RESUMO
“Vivemos rodeados de sinais, mas famintos de sentido.” — Zygmunt Bauman
Na era da Hiper conectividade, milhões de pessoas trocam mensagens diariamente, partilham fotos, emojis e opiniões nas redes sociais — e, ainda assim, relatam níveis recorde de solidão. Este artigo analisa como a conectividade digital, longe de resolver o isolamento humano, pode estar a intensificá-lo. A partir de uma análise crítica da literatura científica mais recente, discute-se o impacto das redes sociais, da automação das relações e do declínio dos laços comunitários na saúde mental e emocional das populações. Conclui-se que estamos a viver uma forma nova e paradoxal de solidão: partilhada, silenciosa, e muitas vezes invisível.
Palavras-chave
Solidão, redes sociais, Hiper conectividade, saúde mental, alienação digital, relações humanas, cultura digital, isolamento emocional, tecnologia e sociedade, bem-estar digital.
INTRODUÇÃO
“Nunca estivemos tão ligados, e nunca estivemos tão sós.” — Sherry Turkle (2025)
Vivemos numa época em que é possível enviar mensagens instantâneas para qualquer parte do mundo, fazer chamadas de vídeo com múltiplos participantes e interagir com centenas de perfis diariamente. Contudo, os indicadores de solidão estão a aumentar, especialmente entre os jovens adultos e os idosos (WHO, 2025; Oliveira & Martins, 2024).
Esta solidão não resulta da ausência de contacto, mas da qualidade superficial das interações mediadas por ecrãs. O presente artigo propõe-se refletir criticamente sobre o paradoxo da solidão digital, as suas causas, consequências e possíveis caminhos de superação, sustentando-se em evidência científica e análise sociológica.
REVISÃO DA LITERATURA
Sherry Turkle, pioneira na análise da relação entre tecnologia e identidade, descreve este fenómeno como “estar sozinhos juntos” — um estado em que as pessoas estão fisicamente presentes com os dispositivos, mas emocionalmente ausentes umas das outras (Turkle, 2025).
Estudos da Organização Mundial da Saúde (2025) revelam que a solidão crónica atinge 1 em cada 3 jovens adultos europeus, sendo considerada uma epidemia silenciosa. A Hiper exposição nas redes sociais não só cria comparações sociais tóxicas, como também substitui relações reais por laços efémeros e condicionados ao algoritmo (Pereira & Sousa, 2025).
Bauman (2024) descreve esta transição como o surgimento de uma “modernidade líquida das emoções”, onde os vínculos tornam-se frágeis, descartáveis e instrumentalizados pela lógica do consumo digital. Em vez de partilha autêntica, predomina o exibicionismo afetivo.
Turkle (2025) alerta ainda que a comunicação digital, ao eliminar os silêncios, pausas e expressões subtis da interação presencial, empobrece a empatia e a escuta ativa. Por outro lado, autores como Han (2024) defendem que a Hiper transparência da vida digital conduz a uma exaustão relacional, onde tudo deve ser mostrado, mas pouco é verdadeiramente vivido.
DISCUSSÃO
A solidão digital não é apenas uma consequência involuntária da tecnologia — ela é estruturalmente produzida por modelos de negócio que priorizam o envolvimento contínuo, a vigilância emocional e a criação de dependência algorítmica (Zuboff, 2024). Cada “gosto” ou notificação reforça um circuito dopaminérgico que substitui vínculos humanos por recompensas digitais.
Ao mesmo tempo, as redes sociais encorajam a curadoria de vidas perfeitas, que contrastam com as imperfeições da vida real, gerando sentimentos de inadequação e exclusão (Guedes & Lima, 2025). Não é raro que alguém com milhares de seguidores admita não ter com quem conversar intimamente.
A pandemia de COVID-19 acelerou este processo, tendo banalizado o teletrabalho, a telepresença e a vida “remota”. Embora estas soluções tenham sido essenciais, também contribuíram para dissolver os espaços informais de convívio, como os cafés, os transportes ou os corredores das escolas, onde a verdadeira socialização florescia (Silva & Torres, 2024).
Por outro lado, há movimentos de resistência que propõem “higiene digital”, desintoxicação tecnológica e revalorização do presencial como formas de recuperar o sentido do encontro humano.
CONCLUSÃO
“As máquinas não nos roubam apenas o trabalho — podem também roubar-nos a presença.” — Edgar Morin (2024)
A solidão digital é uma das marcas da nossa era. Ela manifesta-se no silêncio depois do selfie, na falta de escuta num grupo de mensagens, na ausência de calor humano numa chamada com câmara desligada. O desafio do nosso tempo não é apenas melhorar a conexão técnica, mas reconstruir a conexão humana.
As tecnologias digitais devem ser reencantadas pela empatia, reorientadas para o cuidado e reguladas com base no bem-estar social. O futuro não depende apenas da velocidade da ligação, mas da profundidade da relação.
Se quisermos verdadeiramente combater a solidão, será preciso humanizar o digital, educar para o encontro e criar espaços onde o silêncio não seja sinónimo de ausência — mas de presença real.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bauman, Z. (2024). Modernidade líquida das emoções (Edição revista). Zahar.
Guedes, R., & Lima, A. (2025). Comparações sociais no Instagram e ansiedade relacional em adolescentes. Revista Psicologia e Sociedade, 29(1), 31–48.
Han, B.-C. (2024). No enxame: Perspectivas do digital. Lisboa: Relógio D’Água.
Morin, E. (2024). A cabeça bem-feita: Repensar a reforma, reformar o pensamento. Publicações Europa-América.
Oliveira, C., & Martins, J. (2024). Desconectados na conexão: A solidão em tempos de redes sociais. Cadernos de Estudos Sociais, 18(2), 77–94.
Pereira, M., & Sousa, D. (2025). A solidão como sintoma social: Um estudo qualitativo em jovens universitários. Revista de Saúde Mental e Sociedade, 10(1), 55–70.
Silva, T., & Torres, A. (2024). A pandemia e os novos padrões de sociabilidade: Entre o digital e o isolamento. Revista Comunicação & Cultura, 32(2), 99–115.
Turkle, S. (2025). Sozinhos juntos: Por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros (Edição ampliada). Harper Collins.
WHO – World Health Organization. (2025). Loneliness and Health: A Global Challenge for Mental Wellbeing. Geneva: WHO.
Zuboff, S. (2024). A era do capitalismo de vigilância. Companhia das Letras.



