A complexidade crescente dos sistemas económicos, sociais e institucionais exige uma leitura integrada dos fenómenos que moldam a ação organizacional contemporânea. Gestão, empreendedorismo, inovação, sustentabilidade e globalização deixaram de constituir domínios autónomos para se afirmarem como componentes interdependentes de um mesmo ecossistema de criação de valor. Tal como no ADN humano, não é cada elemento isolado que determina a vitalidade do sistema, mas a forma como estes combinam-se, regulam-se e adaptam-se em contextos de elevada incerteza. Compreender este “código invisível” tornou-se, por isso, uma exigência científica e estratégica.
A gestão contemporânea evoluiu significativamente face aos modelos clássicos centrados na eficiência, no controlo e na previsibilidade. Num mundo marcado por disrupções tecnológicas, crises climáticas, choques geopolíticos e transformações demográficas, gerir passou a significar lidar com ambiguidade, risco e mudança contínua. Autores como Teece (2024) e Hitt, Ireland e Hoskisson (2024) sublinham que a vantagem competitiva sustentável depende hoje da capacidade das organizações de desenvolverem capacidades dinâmicas, isto é, a aptidão para integrar, reconfigurar e renovar recursos de forma contínua. A gestão assume, assim, um papel sistémico, articulando estratégia, cultura organizacional, inovação e responsabilidade social.
É neste enquadramento que o empreendedorismo emerge como um eixo central do ADN organizacional. Longe de limitar-se à criação de novas empresas, o empreendedorismo contemporâneo afirma-se como uma mentalidade transversal, orientada para a identificação de oportunidades, a experimentação e a criação de soluções com impacto económico e social. A literatura recente destaca o papel dos ecossistemas empreendedores como motores de desenvolvimento sustentável, particularmente quando suportados por instituições inclusivas, políticas públicas coerentes e redes colaborativas (Acs et al., 2025; Audretsch & Belitski, 2024). Empreender, neste sentido, é um ato profundamente contextual e relacional, que articula inovação, território e propósito.
A inovação constitui o mecanismo através do qual este ADN expressa-se de forma visível. Contudo, a inovação relevante na atualidade ultrapassa a dimensão tecnológica. Inovar implica transformar modelos de negócio, processos organizacionais, relações laborais e formas de governação. George, Merrill e Schillebeeckx (2024) defendem que a inovação sustentável resulta da integração estratégica entre tecnologias digitais, objetivos de desenvolvimento sustentável e criação de valor a longo prazo. Organizações inovadoras são, acima de tudo, organizações aprendentes, capazes de incorporar diversidade cognitiva, promover colaboração interdisciplinar e transformar o erro em fonte de aprendizagem.
A sustentabilidade assume, neste contexto, um papel estruturante e não acessório. A transição de uma lógica de crescimento linear para modelos sustentáveis e circulares exige uma redefinição profunda dos critérios de desempenho organizacional. Bocken, Schuit e Kraaijenhagen (2024) demonstram que os modelos de negócio sustentáveis emergem frequentemente de processos experimentais, onde inovação, responsabilidade ambiental e viabilidade económica reforçam-se mutuamente. A sustentabilidade deixa, assim, de ser apenas uma obrigação ética ou regulatória, passando a constituir um fator crítico de resiliência e competitividade num mercado global cada vez mais exigente.
A globalização fornece o cenário onde este ADN manifesta-se em toda a sua complexidade. Longe de um fenómeno homogéneo, a globalização contemporânea caracteriza-se por cadeias de valor interdependentes, fluxos intensivos de informação e uma crescente tensão entre dinâmicas globais e realidades locais. A OCDE (2025) sublinha que a sustentabilidade das cadeias de valor globais depende da capacidade das organizações de integrarem critérios ambientais, sociais e de governação nas suas estratégias. Esta abordagem exige uma gestão sensível ao contexto, capaz de alinhar eficiência global com impacto local positivo.
Neste quadro, o conceito de criação de valor partilhado ganha particular relevância. Porter e Kramer (2024) defendem que as organizações mais competitivas do século XXI serão aquelas capazes de alinhar sucesso económico com progresso social, integrando as necessidades das comunidades e dos territórios nas suas estratégias centrais. Esta visão reforça a ideia de que o ADN da gestão contemporânea é, inevitavelmente, ético, relacional e orientado para o longo prazo.
Acrescenta-se ainda que a liderança desempenha um papel determinante na ativação deste ADN integrado. A literatura mais recente enfatiza a necessidade de lideranças conscientes, capazes de equilibrar desempenho económico com responsabilidade social e ambiental. Liderar, neste contexto, não é apenas decidir, mas criar sentido, alinhar valores e promover confiança num ambiente organizacional cada vez mais diverso e distribuído. A liderança sustentável assume-se como um fator mediador entre inovação e impacto, influenciando diretamente a forma como as organizações adotam métricas de valor mais amplas, como o retorno social do investimento (SROI), indicadores ESG (medir como a empresa ganha dinheiro de forma responsável, sustentável e ética) e medidas de bem-estar coletivo.
Paralelamente, observa-se uma crescente valorização de métricas que ultrapassam os indicadores financeiros tradicionais. A incorporação de instrumentos de avaliação de impacto social e ambiental reflete uma mudança profunda na forma como o sucesso organizacional é definido e comunicado. Esta evolução é particularmente relevante em setores intensivos em conhecimento e serviços, onde o valor gerado é frequentemente intangível, relacional e de longo prazo. Assim, a gestão baseada em valor integrado reforça a coerência entre estratégia, inovação e sustentabilidade, contribuindo para a legitimidade social das organizações.
A articulação entre gestão, empreendedorismo, inovação, sustentabilidade e globalização revela-se, assim, essencial para enfrentar os desafios sistémicos do nosso tempo. Relatórios recentes do World Economic Forum (2025) e das Nações Unidas (UN Global Compact, 2025) convergem na ideia de que a resiliência das organizações e das sociedades dependerá da sua capacidade de pensar de forma integrada, antecipar riscos e criar soluções colaborativas. Este ADN integrado não é estático; evolui com o contexto, exige liderança consciente e requer uma visão estratégica que transcenda ciclos económicos e fronteiras geográficas.
Conclui-se que compreender o ADN da gestão contemporânea implica reconhecer que o valor sustentável emerge da interligação entre inovação responsável, empreendedorismo com propósito e governação global sensível às realidades locais. Num mundo em rápida transformação, as organizações que prosperarão serão aquelas capazes de decifrar este código invisível e traduzi-lo em ação estratégica consistente, ética e socialmente relevante.
Referências bibliográficas
Acs, Z. J., Audretsch, D. B., Lehmann, E. E., & Licht, G. (2025). National systems of entrepreneurship. Small Business Economics, 64(1), 1–18. https://doi.org/10.1007/s11187-024-00873-2
Audretsch, D. B., & Belitski, M. (2024). Entrepreneurial ecosystems and sustainable development: The role of institutions. Journal of Business Research, 164, 113975. https://doi.org/10.1016/j.jbusres.2023.113975
Bocken, N. M. P., Schuit, C. S. C., & Kraaijenhagen, C. (2024). Experimenting with circular business models: Lessons from sustainability-driven innovation. Business Strategy and the Environment, 33(1), 1–15. https://doi.org/10.1002/bse.3389
George, G., Merrill, R. K., & Schillebeeckx, S. J. D. (2024). Digital sustainability and entrepreneurship: How digital technologies enable sustainable value creation. Academy of Management Perspectives, 38(1), 1–22. https://doi.org/10.5465/amp.2022.0172
Hitt, M. A., Ireland, R. D., & Hoskisson, R. E. (2024). Strategic management: Competitiveness and globalization (14th ed.). Cengage Learning.
OECD. (2025). Global value chains, digital transformation and sustainability. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/0c1b3e5f-en
Porter, M. E., & Kramer, M. R. (2024). Creating shared value in a global economy. Harvard Business Review, 102(1), 48–63.
Teece, D. J. (2024). Dynamic capabilities and strategic management: Organizing for innovation and global competitiveness (2nd ed.). Oxford University Press.
UN Global Compact. (2025). Corporate sustainability and global responsibility. United Nations.
World Economic Forum. (2025). The global risks report 2025: Innovation, sustainability and systemic resilience. WEF.



