COISAS COM AS QUAIS CONCORDARÁ CERTAMENTE:
A- Tão bom se nossos sonhos fossem todos verdade. Pudéssemos concretizar os mais irrealizáveis delírios, que de imagináveis se realizariam pela só ação de nossa vontade. Querer é poder, entretanto (I) só se pode o que é possível.
B- A tudo que acreditamos ser de um determinado modo, costuma sempre se apresentar alternativa diferente da que escolhemos, e, para além de nossa vontade, existe outra opção, ao menos uma, ou duas, posto que (II) tudo tem seu oposto, e também seu obstrutor.
C- Cabe-nos sempre fazer escolhas, e baseados nelas tomamos muitíssimas decisões todos os dias, muitas vezes sem nos darmos conta, será mesmo assim? Esse processo de muitas possibilidades são as respostas, sempre as mesmas, às muitíssimas situações e fenômenos, sempre os mesmos, que atuam como variáveis invariáveis, e nos enganamos tantas vezes. Mas (III) fazemos sempre nossas escolhas, pelo menos assim o cremos.
NO MUNDO DA MENTIRA.
Dentro de nossa dualidade, da qual não nos conseguimos desvencilhar, e tendo esses três pontos determinantes em vista, dividimos essa análise filosófica, sociológica, científica e artística em três partes correspondentes, e, face a impossibilidade de apresentar os diferentes prismas num mesmo único texto sem acabar por ser confuso, com reflexos de uns altercando com os de outros, assim o dividimos também em três, na intenção da proposta, e que publicaremos em três edições sucessivas.
Sendo que temos o propósito de analisar tendências, que normalmente se verificam em tudo que existe, e nos confrontam quase sempre com perspectivas muito inesperadas, desde as que a ciência nos vai propondo ao estudarmos os diferentes fenômenos, posto que cada um e todos admitem sempre outra possibilidade de entendimento e interpretação, logo outra conclusão, portanto esta a razão de que Ciência se faz com comprovação da ocorrência do fenômeno em sua igual e fiel repetição, verificando-se este sempre de igual modo e forma, posto que nas mesmas situações-condições, quando repetidas, dá-se sempre o mesmo fenômeno, e deste modo se o comprova e explica. Isto não elimina a realidade paralela, só determina a realidade que encontramos em determinadas condições; até às coisas mais banais com as quais lidamos, e para as quais somos muitas vezes convocados a acreditar em narrativas diferentes das da ‘realidade’, que é ao que chamamos mais simplesmente mentira, e que em geral têm muita utilidade àqueles que as tentam impingir como uma realidade diversa da que ocorreu, e com uma interpretação distinta da ocorrente. Ante a realidade, e com ela confrontada, a mentira é anti-ciência, é anti-realidade, anti-arte, anti-normalidade, por mais que grasse como verdade, e seja aceita ou desejada, por só algum tempo que seja. A mentira em si mesma não é realidade paralela, já a sua crença, acreditar nela, é.
Sendo isso que permite as tentativas das crianças em propô-las quando um acontecimento não lhes agrada, e mentem inocentemente, na mais singela alteração da realidade, até o que fazem os abjetos desavergonhados como Trump, Boris, Bolsonaro, que, do mesmo modo mentem, mas que pretendem que suas sucessivas mentiras acabem por se impor, e se transformem em realidade, a paralela que traçaram, como possíveis verdades para interpretarem o mundo a seu talante. Entretanto para a maioria que empregue tal opção, a de criar uma realidade paralela, logo verá prontamente dissolvida suas afirmações, lembrem-se da Máxima de Lincoln (a), (apesar de que por outro lado a capacidade de convencimento desempenhe função muito distintiva em cada caso). Eis pois o exemplo dos advogados às barras dos tribunais, se forem confrontados com factos provados, logo veem sua peroração diminuída, ou anulada, o que não os impede de tentar fazê-la prevalecer, até por fé de ofício que seja. E temos ainda esses que têm representatividade mais alargada, eleitos que foram, que, ao criarem essas pseudo-realidades, puras mentiras, as conseguem imputar como alternativa à realidade, tão somente pelo arbítrio que lhes é possível, este alvedrio que é afeto só aos que têm poder, grande poder, o de influenciar pessoas.
Entretanto analisando o comportamento dos humanos, verifica-se que há uma tendência universal para a mistificação, por isso mentimos tanto, e é de tal forma essa tendência, que se vai generalizando como recurso de resposta (uma solução de recurso para poder responder) para toda e qualquer situação indesejada, seja em que campo for, exceto o científico, onde os fatos têm de ser comprovados, em todos os outros campos da atividade humana se vêm ampliando a criação de universos alternativos ao gosto dos geradores dessas múltiplas versões, mesmo no campo jurídico, que por princípio segue norma homóloga a da ciência, mas onde está legalmente autorizada, e vem prevalecendo tantas vezes, a mistificação.
(a) “É possível enganar algumas pessoas todo o tempo; é também possível enganar todas as pessoas por algum tempo; o que não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo” (Abraham Lincoln – February 12, 1809 – April 15, 1865)
- SÓ SE PODE O QUE É POSSÍVEL?
A ideia, muito utilizada, de que se algo não significa nada, não existe, é a grande peta, posto que tudo é significante, mesmo o que não alcançamos, ignoremos, ou desconheçamos. O significado é que pode não ser o desejado, ou o sentido não ser o pretendido, ou mesmo não ter a importância ou o eco esperado, o que em nada diminui, muito menos anula, sua existência e significação (b). Nosso grande problema é que queremos que as coisas sejam segundo nossa ótica, e, mais grave ainda, que tenham representatividade e peso no tal significado entendido-pretendido, mas as coisas não são assim. As coisas são por si mesmas.
(b) Uma coisa poderá ter significante e não significado, já o oposto é impossível.
Uma árvore que nasceu, é apenas uma árvore, sem entender sua razão, ou seu porque, terá funções determinadas (seu Determinismo certamente), mas a razão de sua existência é sincopada num infinito de realidades que não são suas, apesar de lhes serem correlatas, todas, e cada uma. Assim é com a maioria das coisas, e mesmo conosco. Nossa insistência em lhe atribuirmos, à árvore, como a tudo, um sentido, uma razão, um significado, dirá de sua retidão, se assim crescer, ou, se não, de sua tortura. Dirá de sua utilidade, de suas qualidades todas, adjetivos múltiplos que, por infinitos estudos, na busca de inúmeras significâncias, realizamos; trajetória infinita da cultura. Entretanto a árvore, antes de tudo, é tão somente a árvore, para além de qualquer questionamento ou suposição. A interpretação nossa, de todas e cada uma das qualidades que se lhes atribuirmos, é nossa, e só nossa; o que não acrescenta nem retira nada à árvore, que continuará a ser tão somente árvore, como é, independentemente de tudo que lhe venhamos a considerar, e atribuir, ou não. Aqui se impacientará meu erudito leitor, afirmando: ‘Mas elas têm características próprias, umas dão frutos comestíveis, outras não, as árvores…’ Peço a Vossa infinita capacidade de compreensão, de que todas as ‘características’ que tenha reconhecido a árvore, a qualquer árvore, como em qualquer coisa que observe ou estude, são interpretações Vossas, que, como disse, nada acrescenta ou retira ao objeto estudado, que, nesse caso elencado, continuará sendo apenas árvore, independentemente do que possamos lhe querer imputar. Uma árvore é uma árvore, uma árvore, uma árvore, tudo o mais é conosco. Coníferas para obter celulose, as macieiras para se ter maçãs, como não pode ser de outro modo. As coisas são o que são por si mesmas, classifiquemo-las, ou não, é tão somente nosso juízo.
Encararmos o caracol.
Temos de entrar em sua concha para o vermos cara-a-cara! O caracol não será menos caracol por se encapsular, nem mais por jogar à defesa, é sempre e apenas caracol. Entretanto o passar do tempo, as experiências vividas, o atrito com a realidade, foi generalizando respostas, das mais efetivas, às muitas e diversas situações que se apresentaram. E, como a reação animal é geneticamente determinada ao longo de sua evolução, e o comportamento aprendido, especialmente nos animais superiores como os primatas, portanto há muito pouco espaço de manobra para a invenção ou a experimentação, essas já foram todas feitas e incorporadas, ou, as que não resultaram, rejeitadas. O que não elimina eventuais ocorrências nihilistas, que provocam respostas diferentes das costumeiras e esperadas. E com tudo isso, com o esperado e o inesperado, se criaram muitas estruturas de mecanismos responsivos, que a inteligência humana agrega em diferentes campos, sob diversas perspectivas, criando as mais díspares áreas da cultura, como fez com quase tudo que estudou, onde, saído o caracol de sua concha, revela tudo o que conseguiremos entender da realidade, nua e crua, uma vez assim exposta.
DA CONVERSÃO E O ESTABELECIMENTO DO PARALELISMO.
Temos porém que existem conceitos que não são transversais a tudo que existe, como a vida e a inexorável morte, comum a todos, porém há outros que são conceitos exclusivos de entendimentos particulares, alguns intelectualizados mesmo, o que no entanto pode ser obra de pura ficção, e que nos lança mesmo na realidade paralela, muito para além de nós e nossas possibilidades. Com isso temos implicações originais de várias ordens:
=> => => De ordem sentimental.
A realidade nos inspira energias e emoções muito próprias, que obtêm diferentes respostas, consoantes nosso entendimento e percepção do que ocorre. Entretanto para despertarem nossas emoções passam pelo filtro dos sentidos, esses cinco elementos enganadores que nos desassociam da própria realidade, posto que oferecem-na já adulterada pelo sentido que a captou, ou pela combinação dos vários que a captaram, e, assim procedendo, criaram realidade adulterada, ou até mesmo alternativa. Ademais, por outro lado, nos ocorre muita vez também intuir a realidade, através do que ficou conhecido como sexto sentido, que modifica significante e significado a um só tempo. Temos pois que a realidade é orgânica, já sua narrativa é conceitual. Esta constatação leva-nos a um cabuloso conceito jurídico e da investigação criminal, o do testemunho ocular, no qual qualquer pessoa ao afirmar seja o que for, distorce o que viu, por isso o questionamento deve restringir-se aos fatos, e se o conhecimento destes vier de uma narrativa, quase sempre serão desprezados. Porque nossos sentidos nos enganam tanta vez.
=> => => De Ordem Ética – tida como Moral.
No âmbito das coisas, que são todas infinitamente interpretáveis, há alterações de perspectiva que se dão por conversão, posto que mantendo a mesma matéria, sofrem profundas mudanças na forma e/ou qualidade como a interpretamos. Esse processo altera o costume, esse a que estamos geralmente afetos, e, convertidos, os apreciaremos diversamente. Olhem um pouco para a História e verão que muito do que se acreditava de um modo, logo passou a ser doutro com a mudança dos costumes, e muito do que era proibido, passou a ser aceito, mesmo até desejado e louvado, e vice-versa. Somos, pois, circunstâncias do tempo.
Como verificamos o problema da Humanidade é a adjetivação particular que cada um de seus grupos componentes faz das coisas, tornando-as interditas aos outros que as percebem diferentemente – fonte de conflito – segmentando as perspectivas, para quem as têm, em diferentes porções de gente que à mesma substância atribui formas e qualidades outras. Desse modo os costumes são adjetivados de bons, àqueles que entendemos como os nossos – sãos, úteis, meritórios, bons enfim – sendo os demais o oposto por princípio.
Os bons costumes, irmão siamês dos bons modos, os quais muitos tentam impor ambos pela força, e não pela conversão, com o evoluir de sua imposição por que via for, tornam-se convenção, que do pacto, ou acordo inicial, aquilo que é geralmente admitido, torna-se obrigação, imposição, resvalando de sua função civilizadora, para a de encargo ou ônus. Cabe aqui avaliar as expressões que definem esses critérios: O que será bons modos? Quais são, por exemplo, os trajos ditos menores? Essa ideia abstrata que norteia tanta legislação restritiva. Reflitam sobre isso.
Abandonado o âmbito da ética, original e filosófica, mergulha-se fundo no da moral, que imaterial, e muitas vezes não instintiva, pressupõe regras estritas, logo, de pré-conceitos, que preconceituosas logo se verificam, tendo abandonado a amplitude de entendimento de seus conceitos originais, para o restrito âmbito da regra.
Perdidos nesse emaranhado de interpretações, aqueles que não detêm as bases da perspectiva de conversão, o que levou à convenção vigente, tornam-se sensíveis à outra realidade, paralela que será.
=> => => De Ordem Religiosa.
Como a doutrina religiosa compõe-se de preceitos morais, estes edifícios orgânicos da religião, acrescidos das suas particularidades de crença, formam suposta verdade absoluta, compartimentando o mundo; portanto as implicações dessa ordem são as que mais comummente geram fanáticos, religiosos e anti-religiosos, não admitindo outra qualquer interpretação. Eis pois o fim de linha da conversão, na fiel e plena vivência da realidade paralela.
=> => => De Ordem Jurídica.
Para fugir à letra ‘morta'(?) da Lei, há o humano que julga, e a jurispridência que se estabelece, gerando doutrina para além da Lei, esta é a realidade paralela no seu melhor, recriando e redirecionando a Ordem Jurídica. A dita correspondência, ou reciprocidade.
=> => => De Ordem Filosófica.
Quanto ao entendimento de querer elevar nossos espíritos para lá dos falsos conceitos -adjetivação-, esse recai nas questões da Ordem Moral em quase todos os casos, da filosofia bem comportada, já quanto à filosofia do conhecimento, esta é a única que escapa destas implicações convencionadas e assume a postura científica consistente da epistemologia. Aquilo que é moral é a realidade paralela do ético.
=> => => De Ordem Artística.
Salvo esta corrente pós-moderna que pretende fazer a Arte, moral; toda as artes clamam por liberdade, transgressão, e também transigência, quando não diretamente, através da mescla das possibilidades, exceção feita a marcial, que também é arte, sendo conceitualmente as artes mais desordem que ordem, logo em tudo atendem à realidade paralela, esta mesma que cria e estabelece, abrindo as portas às possibilidades distintas que a sociedade, mor das vezes reacionária, geralmente rejeita. Certamente esta é a magia da Arte, de todas as artes.
Advertência.
Nunca esquecendo que na vida cultural nada é garantido convocar, para além de que não há espaços vazios, e que mesmo na busca de uma verdade alternativa, e na realidade paralela que se busque, só se pode o que é possível, porque há restrições, mesmo ao ficcionado. E que, mais cedo que tarde, esta realidade criada logo se revelará como fraude, ou terá, entretanto geral aceitação. O que, no primeiro caso, não impedirá a muitos de a escolherem como sua verdade, e no segundo, de vir a tornar-se absoluta verdade.
Imagem de capa: Domínio público, por Pixabay.



