Hoje vou contar um caso estranho, daqueles que nos fazem viajar nas ideias e, ao final, ancorar em um porto longe de ser seguro, porém, profundamente real.
Escrevo sobre um roubo. De algo precioso, raro, cobiçado por alguns mais atentos ao movimento do mundo e, talvez, vítimas do mesmo golpe — ou, quem sabe, até arquitetos do modus operandi resultante no crime.
A vítima sou eu, mas também você, que hoje lê este texto. Se não sabia do golpe e de ser vítima dele, parabéns: bem-vindo(a) ao clube das vítimas da escrita roubada.
Vamos aos fatos

O dia estava claro, céu azul de inverno, precisamente no Estado de São Paulo — Brasil. A vontade de ficar esquentando o esqueleto ao sol era grande, mas os afazeres do dia clamavam por atenção. Lá fui eu: comecei bem cedo, como todos os dias. Acordei às 5h30; às 7h já estava na academia para meus treinos diários; às 9h, em casa para o lanche. Tudo parecia tranquilo; à tarde, planejava sentar-me ao computador e iniciar a escrita de meu artigo quinzenal para esta plataforma.
O almoço foi rápido, porém interrompido por um telefonema do Contador[1], que me alertava sobre um erro cometido por mim no momento do lançamento, no sistema oficial do Governo Federal[2], das férias anuais de uma funcionária. A comida parou na garganta imediatamente. Conto para vocês que esta situação não só me roubou a tarde daquele dia, como meu sono e toda a manhã do dia seguinte. Enfim, ao final do segundo dia, realizei o pagamento devido, com todas as multas trabalhistas e metade da minha conta bancária zerada. Meu Deus, como pude errar?
Fiquei mais um dia me recuperando, com pensamentos insistentes que navegavam entre a situação financeira resultante e a necessidade de acabar o mês sem dívidas. Mas eu precisava escrever o artigo para esta plataforma, algo que amo de paixão e que me fazia bem. Fui escrever.
Iniciei a escrita em uma quarta-feira, no período da tarde, como de costume. Mas fui novamente interrompida por uma mensagem de WhatsApp avisando que alguns documentos que havia solicitado estavam prontos e precisavam ser impressos e levados por mim para um processo de “reconhecimento de firma”[3] em um cartório oficial. Interrompi a escrita, imprimi os documentos e, como a hora já estava avançada, deixei para ir ao cartório no dia seguinte. Não escrevi mais, pois já era tarde e meus pensamentos haviam sido roubados pelos últimos agitos da tarde.
No dia seguinte de manhã, estava no cartório, munida dos documentos para o processo. Porém, só pude realizar o procedimento no período da tarde, devido ao número elevado de pessoas no local. Após uma espera de uma hora e meia, ao final da tarde, finalizei o processo. Ao voltar para casa, não consegui mais acalmar meus pensamentos e me dedicar à escrita do texto. Escrever exige entrega, presença e compromisso. Veio então a dúvida: será que não estou priorizando aquilo que mais gosto de fazer?
A questão levantada no final da tarde ficou perambulando em meus pensamentos durante todo o fim de semana, período em que acabei me envolvendo com a família e não consegui sentar-me ao computador para escrever. Mas na próxima semana eu escrevo.
A segunda-feira amanheceu ensolarada novamente, tempo seco e frio, bom para um café, leitura e escrita. Hoje tudo será diferente!
À tarde, tentando cumprir com minha rotina de escrita, sentei-me ao computador, mas as ideias estavam perdidas. Resolvi ler as últimas notícias e me envolvi com as questões políticas, afinal, em três meses teremos eleições gerais no Brasil. Logo estava tomada por notícias e resolvi começar a escrever sobre o crescimento do voto feminino no país (já somos mais de 50% dos votantes). Tema delicioso, que logo me envolveu. Lá pelo meio do texto, resolvi pesquisar algumas candidaturas femininas, quantidade, temas abordados e coligações políticas. Depois de alguns minutos, fui parar em algumas páginas dessas candidatas nas redes sociais e, pasmem, fui envolvida por notícias diversas por mais de uma hora. Quando retornei ao texto, meus pensamentos estavam desconectados e então resolvi fazer algumas anotações e acabar o texto no dia seguinte. Resumo do dia: foi produtivo, mas tive os pensamentos roubados ao final da tarde. Amanhã recupero!
O amanhã que virou hoje
A manhã foi novamente tomada por frio, tempo seco e sol, mas algo estava diferente: havia um ventinho abafado, mas enfim, vida que segue. Busquei minha rotina diária; hoje ninguém me tirará do computador. Pela manhã, enquanto tomava café, o noticiário da TV anunciava um dia atípico, com previsão de ventania de até 90 km/h. Mas, como a previsão era para o período da tarde, estaria escrevendo, dentro de casa, a salvo dos ventos.
Por volta das 14h, recebi em meu celular um alerta severo de ventania, com orientações para minha proteção e de meus familiares. Fechei toda a casa e logo tudo começou a balançar lá fora; a ventania realmente foi forte. Árvores balançavam, galhos caíam e a energia elétrica se foi. A tarde foi de observar o tempo e depois sair para varrer o quintal, recolher pedaços diversos que voaram de vários lugares e tentar voltar ao normal. Após a recomposição do ambiente externo, eu não tinha mais força física nem mental para escrever. Porém, o mais importante é que todos estávamos bem.

Na manhã seguinte, conversando com alguns amigos sobre minha aflição em não conseguir acabar meu artigo, recebi a seguinte resposta de um deles:
— Mas por qual motivo você está aflita? Basta jogar aquilo que você já escreveu na IA que ela faz o resto para você, simples assim.
Me senti uma idiota. Mas o pior ainda estava por vir. O amigo segue:
— As pessoas não gostam mais de ler; costumam ler o início e logo rodam a tela para outro post, não esquenta!
Idiota era pouco; me senti uma palhaça fora do circo.
Percebi que tudo no mundo moderno parece afastar a autoria de uma escrita. Vivemos em um mundo de excessos: de notícias, burocracias, postagens e até do clima, com reviravoltas nunca pensadas. Quem é o autor de sua própria escrita hoje? Quem sou eu nesse mundo de excessos, onde até as palavras, de tanto serem usadas indevidamente, passam a ter significados desconexos de suas fontes?
Agora que não sai artigo mesmo!
Ou melhor: talvez saia justamente este artigo. Afinal, se a inteligência artificial promete escrever tudo por mim, ela certamente não saberia contar o gosto amargo do erro no sistema do governo, nem o estrago da ventania de 90 km/h no meu quintal, muito menos a raiva legítima de me sentir uma palhaça. E é exatamente isso, essa bagunça humana, imperfeita e insubstituível que tentam nos roubar todos os dias.
Amigo, fique com a sua IA; eu fico com a minha caneta, meu computador, meus pensamentos, meus tropeços e a minha voz.
Você que me acompanhou até aqui tem o direito de saber o final dessa história: O artigo sobre as eleições brasileiras ficou pronto, será publicado na próxima quinzena. Mas também este ficou pronto, onde divido com você minha experiência de escritora.
Enfim, consegui, rompi uma barreira e isso me deu coragem para continuar.
Até breve!
[1] O Contador é o profissional que cuida da parte financeira, fiscal e econômica de uma empresa ou pessoa. Ele registra movimentações de dinheiro, calcula impostos e ajuda donos de negócios a tomarem boas decisões.
[2] Sistema chamado “eSocial” – um sistema do governo brasileiro criado para unificar o envio de informações trabalhistas, previdenciárias e fiscais. Ele centraliza dados como folhas de pagamento, admissões e acidentes de trabalho em uma única plataforma digital.
[3] Reconhecer firma no cartório é o ato em que o tabelião confirma que uma assinatura em um documento pertence realmente a uma pessoa específica.
[4] Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/frente-de-rajada-fenomeno-explica-ventania-de-120-km-h-no-rj-e-em-sp – Acesso em 30/07/2026.