Continuando o tema da vacinação, começo por abordar duas notícias que surgiram esta semana e que se enquadram perfeitamente nesta discussão: uma, a nível nacional (Portugal), revela uma subida da taxa de mortalidade infantil em 2018 (uns expressivos 26%, ainda que com dados provisórios); a outra, a nível internacional, aponta a recusa ou a relutância na vacinação como um dos assuntos mais preocupantes em 2019, num Top 10 elaborado pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Se houvesse dúvidas quanto à relevância e actualidade do tema, penso que ficam assim desfeitas.
Sem esquecer a nossa Língua Portuguesa, cito o poeta Fernando Pessoa, que nem sequer foi pai (embora tenha adoptado alguns heterónimos mas são outras conversas…): “o melhor do Mundo são as crianças”. Eu sou pai, muitos dos que lerão isto também são, ou serão, e a preocupação com as crianças, nomeadamente com os nossos filhos, é transversal a todo o Mundo, certo? Então, por que não vacinar as nossas crianças e contribuir para que vivam mais tempo, e mais saudáveis?! E, já agora, por que não vacinar os adultos para conviver durante mais tempo com as nossas crianças?! Enfim, a contestação da vacinação, embora com uma nova dinâmica nos últimos anos, existe desde sempre. O exercício é complicado mas o prometido é devido e efectivamente há razões para a não vacinação, que aqui distingui em cinco grandes grupos.
- A perigosidade.
O argumento da perigosidade parece razoável: esmiucemos. A verdade é que uma vacina expõe-nos a algo estranho ao organismo, embora seja impossível perceber se o contacto com esse agressor causador de doença surgiria posteriormente de uma outra forma qualquer – e podendo surgir, por que não estar preparado para a mesma?!. A vacinação em si, o acto de injecção, acarreta perigos como o de infecções, nomeadamente se o procedimento for mal executado tecnicamente – é possível, errar é humano, mas o risco é igual ao da recolha de sangue para uma simples análise, e geralmente as pessoas gostam de saber se estão doentes e não põem esse procedimento em causa. Quanto a argumentos como a vacinação ser a causa de doenças (quando, na verdade, e ao contrário, é um mecanismo de prevenção de doenças…), como o autismo, não há provas científicas que suportem esta afirmação – mas há prova científica de que as vacinas já salvaram milhões de vidas, por exemplo. E há outras questões de segurança; afinal temos doenças, algumas delas de elevada infecciosidade e letalidade, guardadas em laboratórios: isto é seguro? Não estaremos aqui a criar focos de perigosidade!? Há, pelo menos, legislação sobre a matéria, assim como um conhecimento prático de várias décadas de trabalho com doenças infeccionas, a nível mundial. E as vacinas não têm efeitos secundários? Claro que sim, como tudo na vida há vantagens e desvantagens. Tudo considerado, contudo, os benefícios continuam a compensar os eventuais, e controlados, perigos da vacinação.
- A liberdade.
Sejamos claros e directos: a vacinação não é obrigatória, mas a questão é óbvia e legítima: a vacinação deveria ser obrigatória?! É uma questão de saúde pública! Poderia haver atritos quanto ao carácter obrigatório da vacinação, devido à restrição da liberdade individual (enfim, só este tema dava um livro), mas para gozarmos dessa mesma liberdade temos de estar vivos, certo? A ideia das vacinas também passa por estarmos vivos mais tempos e usufruir desses ideias de Liberdade, e afins. A liberdade individual choca, e chocará sempre, com a liberdade colectiva; o indivíduo não se vacina, contribui para a disseminação de doenças que poderiam ser erradicas pela vacinação, e prejudica assim a sociedade: qual destas liberdades, a individual, ou a liberdade sanitária comunitária (chamemos assim a esse estado utópico livre de doenças), deve prevalecer? Não será aqui dada a resposta definitiva, se é que há uma, mas reflictamos nisto…
- A educação.
Como cientista, a resposta à questão-título deste artigo é bastante simples: a culpa não é das vacas, muito pelo contrário, e faz todo o sentido vacinar as pessoas. Esta semana, a grande discussão na sociedade Portuguesa, convenhamos, prendeu-se com quem está atrás ou à frente da imaginária linha de fora de jogo de uma partida de futebol (Portugal, 2019 A. D.). Já citei aqui duas outras notícias relevantes desta semana, que nunca terão a mesma visibilidade e relevância do que essa linha imaginária. Isto no fundo é tudo uma questão de educação, e acredito plenamente que uma sociedade mais educada terá uma tendência natural para optar pela vacinação, sem grandes reservas, e saberá identificar os erros crassos de muita da argumentação usada pelos movimentos anti-vacinação. A educação, um processo moroso, de gerações, e que era a paixão de um dos nossos governantes há uns 20 anos, terá evoluído na nossa sociedade? Está melhor agora em relação ao governo do Eng. Guterres? A propósito, as grandes concentrações de pessoas, como os eventos de futebol, favorecem a propagação de doenças contagiosas! Mas afinal o golo foi bem anulado ou não!?
- A estupidez humana.
Este é o grupo mais abrangente, porque desde o autismo sem provas (já aqui abordado, e está provado que estas conclusões não só foram erradas como fraudulentas) à pretensa inutilidade das vacinas (décadas de estudos e aprimoramentos científico-tecnológicos para conclusões destas…), passando pela moda da não vacinação (“a moda é tão insuportável que se tem de mudar a cada 6 meses”, ou algo neste sentido, citando Oscar Wilde) até a uma certa obsessão por estilos de vida saudáveis e isentos de “contaminantes” (porque é moda, ver o aforismo anterior), tudo parece constituir um argumento viável para justificar a não vacinação: haja paciência! A maioria destes argumentos é tão facilmente refutável que nem valerá a pena perdermos mais tempo. No entanto, apelo à vossa imaginação para continuarem esta lista dos mais inusitados argumentos…
- A eterna questão da religião…
E acabo com o grupo mais complexo, e quiçá polémico, de razões para não vacinar: as questões da religião. As religiões, e os seus dogmas, continuam a fazer sentido para milhões de pessoas neste planeta, e se uma religião não reconhece ou proíbe mesmo a vacinação, o que fazer: proteger “cientificamente” um filho ou protegê-lo “religiosamente”? Não deve caber a um cientista responder a essa questão, é algo do íntimo de cada um, de cada família, de cada comunidade religiosa. A ciência, ao contrário da religião, não explica tudo – mas demonstra bons resultados para quem quer ser vacinado. Aqui poderá ser feito um parêntesis, relativo à fé. A fé, religiosa ou não, poderá ser um importante elemento de cura, ou de motivação para a reabilitação. A fé poderá ser tão forte que leve a uma “cura sem tratamento”? A fé poderá ser mais forte do que os argumentos científicos que resultam há décadas consecutivas, no caso da vacinação, em reduções brutais da mortalidade? Fé em quê? Fé em quem? O que é a fé? Um placebo? Eternas questões…
Já estão sensibilizados para a não vacinação? O tema daria pano para mangas e este não pretende ser um artigo exaustivo, apenas um elemento de reflexão para quem dele quiser beneficiar. Para descomprimir, e a título de curiosidade, a foto que acompanha este artigo foi tirada nos transportes públicos da Bulgária, onde além de não se poder comer e fumar parece que também proíbem a vacinação a bordo… Na próxima semana, para encerrar o tema da vacinação, vamos focar-nos na realidade Portuguesa, à luz da notícia do aumento da mortalidade infantil, e das alterações ao Plano Nacional de Vacinação. Para mais pormenores sobre a possível culpa das vacas neste assunto esperem pela Parte III, que sai já na próxima semana.
Nota: o autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico de 1990.



