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Inovar na (ultra)Periferia: Reflexões sobre o baixo investimento em I&D na Madeira

Inovar na (ultra)Periferia: Reflexões sobre o baixo investimento em I&D na Madeira

A notícia publicada pelo Diário de Notícias da Madeira, a 16 de novembro de 2025, intitulada “Madeira é a que menos investe em inovação” (Diário de Notícias da Madeira, 2025), reacende um debate estrutural que não é novo, mas que permanece atual e profundamente relevante. Quando analisei este tema no artigo “Entre os Países Baixos e a Madeira: reflexões sobre a geografia da inovação”, publicado a 26 de setembro de 2025 (Teles, 2025), já sublinhava que a inovação não surge num vazio, mas em ecossistemas que dependem da densidade institucional, da proximidade a centros de decisão e da capacidade de atrair e reter conhecimento. A divulgação recente dos indicadores regionais confirma que muitos dos constrangimentos então identificados continuam presentes, colocando a Madeira numa posição estruturalmente frágil no que respeita ao investimento em ciência, tecnologia e investigação e desenvolvimento (I&D). Segundo a notícia, a RAM surge como a região portuguesa com menor despesa em inovação empresarial, tanto em termos absolutos como relativos (Diário de Notícias da Madeira, 2025). Este dado não é surpreendente quando analisado à luz da literatura sobre inovação regional e economias periféricas. Estudos demonstram que fatores como a insularidade, a distância aos grandes mercados, a reduzida dimensão económica e a menor densidade institucional condicionam fortemente a capacidade de gerar inovação endógena (Rodríguez-Pose, 2020). Em regiões insulares, a menor massa crítica de empresas tecnológicas, centros de investigação e instituições intermédias dificulta a criação de ecossistemas dinâmicos de inovação, resultando em níveis estruturalmente baixos de investimento em I&D. O conceito de ultraperiferia, reconhecido pela União Europeia, é central para compreender esta realidade. A Madeira enfrenta constrangimentos permanentes que não resultam apenas de decisões conjunturais, mas de determinantes geográficos e estruturais. No entanto, como já defendi, a geografia não deve ser encarada como um destino inevitável. Ela condiciona, mas não determina de forma absoluta a capacidade de inovar. A inovação resulta de escolhas estratégicas sustentadas, de políticas públicas consistentes e da articulação entre empresas, instituições de ensino superior e organismos de investigação. A persistência de baixos níveis de investimento em I&D sugere que este alinhamento estratégico ainda não foi plenamente alcançado. A literatura sobre sistemas regionais de inovação demonstra que o desenvolvimento tecnológico depende fortemente da interação entre múltiplos fatores, como: empresas, universidades, centros tecnológicos e administração pública, num ambiente de proximidade e colaboração (Balland et al., 2022). Regiões de pequena dimensão tendem a apresentar redes menos densas, o que limita a circulação de conhecimento e reduz as oportunidades de cooperação. O tecido empresarial madeirense, maioritariamente composto por micro, pequenas e médias empresas, enfrenta dificuldades adicionais em internalizar atividades de investigação, quer por limitações financeiras, quer por escassez de recursos humanos especializados. A ausência de estruturas intermédias fortes agrava esta realidade, dificultando a transformação de conhecimento científico em inovação aplicada. As consequências deste baixo investimento são múltiplas e cumulativas. Por um lado, limita-se a capacidade de desenvolver produtos e processos diferenciadores, reduzindo o valor acrescentado gerado localmente e a competitividade externa das empresas. Por outro, aumenta a dependência de tecnologias externas, fragilizando a autonomia produtiva e estratégica da região. Este cenário é particularmente problemático num contexto global marcado por rápidas transformações tecnológicas, em que a inovação constitui um dos principais motores do crescimento económico sustentável. Um dos efeitos mais visíveis desta fragilidade estrutural é a dificuldade em atrair e reter talento qualificado. Profissionais com formação científica e tecnológica tendem a procurar ecossistemas onde existam oportunidades de investigação, desenvolvimento profissional e progressão na carreira. Quando essas condições não estão presentes, a mobilidade torna-se inevitável, reforçando fenómenos de brain drain amplamente documentados em regiões periféricas e ultraperiféricas (Lehto, 2021). Este ciclo de pouco investimento, pouca inovação, fuga de talento contribui para perpetuar as assimetrias regionais no desenvolvimento tecnológico.

A notícia do Diário de Notícias da Madeira deve, por isso, ser interpretada como um sinal de alerta e não apenas como um retrato estatístico. O baixo investimento em inovação levanta questões centrais sobre o modelo de desenvolvimento económico da região. Uma economia excessivamente dependente de setores tradicionais e de baixo valor acrescentado torna-se mais vulnerável a choques externos e menos capaz de gerar crescimento sustentado. A inovação, neste contexto, não é um luxo, mas um fator estrutural da competitividade e da resiliência económica. Importa, no entanto, reconhecer que existem oportunidades que podem contribuir para alterar este cenário. A nível nacional e europeu, têm sido lançados instrumentos de apoio à inovação produtiva, à transição digital e à modernização tecnológica das empresas. Na Madeira, programas regionais recentes procuram estimular investimentos em inovação e em atividades de maior intensidade tecnológica. Contudo, o impacto destes instrumentos dependerá da capacidade das empresas em aceder aos apoios e, sobretudo, da existência de competências internas capazes de transformar investimento financeiro em inovação efetiva. A literatura demonstra que a capacidade de inovar está profundamente associada à presença de capital humano qualificado, à densidade institucional e ao investimento sustentado em I&D (Crescenzi et al., 2007; Iammarino et al., 2019). Regiões que conseguem articular estes elementos tendem a apresentar maior dinamismo inovador, mesmo quando enfrentam constrangimentos estruturais. Sem essa articulação, as políticas de inovação correm o risco de se esgotar em medidas pontuais, com impacto limitado no médio e longo prazo. Ao retomar este tema à luz da notícia de novembro de 2025, torna-se evidente que muitos dos desafios identificados anteriormente permanecem atuais. A geografia da inovação continua marcada por fortes assimetrias, com regiões centrais a concentrar recursos e conhecimento, enquanto regiões ultraperiféricas enfrentam dificuldades persistentes de integração nas redes globais de inovação. Ainda assim, a Madeira possui potencial em nichos específicos, como o mar, a biotecnologia, o agroalimentar e a sustentabilidade, que podem servir de base a estratégias de inovação mais focadas e realistas. Para que esse potencial se concretize, a inovação precisa de ser assumida como prioridade estratégica, sustentada no tempo e integrada numa visão coerente de desenvolvimento regional. A reflexão que esta notícia suscita é, portanto, inevitável: o baixo investimento em I&D resulta apenas de limitações estruturais ou reflete também a ausência de uma estratégia integrada de inovação? Entre estas duas hipóteses, a segunda parece particularmente relevante e, sobretudo, passível de correção. Inovar em contexto de ultraperiferia é um desafio acrescido, mas não impossível. Exige visão estratégica, investimento continuado, articulação institucional e aposta clara no conhecimento. Sem estes elementos, a Madeira continuará a figurar nos indicadores como uma região que investe pouco em inovação; com eles, poderá transformar a sua condição periférica num espaço de especialização e diferenciação.

Referências

Balland, P.-A., Broekel, T., D’Este, P., & Rigby, D. (2022). The dynamics of regional innovation systems. Research Policy, 51(3), 104127. https://doi.org/10.1016/j.respol.2021.104127

Crescenzi, R., Rodríguez-Pose, A., & Storper, M. (2007). The territorial dynamics of innovation: A Europe–United States comparative analysis. Journal of Economic Geography, 7(6), 673–709. https://doi.org/10.1093/jeg/lbm030

Diário de Notícias da Madeira. (2025, November 16). Madeira é a que menos investe em inovação. https://www.dnoticias.pt/2025/11/16/470706-madeira-e-a-que-menos-investe-em-inovacao/

Iammarino, S., Rodríguez-Pose, A., & Storper, M. (2019). Regional inequality in Europe: Evidence, theory and policy implications. Journal of Economic Geography, 19(2), 273–298. https://doi.org/10.1093/jeg/lby021

Lehto, H. (2021). Talent mobility and regional innovation disparities in Europe. Regional Studies, 55(12), 1968–1982. https://doi.org/10.1080/00343404.2020.1861234

Rodríguez-Pose, A. (2020). The rise of the “places that don’t matter” (and what to do about it). Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 13(1), 189–209. https://doi.org/10.1093/cjres/rsz027

Teles, M. F. (2025, September 26). Entre os Países Baixos e a Madeira: Reflexões sobre a geografia da inovação. A Pátria. https://apatria.org/entre-os-paises-baixos-e-a-madeira-reflexoes-sobre-a-geografia-da-inovacao/

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