmente ampara a nossa sociedade que é comercial. Mas é com a Dimensão Cultural que ele tem o poder de gerir todas as outras. A seu tempo elencaremos as ações de inter-relação da Dimensão Cultural, bem como análise de seus efeitos como garantia de sucesso na execução dos projetos.

Para o momento, precisa-se ter bem claro em mente que a Dimensão Cultural não figura como simples manifestação artística de um tempo ou de um grupo de pessoas. Reúne em si, todo o conhecimento gerado pela humanidade no passado, presente e futuro, e como aludido pelo Prof. Idalberto Chiavenato no início, o maior desafio das atuais organizações está em saber gerir a Tecnologia da Informação, apenas uma área da Dimensão Cultural, tão importante como a Cultura Interna das Organizações definidas pelos seus objetivos e metas estabelecidos e publicamente comprometidos. Infelizmente com a atual pandemia, tanto organizações privadas como as governamentais, mostraram seu lado sóbrio quando da execução de seus compromissos. Isto se dá pelo fato de a Dimensão Cultural não existir e tão pouco ser uma dimensão que interfira na gestão estratégica, atuando apenas como boas práticas.

É fundamental e urgente que se mude isto. Vivemos em uma era que a maior força da humanidade será sua produção de conteúdos científica e artística, mas sem sombra de dúvidas, com conteúdos de cidadania para oportunizar a todas e todos, nos mais variados regimes de governo, o princípio básico da liberdade.

Siglas utilizadas:

CNI – Confederação Nacional da Indústria, BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, SESI – Serviço Social da Indústria.

Créditos de imagem: https://amenteemaravilhosa.com.br/cortex-pre-frontal/

BIBLIOGRAFIA

A Nova Geração de Políticas de Desenvolvimento Produtivo: Sustentabilidade Social e Ambiental/ Organizadores: LASTRES, Helena M. M.; PIETROELI, Carlo; CAPORALI, Renato; SOARES, Maria C. C.; MATOS, Marcelo G. P.; Brasília: CNI, 2012.

Introdução à teoria geral da administração; CHIAVENATO, Idalberto; 9 ed. Barueri, SP : Manole, 2014.

BORGES, Clóvis (citado); Almanaque Abril Socioambiental (2008); Instituto Sócio Ambiental; São Paulo, 2007.

BOSI. Alfredo. A Origem da palavra cultura. Consultado em 28 de dezembro, 22:38, em https://pandugiha.wordpress.com/2008/11/24/alfredo-bosi-a-origem-da-palavra-cultura/

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