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A Escola Não Mudará o Mundo: um manifesto pela recuperação do saber real

A Escola Não Mudará o Mundo: um manifesto pela recuperação do saber real

A introdução que se segue apresenta uma proposta distinta. Por ser a Educação um tema que permeia não apenas meu convívio profissional, mas minha própria essência humana, decidi iniciar estas linhas com um relato pessoal.

Olhando pelo retrovisor da memória, compreendo que a Educação foi, em última instância, o que salvou minha vida. Nascida na periferia de São Paulo[1], percebi precocemente que o destaque acadêmico era o passaporte necessário para sobreviver a um ambiente segregado das oportunidades, dos salários dignos e da tão almejada qualidade de vida. Como filha única de um casal de trabalhadores incansáveis, encontrei refúgio e companhia nos raros gibis que meu pai podia me oferecer — páginas que eu lia e relia com devoção enquanto aguardava o próximo mês trazer uma nova história.

Foto: Arquivo pessoal

Na escola, cada página lida e cada nota alta eram tijolos na construção da minha esperança de inclusão social. Essa trajetória de esforço estendeu-se pela juventude e vida adulta: conquistei bolsas de estudo, venci as etapas de um concurso público e jamais interrompi a busca pelo saber. Contudo, hoje meus objetivos amadureceram. Mais do que uma ferramenta de ascensão individual, percebo na Educação a potência de gerar transformações qualitativas no coletivo. Afinal, hoje atuo precisamente na engrenagem que mudou meu destino, com a convicção de que ela tem o poder de reescrever muitas outras histórias.

A nova era educacional

Atualmente como Neuroeducadora, com mais de três décadas de experiência na rede pública, doutora em Educação e autora de publicações que ecoam globalmente, uma pergunta me assola: terá a Educação brasileira perdido, de uma vez por todas, o seu rumo? É realmente imprescindível abarrotar as escolas com todas as tecnologias imagináveis, todas as demandas sociais e modismos passageiros, transformando-as em palcos para rodas de conversa sobre tudo, a todo tempo e com todos?

Pode parecer controverso, talvez até na contramão do que se espera, mas confesso: eu estou assustada!

Assustada por observar e por vezes, ter de responder de modo súbito, a cada nova demanda que surge no cenário escolar – como se, por um passe de mágica, a Educação fosse finalmente encontrar seu Norte e, então, ter o poder de mudar o mundo.

Lamento informar, mas ela não mudará o mundo. Não nasceu para isso e jamais o conseguirá. As pessoas educadas, se críticas, libertadoras e conhecedoras, talvez serão capazes de conter o caos humano que se alastra pelos mais diversos cantos do planeta.

Enquanto novas verbas públicas são anunciadas, notícias cruéis de corrupção rapidamente as seguem, permeando o universo educacional. A lógica do capital parece sempre se sobrepor à lógica do conhecimento. Interesses capitalistas pairam como sombras por trás de políticas de governo, que, muito aquém de verdadeiras políticas de Estado, se apresentam como soluções ilusórias para uma Educação rotulada como “inovadora”. Mas, inovadora no quê? Para quem? E para quê?

Todos os anos diversos índices educacionais indicam um declínio nas competências leitoras e escritoras dos alunos brasileiros. Em matemática não é diferente.

No Brasil, os resultados do SAEB[2] 2023 mostram que os níveis de aprendizagem, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática, ainda não retornaram aos patamares pré-pandemia (2019). Embora haja sinais de recuperação em 2023 em comparação com 2021, a queda observada em 2019-2023 indica que os desafios impostos pela Covid-19 ainda reverberam.

Em Matemática, o grande gargalo, a queda foi mais acentuada, especialmente no 9º ano do Ensino Fundamental e na 3ª série do Ensino Médio:

  • PISA[3] 2022: O Brasil ficou entre os países com os piores resultados em Matemática. Apenas 27% dos alunos brasileiros de 15 anos alcançaram o nível 2 de proficiência, que é considerado o patamar mínimo de aprendizado (a média da OCDE é de 69%). Apenas 1% dos estudantes brasileiros conseguiram os níveis mais altos (5 ou 6), contra 9% da média da OCDE;
  • Isso significa que a maioria dos estudantes brasileiros de 15 anos não consegue resolver problemas matemáticos básicos ou comparar distâncias simples. O Brasil ficou em 64º lugar em Matemática entre os 81 países e economias participantes do PISA 2022;
  • SAEB 2023: A porcentagem de alunos com aprendizagem adequada em Matemática é significativamente menor do que em Língua Portuguesa em todas as etapas da Educação Básica. No Ensino Médio, a situação é mais crítica, com um percentual muito baixo de alunos com desempenho adequado.

Em Leitura (Língua Portuguesa) não foi muito diferente:

  • PISA 2022: Em Leitura, o Brasil ficou em 53º lugar. Metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiu o nível básico em leitura, considerado o mínimo para exercer a plena cidadania;
  • SAEB 2023: Embora o desempenho em Língua Portuguesa seja melhor do que em Matemática, ainda há um grande desafio. No 5º ano do Ensino Fundamental, cerca de 55% dos estudantes da rede pública apresentaram nível adequado, mas esse percentual diminui nas etapas seguintes. No Ensino Médio, apenas cerca de 32% dos estudantes alcançaram aprendizagem adequada.
  • Uma pesquisa recente também apontou que 66% dos alunos brasileiros não leem textos com mais de dez páginas, o que relaciona os baixos índices de leitura com problemas no desempenho escolar geral.

Desigualdades Persistentes

Reprodução: Jornal Tribuna

Os dados do SAEB e do PISA continuam a evidenciar as profundas desigualdades educacionais no Brasil. A diferença de desempenho entre estudantes de redes públicas e privadas, e entre diferentes regiões e níveis socioeconômicos, ainda é muito marcante.

Em Matemática, por exemplo, o “bom nível de aprendizagem” é raro para alunos de baixo nível socioeconômico.

Em suma, os índices mais recentes indicam que a educação básica brasileira enfrenta um desafio de qualidade no aprendizado, especialmente em Matemática, onde os alunos estão significativamente aquém do esperado e das médias internacionais. Em Leitura, a situação é um pouco melhor, mas ainda distante do ideal, com muitos estudantes sem o nível básico de proficiência.

Um esboço, um desenho ou breve histórico?

A educação escolar, em sua forma organizada, não possui um único berço, mas floresceu e se transformou ao longo das civilizações. Desde as escolas da Grécia Antiga e Roma, passando pelos mosteiros e universidades medievais, até o impacto do Renascimento e Iluminismo que moldaram a ideia de um ensino público, a jornada educacional é milenar. No século XIX, a Revolução Industrial impulsionou a expansão dos sistemas públicos e a universalização do ensino.

No Brasil, essa história inicia com a catequização jesuítica no período colonial e sofre um grande revés com sua expulsão em 1759. O Império trouxe as primeiras instituições de ensino superior e discussões sobre o primário. A República consolidou a luta por uma escola pública, laica e gratuita, marcada pela criação do Ministério da Educação na Era Vargas e a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira (LDB)[4] pós-1961. Hoje, sob a égide da Constituição de 1988 e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)[5], o país busca universalizar e qualificar o ensino, evoluindo de um modelo elitista para um sistema que busca atender a todos.

No entanto, diante dos atuais desafios de aprendizagem em leitura e matemática, e da perplexidade sobre o real papel da escola em um cenário de demandas excessivas e corrupção, questionamos se essa evolução é suficiente para dar conta de sua complexa missão.

O olhar da Neurociência: luz sobre a aprendizagem real

Como Neuroeducadora, percebo que, em meio à corrida por inovações e modismos, muitas vezes nos esquecemos de um pilar fundamental: como o cérebro, de fato, aprende. As últimas pesquisas em neurociência não trazem “fórmulas mágicas”, mas revelam evidências cruciais sobre o funcionamento da memória, da atenção, das emoções e da neuroplasticidade – a incrível capacidade do cérebro de se modificar.

Esses avanços nos mostram que a aprendizagem eficaz está intrinsecamente ligada a ambientes que estimulam a curiosidade, promovem o engajamento ativo, consideram as emoções e respeitam os diferentes ritmos e estilos cognitivos. A neurociência nos alerta que a mera transmissão de conteúdo enciclopédico, descontextualizado e desconectado da realidade do aluno, é ineficaz. Ela sugere que, para superar os alarmantes índices de proficiência em leitura e matemática, precisamos de práticas pedagógicas que se alinhem à forma como o cérebro constrói o conhecimento, e não apenas às demandas externas do momento.

Portanto, a “inovação” que a educação realmente precisa pode estar menos nas ferramentas e mais na profunda compreensão dos processos neurológicos que regem o aprendizado, permitindo-nos focar no que realmente importa para o desenvolvimento cognitivo e emocional dos nossos alunos.

Educação brasileira: redescobrindo a essência em meio ao caos

Diante do complexo e por vezes contraditório panorama educacional brasileiro – que se estende das primeiras missões jesuíticas aos desafios contemporâneos de qualidade e equidade –, e considerando as inquietantes reflexões sobre o real propósito da escola em meio a um cenário de excesso de demandas, corrupção e índices de proficiência aquém do esperado, é imperativo que repensemos fundamentalmente o papel da Educação.

A neurociência nos oferece uma bússola crucial nesse redirecionamento. Ela não apenas ilumina como o cérebro, de fato, aprende, mas também nos alerta para os perigos de uma educação desconectada dos processos cognitivos e emocionais. Os desafios alarmantes em leitura e matemática não serão superados por modismos ou tecnologias descontextualizadas, mas sim pela compreensão e aplicação de práticas pedagógicas que respeitem a forma como a mente humana constrói o conhecimento.

Portanto, a verdadeira inovação na educação pode não residir em ferramentas tecnológicas ou em agendas sociais excessivamente amplas, mas sim no retorno à sua essência: garantir o domínio da leitura, da escrita e do raciocínio lógico-matemático, e fomentar a capacidade de pensar criticamente. É fundamental que as escolas se tornem ambientes onde a curiosidade e o engajamento sejam prioridades, onde as emoções sejam consideradas e onde o ritmo individual de aprendizagem seja respeitado. Somente assim poderemos formar cidadãos que não apenas reproduzam informações, mas que sejam capazes de questionar, criar e, de forma autônoma e informada, transformar sua própria realidade. É nesse reencontro com a ciência da aprendizagem que a educação deixará de ser uma promessa ilusória para se consolidar como uma base sólida para o desenvolvimento humano e social, permitindo que a lógica do conhecimento finalmente se sobreponha à lógica do capital.


[1] É a capital do estado de São Paulo, a mais populosa do Brasil e uma das maiores metrópoles do mundo, com mais de 11,4 milhões de habitantes. Centro financeiro e econômico do país, destaca-se pelo turismo de negócios, gastronomia, cultura e eventos globais, sendo também conhecida como “Terra da Garoa”.

[2] O SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) é um conjunto de avaliações externas realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para diagnosticar a qualidade da educação básica no Brasil.

[3] Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, um estudo da OCDE que avalia alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências.

[4] Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

[5] Estabelece conhecimentos, competências e habilidades que se espera que todos os estudantes desenvolvam ao longo da escolaridade básica.

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