O texto de hoje parte de uma provocação, uma das mais inquietantes, extraída de leituras tão profundas quanto desafiadoras.
Durante a última semana, mergulhei em uma daquelas obras que, ao terminar, imediatamente nos convida a uma releitura. Refiro-me ao livro “A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais” (2026)[2], de Vladimir Safatle[3], filósofo, escritor e músico brasileiro nascido no Chile.
A obra defende, nas palavras do autor, “a existência de um fascismo estrutural próprio das sociedades liberais, que emerge com força em situações de crises simultâneas, como as que vivenciamos atualmente”. O autor nos convida a navegar por suas ideias de forma incisiva, tecendo um paralelo direto com a realidade mundial. Para nossa reflexão, destaco um trecho que, dentre tantos outros, me instigou profundamente:
Essa distinção cai com o neoliberalismo, a ponto de a educação se tornar um modo de investir no ‘capital humano’, de as amizades serem vistas como o espaço do ‘capital social’ e da construção de ‘networkings’, de os afetos se tornarem o campo para a melhor otimização de nossa ‘inteligência emocional’. A família, a escola, a igreja, o Estado, todas essas instituições serão reconstruídas a partir da generalização da forma-empresa. (SAFATLE, 2026, p. 119)
Se estamos falando da construção de “capital” que, por definição, refere-se a qualquer recurso ou ativo capaz de gerar mais riqueza, produtividade ou lucro, precisamos questionar: a serviço de quem esse capital é direcionado?
Este é o ponto nevrálgico de Safatle: esse capital é acumulado por um grupo selecionado pelo sistema, enquanto os “outros” tornam-se descartáveis, destituídos de qualquer possibilidade de acumulação. E, no pensamento atual, parece que “tudo bem”.
Tudo bem ou tudo mal?
Ao aplicar a lógica do capital a categorias como amizade e emoção, transformamos vivências em métricas passíveis de acumulação quantitativa. Não é difícil prever que, sob essa ótica, certas formas de afeto sejam classificadas como produtivas ou improdutivas, tudo em nome de uma suposta evolução humana.
Tais reflexões podem parecer bizarras à primeira vista, mas, se observadas atentamente, revelam-se estruturais em nosso cotidiano.
Vejamos alguns exemplos:
- A ditadura da “curadoria pessoal“: Nunca se falou tanto em curadoria. Hoje, existe curadoria para tudo, inclusive para a vida. Trata-se da figura do profissional contratado para organizar sua agenda, filtrar seus interesses, eliminar distrações e direcionar seu foco apenas para o que o torna “melhor” que os outros. Segundo os entusiastas dessa prática, o sucesso exige que você consuma apenas o que se alinha aos seus objetivos, sejam objetos, hábitos ou, mais gravemente, pessoas;
- Empregados vs. Colaboradores: Na nova linguagem corporativa, o termo “empregado” foi banido em favor de “colaborador”. Embora sem embasamento jurídico, essa nomenclatura carrega uma forte pressão psicológica: sugere um profissional que “veste a camisa” e se doa ativamente ao crescimento da empresa. É uma roupagem mais sofisticada, que confere um status de pertencimento, mas que, na prática, frequentemente obscurece direitos trabalhistas conquistados ao longo da história. Aquele que integra a lógica corporativa, permanece; quem reivindica direitos, torna-se uma anomalia;
- O capitalismo dos afetos: Entre tantas emoções transformadas em mercadoria, destacamos o que ocorre nas plataformas digitais. O afeto é quantificado por métricas (curtidas, visualizações, seguidores), onde o nível de popularidade passa a ser o termômetro do quanto alguém é admirado ou amado. Quem domina a arte de se vender alcança o sucesso; o outro, simplesmente não existe.
A lista poderia ser enorme, mas o que nos importa é destacar o caráter profundamente individualista de cada uma dessas ações. Aqueles que não alcançam os níveis de produtividade exigidos, ou que simplesmente se recusam a jogar segundo essas regras, estão fadados ao apagamento e, novamente, parece que para o sistema, “tudo bem”.
A lógica do capital, segundo Safatle, nos envolve silenciosamente em uma espiral de concentração de poder. Ela subordina o indivíduo a um sistema onipotente, incentivando a exclusão de qualquer um que ouse disputar o mesmo espaço que você. É a lógica da meritocracia em sua face mais perversa: a ascensão e o poder como subprodutos de uma competição individual ferrenha.
Pode parecer contraditório citar a meritocracia ao mesmo tempo em que o mundo empresarial prega a “colaboração”. Contudo, lá no fundo, o que se persegue não é a construção coletiva, mas o sucesso individual e a validação externa. Podemos então, com a mesma lente, ampliar nosso olhar para o mundo atual, suas guerras, disputas de poder, lutas por territórios e apagamento de comunidades inteiras, e concluir, que o que impera é a lógica do mais forte em um grau elevado de egocentrismo. O pensamento de que não há espaço no mundo para todos, que antes era aterrorizante, passa a povoar perversamente o consciente humano.
Ao final, a conclusão de Safatle é um convite urgente para que desnaturalizemos essa patologia. Se permitimos que a lógica do capital colonize o que temos de mais íntimo, nossos afetos e nossas amizades, estamos simultaneamente renunciando à política. Pois, enquanto nos ocupamos em acumular esse “capital ilusório”, esvaziamos o espaço público e abrimos caminho para que fascismos estruturais, disfarçados de produtividade, continuem a ditar quem merece viver e quem deve ser descartado. A sobrevivência de nossa humanidade depende, talvez, de nossa capacidade de sermos, finalmente, improdutivos para o mercado.
[1] Dra. em Educação – Políticas Públicas – pela PUC/SP; Especialista em Neurociência aplicada a Educação pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP; Supervisora de Ensino do Estado de SP; Professora Universitária, Pesquisadora, Colunista e Palestrante.
Acesse: www.robertabocchi.com.br Insta: @robertabocchioficial https://youtube.com/@robertabocchi?si=kfKpmh4sYuqX77Pd
[2] SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ebu Editora, 2026.
[3] É professor titular da cadeira de Teoria das Ciências Humanas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Notabilizou-se ao grande público sobretudo por sua atividade como colunista no jornal Folha de S. Paulo. Sua produção intelectual concentra-se nas áreas de epistemologia da psicanálise e da psicologia, filosofia política, Teoria Crítica e filosofia da música.