RESUMO
O recrudescimento das tarifas comerciais por parte dos Estados Unidos, intensificado desde o governo Trump e continuado em administrações subsequentes, gerou transformações profundas nas dinâmicas comerciais internacionais. Este artigo realiza uma análise crítica dos impactos económicos e políticos destas medidas, com destaque para os efeitos sobre a União Europeia, China e demais parceiros estratégicos. A partir de uma perspetiva histórica, institucional e empírica, argumenta-se que tais políticas protecionistas promovem desorganização nas cadeias globais de valor, provocam tensões diplomáticas e fragilizam as bases do multilateralismo. Conclui-se que a intensificação da cooperação internacional é essencial para evitar o retorno de erros históricos com repercussões globais significativas.
Palavras-chave: guerra comercial, protecionismo, tarifas, política económica, relações internacionais, globalização.
1. INTRODUÇÃO
As tarifas comerciais impostas pelos EUA, com aumentos frequentemente superiores a 25% em setores específicos como aço e alumínio, têm gerado debates substanciais sobre os efeitos do protecionismo no contexto de uma economia globalizada. Estas tarifas foram inicialmente apresentadas como respostas a práticas comerciais consideradas desleais, sobretudo da China, mas geraram uma série de retaliações tarifárias, cujos efeitos espalharam-se por várias economias. Bown e Irwin (2019) argumentam que o aumento das tarifas levou a distorções no comércio internacional, elevando os custos do comércio para todos os envolvidos. O histórico das tarifas Smoot-Hawley, como mencionado por Irwin (2017), serve de advertência para os riscos de políticas unilaterais em tempos de fragilidade económica global.
2. IMPACTOS ECONÓMICOS: O RETORNO DAS BARREIRAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS
A literatura contemporânea corrobora a visão de que políticas tarifárias elevadas resultam em desequilíbrios económicos. Bown e Irwin (2019) demonstraram que as tarifas dos EUA sobre aço e alumínio levaram ao aumento de custos para indústrias domésticas dependentes destes fornecimentos, além de reduzirem a competitividade dos exportadores americanos. Segundo relatório do FMI (2023), o impacto líquido das tarifas impostas entre 2018 e 2022 foi uma redução de 0,3% no PIB global e o aumento da inflação nos países envolvidos. Além disso, Crowley et al. (2021) mostram que a guerra tarifária EUA-China resultou em uma diminuição de mais de 25% no investimento estrangeiro direto bilateral, afetando particularmente a cadeia tecnológica e de semicondutores. Goldberg e Reed (2022) também indicam que as tarifas reduziram a diversidade de recursos importados, prejudicando principalmente pequenas e médias empresas, que não conseguem internalizar estes custos.
O impacto das tarifas foi particularmente devastador para economias emergentes. De acordo com o relatório do FMI (2023), a imposição de tarifas entre 2018 e 2022 não só reduziu o PIB global em 0,3%, mas também teve um impacto desproporcionado em economias em desenvolvimento, elevando os custos de importação e restringindo o crescimento das exportações, especialmente para países da África e América Latina.
3. REPERCUSSÕES POLÍTICAS: O ENFRAQUECIMENTO DE ALIANÇAS
Além das tensões comerciais, a crescente imposição de tarifas tem enfraquecido alianças estratégicas, colocando em risco a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. A União Europeia, em resposta às tarifas unilaterais dos EUA, procurou estabelecer acordos bilaterais com países como o Japão e o Mercosul, numa tentativa de reduzir a dependência das políticas comerciais americanas (EU Commission, 2025). Este movimento reflete uma reconfiguração das alianças comerciais globais, com o surgimento de novos blocos que podem desafiar a hegemonia dos EUA.
Segundo Evenett e Fritz (2021), o protecionismo tarifário enfraqueceu o papel dos EUA como líder de normas globais, ampliando o espaço para a ascensão da China como alternativa comercial. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni afirmou que “as tarifas apenas enfraquecem o Ocidente” (Meloni, 2025), refletindo o crescente desgaste das alianças transatlânticas. A ascensão da China, com suas próprias estratégias comerciais agressivas, coloca os EUA em uma posição de declínio nas negociações comerciais globais.
4. UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA: REPETIÇÃO DE ERROS PASSADOS
A história fornece exemplos alarmantes do impacto de políticas protecionistas, sobretudo durante a década de 1930, com o agravamento da Grande Depressão. Irwin (2017) adverte que o protecionismo nos anos 30 resultou em uma contração global e em uma intensificação da fragmentação política, agravando a crise económica mundial. Eichengreen (2019) destaca que, ao ignorar a interdependência económica moderna, os EUA correm o risco de repetir os erros do passado, o que poderia levar a ciclos de contração económica e fragmentação política.
A globalização do século XXI é mais densa e integrada, o que torna os efeitos das tarifas mais graves do que no passado. Baldwin (2020) observa que o sistema de “cadeias globais de valor fragmentadas” faz com que os efeitos das tarifas impactem simultaneamente múltiplos países, em vez de serem restritos a um número limitado de nações.
5. A NECESSIDADE DE COOPERAÇÃO E MULTILATERALISMO
A resposta a este cenário precisa passar pela revitalização do multilateralismo. Autoridades da OMC (2023) afirmam que a perda de legitimidade do órgão, devido à proliferação de medidas unilaterais, coloca em risco a gestão global do comércio. A criação de mecanismos alternativos, como acordos plurilaterais, poderá diversificar os parceiros comerciais e reduzir vulnerabilidades. Segundo Rodrik (2020), o desafio contemporâneo é reconstruir um sistema multilateral que seja inclusivo, flexível e capaz de lidar com as complexidades do comércio global.
A OMC, embora imperfeita, continua sendo uma das plataformas mais importantes para a regulação do comércio internacional. No entanto, seu modelo precisa ser reformulado para responder adequadamente aos desafios impostos pelas novas dinâmicas comerciais, como as políticas tarifárias unilaterais dos EUA.
6. CONCLUSÃO
As tarifas impostas pelos EUA têm efeitos económicos adversos, prejudicando a eficiência produtiva e o comércio internacional. Mais do que proteger a economia doméstica, estas medidas desorganizam cadeias globais de valor e fragilizam alianças estratégicas. A solução reside no fortalecimento das instituições multilaterais, no incentivo à cooperação internacional e na promoção de políticas comerciais pautadas pela reciprocidade e pela previsibilidade. A história e os dados empíricos sugerem que a intensificação do protecionismo pode ter consequências irreversíveis para a estabilidade económica global.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Baldwin, R. (2020). The Globotics Upheaval: Globalization, Robotics, and the Future of Work. Oxford University Press.
Bown, C. P., & Irwin, D. A. (2019). The Genesis of the Current Trade War: The US-China Trade Conflict. Journal of Economic Perspectives, 33(4), 3–24. https://doi.org/10.1257/jep.33.4.3
Crowley, M. A., Song, L., & Meng, T. (2021). Tariff Passthrough at the Border and at the Store: Evidence from US Trade Policy. CEPR Discussion Paper.
Eichengreen, B. (2019). Trade Policy in the 1930s and Now. VoxEU.org. https://voxeu.org
European Union Commission. (2025). Resposta às tarifas comerciais dos EUA. CM Jornal. https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/franca-diz-que-ue-vai-tributar-servicos-digitais-dos-eua-em-resposta-a-tarifas
Evenett, S., & Fritz, J. (2021). Subsidies and Market Access: Towards an Inventory. Global Trade Alert Report.
Goldberg, P. K., & Reed, T. (2022). Trade Protection and Global Value Chains. National Bureau of Economic Research (NBER) Working Paper No. 30590.
International Monetary Fund — IMF. (2023). World Economic Outlook — Global Trade Tensions. https://www.imf.org
Irwin, D. A. (2017). Clashing over Commerce: A History of US Trade Policy. University of Chicago Press.
Meloni, G. (2025). Declarações sobre tarifas comerciais dos EUA. Record. https://www.record.pt/fora-de-campo/detalhe/meloni-defende-que-tarifas-dos-eua-sao-uma-ma-jogada-que-apenas-enfraquece-o-ocidente
Rodrik, D. (2020). Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy. Princeton University Press.
União Europeia. (2025). Resposta às tarifas comerciais dos EUA. CM Jornal. Disponível em: https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/franca-diz-que-ue-vai-tributar-servicos-digitais-dos-eua-em-resposta-a-tarifas
World Trade Organization – WTO. (2023). Trade Monitoring Report. https://www.wto.org



