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A esperança feita de valores

A esperança feita de valores

As crises sanitárias sempre coexistiram connosco, mas, felizmente, ao longo de séculos tornaram-se uma raridade, especialmente nos países desenvolvidos. O avanço da ciência e a sua repercussão nas sociedades desenvolveu um sentido de quase imunidade total a estas situações dramáticas. Melhores condições de higiene, sanitárias e uma rede de cuidados de saúde alargada e fiável, aumentou a proteção dos cidadãos do ocidente – leia-se da Europa e da América do Norte – desde que nascem até morrerem. Com efeito, temos que recuar ao século XX, para relembrar as epidemias mais devastadoras – a gripe espanhola, no início do século (1918-19), a mais mortífera com 40-50 milhões de mortes e o HIV/AIDS, que desde 1981 já causou entre 25-35 milhões de perdas humanas.

No entanto, nas duas primeiras décadas do século XXI fomos surpreendidos por diversos focos de crise, designadamente: i) SARS/Gripe das aves (2002-03, 770 óbitos); ii) Gripe Suína (2009-10, 200 mil); iii) Ébola (2014-16, 1 mil); iv) MERS (2015, 850).

Talvez fosse um prenúncio do que haveria de chegar no fim de 2019, o COVID-19 (perto 250 mil mortos até 04maio_12:32, fonte. Johns Hopkins University).

Eventualmente pelo esquecimento, se justifique a demora na reação do mundo ocidental, especialmente nos Estados Unidos e alguns países da Eventualmente pelo esquecimento, se justifica a demora na reação do mundo ocidental, especialmente nos Estados Unidos e alguns países da Europa. Tal como em crises anteriores, pensava-se que seria uma questão geo-restrita à China e ao continente asiático, derivado à cultura gastronómica, no mínimo exótica, e às especificidades sanitárias. 

Todavia, a mobilidade dos cidadãos – motivos profissionais ou simplesmente turismo – tornou o COVID-19 numa crise verdadeiramente global, afetando decisivamente os cidadãos dos países, mesmo dos mais desenvolvidos, que quase sem gerações vivas com conhecimento de causa e experiência neste tipo de fenómenos, se deixaram surpreender.

Por outro lado, a forma como a informação foi manipulada na China, pode ter agravado a situação e contribuído também para a inércia inicial. 

Sem embargo, a vida sofreu uma mutação inimaginável. A grande dúvida que se coloca atualmente – dado que gradualmente abandonaremos o confinamento para o regresso à normalidade – é qual será a nova normalidade? À partida temos duas hipóteses: Abrimos a porta a uma maior consciência social coletiva e a um sistema económico mais transparente, sustentável, justo e solidário? Ou, pelo contrário, evoluirmos para um mundo mais desigual, assolado por mortes, novos pobres e desempregados?

A opção deveria ser relativamente simples, tornando-nos todos comprometidos com um mundo melhor, mais sustentável e humano e menos material. Mas, será que, face às repercussões no tecido produtivo a nível mundial e às imparidades operacionais registadas nas diferentes cadeias de valor, enfrentamos sérios riscos de descambar num cenário de desorientação generalizada e perda de esperança?  

Este é o desafio que se coloca ao mundo desenvolvido. Ou seja, como resgatar os países duplamente em crise – sanitária e económico-finEste é o desafio que se coloca ao mundo desenvolvido. Ou seja, como resgatar os países duplamente em crise – sanitária e económico-financeira –, por forma a evitar que se perca a esperança nos valores do mundo ocidental, pautados pela liberdade, igualdade e fraternidade que nos tem norteado; e, agora, ecologicamente mais equilibrado. 

Por tudo isto, o COVID-19 é muito mais do que uma grave doença. É um marco histórico na evolução do mundo.

Alexandre Magno, antes de deixar a Grécia à conquista da Ásia, doou aos amigos o seu património: terras, florestas, aldeias e até mesmo os direitos aduaneiros dos portos e todas as suas rendas. Terminada a distribuição dos seus bens pessoais – e não dos bens do reino, cujo trono deixou entregue à sua mãe – um dos seus amigos, Perdicas perguntou-lhe se tinha ficado com alguma coisa para si, mesmo que fosse apenas como recordação. E Alexandre, olhando-o nos olhos, respondeu-lhe: “Sim, a esperança”. Então Perdicas renunciou à sua parte, recebida como dádiva, e disse-lhe: “A nós que viremos a combater ao teu lado, deixa, por isso, que partilhemos da esperança.

A história viria a reconhecer Alexandre, como “o Grande”. E a Europa e os EUA, como ficarão nesta história? Neste âmbito, vamos enfrentar o COVID-19 e os tempos posteriores numa batalha sem tréguas que permita acalentar a esperança de um mundo melhor, onde o conhecimento seja a pedra angular. 

Por:

Eduardo Leite
Universidade da Madeira; CiTUR – Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo
e-mail: eduardo.leite@staff.uma.pt
https://orcid.org/0000-0002-4109-3122

Ricardo Silva
Instituto Politécnico do Porto
e-mail: rjos@iscap.ipp.pt

Ana Leite
UAb; L’École des hautes études en sciences sociales
e-mail: anamiguelleite@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-2413-050X

Imagem (Engin_Akyurt) gratuita em Pixabay

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